segunda-feira, 28 de março de 2016

“Enquanto cidadão, o cristão pode votar e ser votado”

 Erick Lessa
Aos 38 anos de idade, o delegado Erick Lessa se destaca por ter liderado operações que impactaram  o Agreste de Pernambuco. Casado há 10 anos e pai de uma menina de 6 anos, Lessa é alagoano, mas reside em Caruaru desde 2008. Cristão evangélico, é batizado nas águas há cinco anos. Além da formação secular celebrada na sociedade, Erick Lessa é bacharel em Teologia. Nesta entrevista exclusiva a 'Presentia', ele aborda questões como a relação entre o cristão e a política e apresenta um discurso a favor da excelência no serviço público. Confira:

A teologia cristã traz a ideia de 'salvação pessoal'. O senhor acha que esse conceito reverbera em um certo 'egocentrismo', de modo que o cristão fica muito voltado para si mesmo? Qual seria, então, o papel do cristão com relação à política?
Teologicamente, eu também entendo a salvação como pessoal, quando o ser humano confessa Jesus Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador. Porém, a Bíblia nos mostra que é necessário iluminar todas as áreas onde estamos inseridos. É necessário iluminar não só com palavras, mas também com atitudes, com posições firmes, mesmo respeitando as outras opções. Não podemos esquecer que a cruz é a nossa bandeira principal. Acredito que o Evangelho também tem a questão do movimento social, das causas sociais. Enquanto cidadão, o cristão pode votar e ser votado. Ele pode escolher se vai representar apenas um movimento social ou se vai representar toda a sociedade. A Palavra de Deus diz que quando um justo governa, o povo se alegra. Todavia, acredito que o cristão deva se posicionar no campo político, mas também na educação, na saúde, na segurança, nos ambientes onde ele estiver inserido. Além de viver a salvação pessoal, precisamos contagiar as outras pessoas, empenhados em trazer o reino de Deus – justiça, amor e paz – para a terra, conforme está na oração do Pai Nosso.

Muitos cristãos dizem que não se envolvem com política, pois é um ambiente muito corrupto. O que o senhor pensa sobre isso?
Se existe corrupção na política, é porque existe corrupção em outras esferas da sociedade, inclusive nas igrejas. Precisamos ser muito honestos. É necessário sair das quatro paredes da igreja, mostrando que somos honestos, sérios e contrários à corrupção. A igreja precisa influenciar, não ser influenciada, para assim refletir a luz de Cristo na sociedade.
Homens como Martinho Lutero e João Calvino escreveram sobre a política. Além disso, temos na Bíblia exemplos de homens como José do Egito, Daniel e Mardoqueu, que foram servos de Deus que assumiram espaços como lideranças políticas.

"Além de viver a salvação pessoal, precisamos contagiar as outras pessoas, empenhados em trazer o reino de Deus – justiça, amor e paz – para a terra, conforme está na oração do Pai Nosso."
Eric Lessa
O que se vê atualmente são políticos cristãos que querem representar apenas um segmento social, buscando implementar para a sociedade inteira normas que são exclusivas para a igreja. Qual a sua opinião acerca disso?
É importante salientar que Deus está na Constituição da República do Brasil, ao final do preâmbulo, onde cita “a proteção de Deus”. No entanto, a Carta Magna demonstra que o Brasil é laico, ou seja, não professa nenhuma religião. Entendo que nosso país é teísta, mas não confessional. Assim sendo, o governante deve administrar para todos, respeitando a liberdade religiosa, sem fundamentalismo nem radicalismo. É necessário respeitar a religião, a etnia e a fé das outras pessoas.
Por exemplo, recentemente, foi divulgada uma notícia que um adolescente de 14 anos foi agredido por cristãos fundamentalistas porque ele é adotado por um casal gay. Mesmo entendendo que a família é composta por homem, mulher e filhos, não posso entrar com violência e agressão contra tem uma opinião diferente.

De que forma o cristão percebe sua vocação política?
Acredito que, em primeiro lugar, é necessário desmistificar a palavra 'política'. Costumo dizer que política começa em casa. Porém, a política tem a ver com a 'res-pública', ou seja, a coisa do povo. O cidadão também é dono da Prefeitura de Caruaru, ou seja, de toda a coletividade da cidade. É mais ou menos como um condômino de um prédio. Quanto à vocação, é necessário que as pessoas ao redor reconheçam-no como uma liderança. Assim sendo, as pessoas decidem se votarão nele ou não. Muitas vezes, se o cristão se abstém de ser votado, termina sendo governado por pessoas com pensamentos completamente contrários aos nossos princípios de promover uma sociedade mais justa.

O senhor concorda que, nos últimos anos, os cristãos no Brasil têm se manifestado politicamente apenas em pautas morais, como o casamento homoafetivo e o aborto, deixando de lado outros temas?
Muito boa a pergunta. Sem dúvida, o cristão muitas vezes esquece que também é cidadão e precisa ter posições firmes não só a questões teológicas, mas quanto ao exercício da cidadania. Será que o cristão se lembra de quem votou nas últimas eleições? Será que ele acompanhou o mandato do seu candidato? Quais são as posições cristãs quanto à sustentabilidade, à economia, à saúde, à segurança ou à educação? Ora, se não tivermos uma educação de qualidade, como formaremos as próximas gerações, que respeite as diferentes e a qualidade no serviço público?

O senhor é delegado da Polícia Civil, que também é um ambiente um tanto difícil. Como o senhor se situa na relação cristão e polícia?
Eu vou lhe dar um exemplo. Quando vim ser delegado de polícia em Pernambuco, muitos disseram que eu viria para um local de corrupção. Lembro-me que meu pai, em uma conversa, me disse que esperava que eu fizesse a diferença na polícia. É isso o que busco fazer: combater a corrupção e respeitando as instituições e os cidadãos. Entendo que o público deve ser atendido com eficiência e qualidade. Enquanto cristão, busco fazer meu trabalho com dedicação, respeitando os princípios e valores que aprendi na igreja.

Nos últimos dias, seu nome tem despontado no ambiente político como pré-candidato a prefeito de Caruaru...
Em muitas oportunidades, tenho sido indagado porque eu tenho me posicionado como uma opção no campo político. Minha resposta é que, antes de tudo, sou cidadão e devo honrar os impostos pagos pelo povo. Quero, enquanto cristão, ser uma opção que respeita a lei – a Constituição – e a Lei de Deus, que é o amor ao próximo. Enquanto cristãos, devemos influenciar positivamente os espaços onde estamos, na condição que estivermos – seja como profissional, estudante, cidadão, enfim, em qualquer situação.

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