Pastor também precisa de descanso
Iniciamos, com esse artigo, a apresentação de pequenos textos voltados à administração eclesiástica. Esperamos que eles sirvam de indicação para uma postura saudável na vivência cotidiana de uma igreja enquanto pessoa jurídica, relacionando-se juridicamente e institucionalmente com outras pessoas, quer sejam pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou de direito privado, participantes de seu organismo ou externos à sua constituição.
E, nada melhor para começarmos esses diálogos – diálogos sim, porque também queremos ouvir –, do que falar de uma pauta fundamental na boa relação entre igreja e seu pastor local: o descanso.Faz mais dois anos que não saio de férias. Estou cansado! Com essa declaração estava anunciado novo período de "ócio" do pastor-presidente na igreja onde servíamos na cidade de Santos, no litoral paulista.
Esperávamos que nosso amigo vivesse grandes momentos de "não fazer nada" e bons passeios, para desopilar o fígado, priorizando a família. Afinal, pastor também se cansa. É a hora de refazimento e esvaziamento; de aproveitar para organizar algumas gavetas internas; livrar-se de alguns lixos acumulados e, ainda, cuidar da saúde. Férias também é isso: uma fase preparatória para mais um período de grande produção e trabalho. Na verdade, o amigo que estava saindo de férias gosta do trabalho – aliás, muito trabalho –, e, apesar de não vê-lo como sacrifício, cansa.
Jesus trabalhava muito. Gerenciava um grande grupo de seguidores: "Cadê o alimento para o povo? O quê? Somente dois peixes e cinco pães? Onde está o tesoureiro? Não fizeram compras para alimentar o povo? Ok, vamos dar um jeito nisso!" Jesus também era especialista em RH: "Pedro! Está admitido e logo será promovido. Você, de agora em diante, será pescador de homens"; "Zaqueu, desça já dessa árvore".
Jesus também gerenciava a área de produção: "Rapazes, não pescaram nada! Novamente! Joguem a rede ali onde estou apontando... Isso, ali mesmo". E a questão tributária? Jesus gerenciava também seu departamento tributário com maestria: "Pedro! Pesque um peixe e encontrarás o valor necessário para pagar nossos tributos!"
Poderíamos enunciar inúmeras outras atividades exercidas por Jesus, mas citemos apenas alguns exemplos de seu profissionalismo. Entretanto, Jesus também ensinava, pregava, curava e salvava, e continua ensinando, pregando, curando e salvando, a cada dia, todos os dias. E a Igreja Dele, e que com Ele é um só Corpo, continua ensinando, pregando, curando e salvando. A Igreja de Jesus continua cumprindo seu ministério somente porque é Jesus quem faz. Faz isso usando Sua Igreja.
Mas isso cansa! Fomos criados pelo Deus eterno que não se cansa, ao contrário de nossa limitação. Curiosamente, a Bíblia fala que Ele "descansou" ao sétimo dia de seu exaustivo trabalho de criação do universo. Depreende-se que, se Ele descansou, é porque estava cansado. Aparentemente, temos aí um pequeno problema "teológico".
Todavia, pensemos juntos: Ele é Todo Poderoso e ilimitado e estava criando um ser limitado no tempo e no espaço, e que precisava de momentos de descanso. Esse ser foi criado à imagem e semelhança de seu Criador, de modo que, para entendermos nossa limitação, Deus gentilmente se fez de cansado e... descansou. Precisamos aprender a descansar. Olhe para o Deus eterno que nos criou e também descanse!
Observe, caro leitor, que fiz uma abordagem quase pastoral, ao iniciarmos esses diálogos, mas já sinalizando alguns temas que trataremos daqui em diante – aspectos gerenciais, tributários, trabalhistas, contábeis legais de uma igreja.
Aguardamos para ouvir você, com dúvidas e sugestões.
Cícero Duarte é autor das obras Igrejas na mira da Lei e Direito para igrejas, pastor membro da equipe ministerial da Igreja Batista do Parque Panamericano em São Paulo (SP) e membro da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL).


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