Idéia por trás da idéia: O que entendo sobre a natureza humana afeta minha construção política?
Estive em Pasadena Califórnia por alguns dias em estudos intensivos no doutorado que faço. No domingo caminhei a pé pelo Colorado Bulevar para ver um pouco da vida ao meu redor e não perder completamente minha humanidade nos livros. Lá pela altura das “Los Robles” uma igreja presbiteriana gigantesca anunciava num banner colorido plantado no passeio: “Desiludido com as instituições? Venha para nossa reunião meditativa às 7 horas.” As igrejas por aqui conhecem o público que tem. Elas sabem que a desilusão pós-moderna tomou conta dos jovens hoje como uma doença contagiosa.
De certa forma eu também cultivei até um tempo atrás esta descrença nas instituições. Se eu tivesse que definir os problemas do mundo numa equação simples o faria assim:
Pessoas nobres e boas + Instituições sociais falidas e corruptas = O mundo enlameado e corrupto que aí está.
Na verdade a malignidade das instituições pra mim era uma questão axiomática. Não precisava de explicações, as evidências fatuais me informavam. Nunca pensei que fosse um problema ideológico, nem que a bíblia pudesse ter uma outra opinião sobre a malignidade intrínseca das instituições humanas. O fato é que esta decepção institucional é questão ideológica sim. Elas se encontram na base da pirâmide ideológica da nossa visão sobre quem seja o ser humano. Hobbes e Rosseau defenderam idéias opostas sobre a natureza humana.
Hobbes argumentava que seres humanos são em sua essência propensos ao egoísmo e auto-preservação. Ele ecoa Plautus dizendo que o homem é portador da maldade em si, como um lobo errante capaz de ser o predador de si mesmo: Plautus: Asinaria (195 BC, “lupus est homo homini”) O homem é o lobo do homem”.
Rosseau pensava o contrário. “Os homens não são naturalmente inimigos”… Considerava o homem inerentemente bom. Mas como explicar então que a maldade está em todo lugar, e que as experiências sociais se tornam em uma sucessão de fracassos? Se o ser humano é bom, a implicação é de que o problema da maldade humana então, tem que ser explicado pelas estruturas sociais. “O ser humano é livre, mas em todos os lugares o vejo prisioneiro”, diz Rosseau. A instituições e a sociedade, se tornam o grande problema. Por isto para Rosseau o ser “perfeito” é o nobre selvagem que não foi ainda corrompido, porque vem de culturas livres do ocidentalismo. Culturas “inocentes” formam sociedades inocentes, ausentes do mal. Voltaire, Thomas Paine, e D’Holbach defenderam esta visão irrestrita, do homem. No coração desta ideologia está a presunção de que as escolhas morais do ser humano são a raiz de todo o mal do mundo, e que melhores escolhas, e melhores políticas sociais são a solução para todos os problemas.
(Já falei aqui antes sobre os danos da perspectiva Rosseauniana para o indigenismo brasileiro. Nossa versão do nobre selvagem é pensar que a pureza do indígena tem que ser protegida da maldade de nossas instituições capitalistas, portanto temos que deixá-los completamente marginalizados, à míngua, ou a ver passar navios diante de suas ilhas de nobreza selvagem. Não levamos até eles uma educação que os permita a emancipação, não levamos a consciência da cidadania, da civilidade porque não acreditamos mais na civilização que construímos. Mas esta não é a questão que quero tratar neste post.)
Minha ideologia pessoal era Rosseauniana por excelência. Alguns fundamentos da teologia pentecostal me ajudaram a embiblicar esta idéia sem ter que confrontá-la. Não somos mestres em fazer isto? Quando gostamos de uma idéia é tão fácil torná-la bíblica, sem ouvir o que a Bíblia tem a dizer sobre ela…
(Me parece que, (outra divergência do assunto principal) alguma coisa na teologia pentecostal faz com que tenhamos uma sensação de poder contra o pecado que não é muito realista. Nos achamos invencíveis e quase que isentos do pecado. De Clark Kent viramos em Homens de Aço com o Espírito Santo…)
Agora descubro que na verdade por mais que me doa, Thomas Hobbes, Adam Smith, Alexander Hamilton, Edmund Burke e meu recém conhecido Friederich Hayek, estavam certos. E claro não posso deixar de citar Calvino e Agostinho. O pecado na verdade faz parte de mim e das pessoas ao meu redor. Esperar que as pessoas se tornem santas ou que a santidade lhes seja natural, é apostar contra a natureza humana. A santidade, a pureza moral é adquirida duramente escolha por escolha. Enquanto estiver nesta terra pentecostais ou não, a atitude correta para vencer o pecado é saber que a capacidade para pecar, para agir egoisticamente, sempre está conosco. É numa escolha de amor constante e penosa que vencemos o pecado.
O ser humano não é nobre por natureza. Culturas tem um lado feio e corrupto porque nós temos um lado feio e corrupto. Estamos mesmo vivendo num mundo caído onde o “default” é o pecado, o mal, o egoísmo. A graça emprestada do Senhor nos faz sermos capazes da bondade, e do amor, e quando redimidos, lutando com ele, obtemos num dia a dia de aprendizado e morte do eu, o caráter santificado.
Disse James Featherby, advogado envolvido com as discussões da igreja anglicana e o governo: “Muitos cristãos pensam que ainda vivem na pureza do Eden, ou que já estão vivendo na Nova Jerusalém sem pecado. Esquecem que vivem aqui num mundo caído e corrupto e é nele que temos que funcionar.
Esta visão de mundo que admite o erro como parte do ser humano e admite a nossa limitação na capacidade para o bem, se chama de visão restrita. Esta ideologia crê que o ser humano necessita também de restrições para funcionar em sociedade, e a natureza humana só é “boa” quando regida por leis morais e civis.
Rosseau e os outros advogam a visão irrestrita, onde o homem é bom, quando livre. A natureza humana é irrestrita em sua capacidade moral para o bem, e que são as instituições e opressões da sociedade que nos transformam em pessoas-problema.
A visão restrita de Hobbes nos guia para uma ideologia política que defende o direito individual, desconfia de governos grandes e advoga que a lei é a única maneira de manter homens e instituições na prática do bem. Numa sociedade regida por esta ideologia nenhum ser humano é maior do que a instituição que representa, nenhum governante é maior do que a lei. Porque estamos propensos à corrupção, o poder que é concedido aos governantes pelo governo tem que ser limitado. Como disse Lord Acton, “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.
A América foi estabelecida nesta base ideológica. Ninguém pode estar acima da lei. Um “Lula” que desfaz publicamente das instituições governamentais, que se colocou além do alcance da lei por tantos anos aqui seria impossível. Obama tenta, mas por mais forte que seja o símbolo que ele representa, maior é a instituição do governo. Obama como qualquer outro presidente se forem provadas as irregularidades de seu governo, vai pagar por isto na mesma cadeia em que ficam os criminosos se for o caso para tanto. Não existe por aqui, “criminoso comum” existe criminoso e ponto final.
A visão irrestrita implica no entendimento que dando-se as condições ideais, a humanidade vai bem. Se as instituições forem nobres como as massas, alcançaremos os paraíso. O problema mora sempre nas circunstâncias externas, em governantes corruptos, em instituições comprometidas com falcatruas, nas culturas deturpadas. O pecado, o erro, a transgressão, a maldade não é problema interno do ser humano, é externo. Se houver a possibilidade de que instituições sejam governadas por cidadãos nobres, a sociedade acaba bem. Estes bons governantes são protegidos por uma filosofia que os torna justos, e por causa da ideologia “correta” ganham o direito de controlar a economia, e definir para as massas o certo e o errado de acordo com sua nobre ideologia. Estes seres iluminados vão se encarregar de distribuir riquezas, afirmar minorias e controlar de cima para baixo o bem e o mal. A esperança é sempre nos “nobres” nos “filósofos-rei” que uma vez no poder resolverão todos os problemas.
O espaço aqui é curto e a conversa é longa. Thomas Sowell, economista afro-americano escreveu em 2006: “O conflito de Visões”, livro muito interessante que nos traz muita luz sobre o mundo atual.
Vou tentar fazer uma série de posts tratando das implicações das duas visões para nossas expectativas sócio-políticas. O papel do governo, das leis, da história, e do cidadão. O alcance deste blog não é grande, mas quem sabe podemos trazer mais gente para a discussão e assim ajudar a montar uma visão mais construtiva para o nosso Brasil que não está contente com a situação que vive, mas que também não sabe para onde ir…
BRAULIA RIBEIRO
Ultimato
Referências citadas:
Hayek, Friedrich A. von. 1960. The Constitution of Liberty. Chicago: University of Chicago Press.
Hobbes, Thomas. Of Man, Being the First Part of Leviathan. BiblioBytes. Available fromhttp://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&scope=site&db=nlebk&db=nlabk&AN=2008503.
Mill, John Stuart. On Liberty. Alex Catalogue. Available fromhttp://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&scope=site&db=nlebk&db=nlabk&AN=1085953.
Rousseau, Jean-Jacques Dunn Susan May Gita. The Social Contract and, the First and Second Discourses. Yale University Press 2002. Available from http://site.ebrary.com/id/10170056.
Sowell, Thomas. A Conflict of Visions Idealogical Origins of Political Struggles. Basic Books 2007. Available from http://www.msvu.ca:2048/login?url=http://www.msvu.eblib.com/patron/FullRecord.aspx?p=903726.



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