Caminhando não só pelos centavos, EU FUI!
No ano em que nasci
surgia essa canção. Que veio a tornar-se hino na luta contra a Ditadura Militar
brasileira. Caetano retrata nela muito bem, cultura e politicamente o que se
desenrolou na década de 60. E me perguntam antes: você vai protestar contra
quem ou o que? E você não está na gestão? Como vai ser contra a quem você
ajudou a eleger?
Cresci e fortaleci
meu caráter de luta nas caminhadas desde adolescente, tendo oportunidade de
participar em 80 das “Diretas Já" com Tancredo Neves aqui em nosso
município, numa grande mobilização com Caio Fábio em Brasília em 90, e nas
décadas seguintes em várias marchas do MST e em todas as marchas, protestos e
ocupações do MTST, em Pernambuco ou fora do estado. Em várias delas correndo
risco de morte.
Neste sábado eu fui!
Primeiro a fé no Deus
que eu sirvo não me prende aos grilhões da escravidão de uma religião que me
deixa à margem do caminho. Antes ela é libertária, e compreende a dor do outro
como se fosse em mim. Primeiro agiu em mim me reconciliando com o Criador e me
levando a ter uma nova relação com sua criação e criaturas. Ele me deu uma nova
consciência ao ponto que essa "mudança de vida" não vai se expressar
na aparência esquisita e sim em atitudes. Assim, se antes eu poluía, agora eu
preservo, se agia com violência agora pratico o diálogo, se pensava só em
acumular pra mim agora eu conscientemente faço a opção de dividir. Em minhas
limitações estarei mais aberto para ouvir e aprender com o outro, não me
colocando a cima nem melhor que ele.
Fui solidário aos
milhares feitos milhões nas cidades do país. Essa onda crescente ainda vai
crescer um pouco mais e, consequentemente, também trás consigo a conta de muito
estrago, em dano ao patrimônio público, gestos mais exaltados por parte de quem
não agüenta mais viver na pele tanta injustiça (consigo ou com o próximo) ou,
da força estúpida e desumana, quando não despreparada, de policiais não
vocacionados. A raiva contida, o ódio, o desgosto reprimido não devia, mas
acaba sendo também externado nessa hora. Se há quem faz isso de forma
orquestrada ou por maldade é outra questão, que não vou me ater agora.
Compartilho, na minha
realidade local, do descontentamento nacional do que ainda não foi conseguido.
Se em muitos pontos na última década houve melhoria na vida das camadas mais
carentes da população não posso deixar de considerar que precisamos avançar
mais em questões como Moradia Digna, Justiça Social, Saneamento Básico,
Melhorar a distribuição de renda, Educação melhor, Preservação ambiental,
Cidadania, Saúde, e por ai se vai. E não venham me dizer que a passeata se
propõe a ser especificadamente contra isso ou aquilo, ou contra alguém, se eu
entender que está assim, eu saio. Mas nada impede que nela estejam pessoas com
essa intenção, pois é na soma que ganhamos, não na subtração.
Digo isso por
entender que o clamor é mais amplo e mais profundo. Por isso está
arregimentando tanta gente às ruas. Na realidade não há motivo para não sair,
por isso eu também não concordo em dizer que não aceita-se bandeiras de
partidos, sindicatos ou ONGs, políticos que queiram ir com sua família (os que
tiverem vida pública integra). Pois quando eu olho aquela multidão eu penso que
está ali o aluno que reclama melhor educação, mas também o professor melhores
condições (incluindo a sagrada e heróica luta dos docentes daqui pelo PCC); vejo
mães que perderam seus filhos e lutam na justiça para que os responsáveis sejam
punidos; vejo sem tetos, sem terras, sem direitos, sem emprego, sem médicos,
mas de esperança renovada. Há quem não goste de seu gestou seja em que esfera
for, mas o que se cobra é bem mais imenso.
Há uma nuvem nebulosa
e que não cheira bem que insiste em pairar no ar. A ambição, a cobiça, o
orgulho, o egoísmo, a prepotência, a vanglória, a soberba, a desumanidade, a
crueldade, a falsidade, a busca desenfreada do prazer pelo prazer, a
vulgarização do outro, o desrespeito a lei exatamente por quem deveria cumpri-la,
o abuso da força bruta e de autoridade de quem deveria estar a serviço da ordem
e da segurança, a opressão dos que mais tem sobre os que pouco possuem, isso
deveria nos levar a dar a "meia-volta", primeiro nos examinando e
depois mudando de atitude. A corrupção principalmente dos políticos nefastos,
os vícios dos comerciantes e empresários gananciosos que vivem de lucros
exorbitantes - por falar nisso, a redução de impostos parece ser um esforço do
Governo Federal em ajudar a diminuir a passagem dos coletivos, mas dos
empresários pode-se esperar um gesto de sacrificar-se reduzindo sua margem de
lucro?
Estive ao lado dos
que estão descontentes com toda forma de manipulação existente, seja da
imprensa, de líderes eclesiásticos ou políticos, por REFORMAS no segmento
urbano, agrário, político. Por uma nova FORMA de viver em sociedade que sofre
DEFORMADA, até pela inércia dos CONFORMADOS, e a este o recado é "TRANSFORMAI-VOS"
e lutai!
Só pode haver
transformação de atitude se houver consciência do erro, confissão e
arrependimento sincero.
A imagem de policiais
em Recife segurando uma faixa em solidariedade aos que marcham me traz a
memória os que em outros locais usaram suas armas e fuzis contra manifestantes,
a estes eu espero que baixem seus fuzis, junte-se a gente. Políticos desonestos
e prepotentes, ainda é tempo, tirai vossos paletós e gravatas desnudando-se da
arrogância. Basta de tirania, de acordos escondidos e nojentos. Haja uma busca
por justiça, respeito e verdade. Não vamos esperar que o ódio se inflame mais,
que o caos se instale de um modo que não se consiga voltar para trás.
Olhos orvalhados,
como de tantos que observei. Pude caminhar entre todos os blocos e abraçar
emocionado, entre tantos, velhos caminhantes como Reginaldo Melo e novos como
Joana Figueiredo. As duas filhas mais velhas minhas uma não pode ir (estava
enferma) a outra foi.
Assim como na canção,
fui de vermelho, "Eu quero seguir vivendo, amor / Eu fui... Por que não,
por que não...
Paulo Nailson
Publicado anteriormente no Blog do Mário Flávio




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