A integridade possível e o mal do poder

Cristianismo Hoje – Qual a diferença entre integridade e caráter?
Ageu Lisboa – Caráter é o núcleo íntimo da personalidade, um centro irradiador de valores que caracteriza uma pessoa. Este núcleo consistente funciona como o peso-de-base do boneco “João Nadabobo”, ou seja, quando empurrado, sempre volta à posição original. Caráter expressa, então, uma força espiritual organizadora da psique, uma dada estrutura básica e resistente a mudanças. Quem colocou este assunto no centro de seu sistema de psicologia foi Wilhelm Reich. A estrutura do caráter tem a ver com o “todo orgânico”, o biodinâmico marcado pelas vivências prazerosas e desprazerosas, os comandos verbais e condicionadores que recebemos, em especial as mensagens emocionais nos ambientes formativos dos primeiros anos. Integridade eu defino como aquilo que é digno de confiança, que se apresenta completo, sem maquiagem, com o melhor de sua natureza. Aplicados em humanos, uma qualidade moral positiva, pessoa que age segundo a verdade e se orienta com justiça, quem caminha com transparência e coerência. Não quer dizer infalibilidade, mas uma tendência à veracidade.

O que faz uma pessoa ser íntegra?
Ser acolhido e educado num ambiente amoroso e justo é o maior estímulo, sem dúvida. Receber uma formação espiritual em que aprenda a  ser um-com-os-outros, a conviver com limites e partilhas. À medida que deixamos a infância, espera-se que caminhemos rumo a uma maturidade psíquica e política, assumindo plenas responsabilidades por nossa vida. Viver se traduz, assim, por escolhas e respostas que carregam sentidos e valores, gerando efeitos sobre outros e em nós mesmos. Em todo o tempo estamos nos comportando, ativa ou passivamente. Se pouco conscientes, predominará o instinto e o automatismo, então, coisa boa ou má poderá sair. Como membros da raça humana, pertencemos a um habitat que gera exigências éticas sobre todos. Não podemos ignorá-las e agir segundo o próprio desejo e vontade particular, desconsiderando outros, pois nem ao menos nos fizemos a nós mesmos. Somos construídos e vivemos articulados socialmente, reconhecendo e honrando o laço social contribuiremos para a paz e a justiça.

A vida religiosa e o evangelho, mais especificamente, são uma maneira de se alcançar um nível moral mais elevado?
Não e sim. Religiosos de tempo integral, de todas as religiões, preservam culturas, servem às populações e são depositários de muita confiança popular. Mas têm lá seus problemas. Conventos e seminários não são garantia de santidade nem bondade. O Papa Bento XVI tem assumido a vergonha e a culpa por tantos pedófilos na Igreja Católica. No campo protestante e evangélico temos também nossos porões obscuros. Centros de tratamento de vítimas de abusos sexuais e violência doméstica encontram grande participação de pastores entre os violadores. A religiosidade mal instruída, estreita, moralista e fanatizada é uma praga encontrada nas mais diversas expressões ditas religiosas. Os talibãs, excrescência perversa e sádica no islamismo e os ultra-ortodoxos judeus que mandaram assassinar o próprio Primeiro-ministro Isaac Rabin, são irmãos gêmeos. Pastores que pregam cercos espirituais e desrespeitam ostensivamente cultos afros e católicos seguem na mesma linha. Psicologicamente é uma projeção doentia de sombras do coração, associadas à ignorância cultural. Espiritualmente revela desconexão  com o espírito de Jesus Cristo. Socialmente é questão para a polícia

Esse é o “não”. E por que também pode ser “sim”?
Pode ser sim porque, por outro lado, o evangelho possibilita a integridade quando seguimos no Espírito de Cristo. Jesus é a expressão da Nova Humanidade e o evangelho, tal como expresso nos textos bíblicos, traça o caminho da salvação, da via ética, moralmente superior, marcada pela bondade e justiça. Jesus é uma quase unanimidade, positivamente considerado por filósofos e teólogos de outras religiões e pela maioria dos construtores da psicologia como “homem universal”, encarnação do ideal ético. Mostrou-se bem humorado e sábio no ensinar, acolhedor dos excluídos, forte com os duros, festeiro com os que celebram. Conhecer a Jesus através das Escrituras, meditando em suas palavras e acolhendo seu Espírito abre-nos ao grande poder de transformação interior e social de cada pessoa.

Por que líderes e pastores "de bem" são excessivamente cobrados quando cometem um pecado e acabam sendo julgados e execrados (alguns por toda a vida) pela mesma igreja que eles sempre cuidaram?
A natureza do trabalho pastoral em sua acepção bíblica original é a de alguém que vive em comunhão com Deus, instruído nas Escrituras, com vocação e preparo para cuidar de pessoas espiritualmente desorientadas e ensinar as Escrituras. Os termos “trabalho pastoral e terapêutico” se assemelham semanticamente, significando cuidado de almas ou cura de almas. O que traz uma exigência ética específica, a de que se mantenham íntegros, moral e profissionalmente. É compreensível essa cobrança pelo lugar que pastores e líderes ocupam no imaginário popular. Sacerdotes, desde tempos imemoriais, supostamente estão mais próximos da divindade ou conhecem o mundo espiritual. Do mesmo modo se espera que filósofos, juízes e psicólogos apresentem comportamentos coerentes e moralmente sublimes. A população necessita de referenciais de integridade, precisa encontrar pessoas dignas no meio de tanta bandalheira, imoralidade e corrupção. Quando  ocorre um pecado grave, tipo adultério ou falcatrua, isso desperta decepção, revolta e angústia no Corpo.

Talvez por excesso de idealização?
Exatamente. E quanto maior a idealização e até idolatria da figura pastoral, maior a tragédia. Importa considerar que esta idealização da persona pastoral, revestida  com uma auréola de santidade, definida como portador de uma unção superior, geralmente é fruto de uma construção conjunta pastor-comunidade. O pastor, por necessidade narcísica, a comunidade, por demandar um tipo de Pai santo. E como vivem a ensinar os demais, devem se cuidar. Este é o sentido de instruções pastorais que Paulo entrega nas cartas a Timóteo e Tito. Quem aspira ou ocupa posições de comando, junto com os privilégios da posição, deve arcar com o ônus da visibilidade e do lugar que ocupa no mundo das representações sociais. Estão numa posição por demais espinhosa e correm até mais riscos devido ao assédio que recebem, seduzidos com elogios, mobilizados para salvar mulheres, “carentes afetivas" ou "evangelizar" ricos e é aí que uma aliança escorregadia pode se estabelecer.
É um jogo de poder muito perigoso...
AL – Nas comunidades transcorre uma sócio-dinâmica com sutis jogos de poder e influência, cultos à personalidades, idealização de personagens, além de consciente e inconsciente manipulação por grupos no poder. É preciso, de qualquer forma, desmistificar esta figura de pastor, missionário, padre ou rabino como um ser mais capaz de santidade do que outros. É necessário cuidar e ser cuidado. Como prevenção a estes problemas, o contrato  estabelecido entre o corpo pastoral ou pastor e igreja deve prever a assistência adequada às necessidades de sua família e o  compromisso de supervisão entre pares ou com um profissional.
A integridade é uma exclusividade dos salvos em Cristo?
Não. Encontram-se boas pessoas, éticas e bondosas, justas e solidárias em todos os grupos, mesmo entre os ditos “pagãos”. Quem duvida do bom caráter de Mahatma Gandhi, por exemplo? E da Madre Tereza de Calcutá? O apóstolo Paulo escreve sobre a  revelação de Deus em  todo o gênero humano, através da criação e na consciência. Na prática, encontramos pessoas não-evangélicas, que receberam boa formação familiar e educacional e ética, que são excelentes cidadãos, íntegros, amorosos, exemplos de maturidade. E, contrariamente ao que desejamos, temos tantos crentes broncos, mal-formados, imaturos, dando vexame na política, na televisão, com deploráveis deslizes ético-morais. Repete-se o que Jesus teve de dizer aos que se diziam "filhos de Abraão" e se achavam acima dos gentios e com direitos hereditários ao reino de Deus. Jesus desmontou essa falácia ao anunciar que os verdadeiros filhos de Deus são os que de todo o mundo O recebem pela fé e O seguem. Deus é tão gracioso que concedeu talentos e potencialidades de bondade para todos, em toda parte.
O que percebemos é que a palavra "crente" ou “evangélico”, para muitos, virou sinônimo de "enganador", "enrolador", "manipulador" e outras coisas ruins. E, infelizmente, isso também serve para os pastores evangélicos. Há casos de pastores que encontram dificuldades para conseguir financiamento no banco, que são vítimas de hostilidade por parte da vizinhança e outras pessoas...
Qualquer observador imparcial do campo religioso brasileiro e com sensibilidade cultural e ética se choca diante desse quadro. O joio cresce junto ao bom trigo e há um descompasso entre o inchaço da presença dos "crentes" na população do país e a questão ética. Autores, como o professor Mendonça, Paul Freston e Robinson Cavalcanti já analisaram esse fenômeno. A partir da década de 50 a configuração do campo religioso sofreu aceleradas mudanças. Passaram a predominar as teologias mais subjetivistas e emocionais dos pentecostais. Da periferia do sistema, aos poucos chegaram às classes médias e à mídia. Sem o mínimo senso de obediência a um coletivo dirigente, por qualquer discordância alguém se desliga de um grupo e funda o seu próprio. Junto a isto se descobriu uma mina de ouro: insistir em cada culto no recolhimento de imposto religioso. É dito à exaustão que o dízimo é para Deus, que se encontra na bíblia e, por isso, é sagrado. No entanto temos visto esse dinheiro ir para o cofre das famílias de "ungidos".
O ensino da bíblia é feito de forma conveniente...
Totalmente. Há uma leitura bíblica mecânica e conveniente ao clero da maioria absoluta das igrejas e grupelhos, que tratam dessa ordenança para a Israel dos tempos bíblicos como lei para hoje, em qualquer circunstância. Essa prática, pouco discutida, na verdade é um tabu que ameaça quem ousa questionar sua validade, o que, por sua vez, é o fator facilitador e atrativo por excelência dos aproveitadores da credulidade popular e fonte de corrupção. Pobres, pessoas emocionalmente fragilizadas e os sem discernimento são as maiores vítimas. Pastores mauricinhos, que gostam de luxo e viagens ao exterior, mostram que estão possuídos pelo espírito do “capetalismo” e da mentalidade de mercado.
É bom que se diga que os mais de 200 mil pastores evangélicos, ou pelo menos a maioria, são como a população de onde saíram, refletindo sua cultura, vícios e sabedoria. Essa maioria vive com baixos salários, em condições precárias, em meio à violência, e nem assim se deixam corromper. O risco maior está com os que buscam os holofotes da mídia, os que desejam a glória de uma grande igreja a seus pés, os adeptos do espúrio evangelho da prosperidade, antigo evangelho de Mamon Midas.

No romance "Crime e Castigo", de Dostoievski, o estudante Raskolnikov mata sua idosa senhoria apenas para conhecer o sentimento divino de ser o mestre da vida e da morte. A busca pelo poder também é uma das principais origens das falhas de caráter dos pastores e lideranças cristãs?
O ser humano é naturalmente atraído pelo poder, seja para bajulá-lo e se beneficiar dos favores de quem manda ou para dominá-lo e ser admirado. José, filho de Jacó, quando ainda imaturo procedeu provocativamente com os irmãos, colocando-se como o centro da família, o que despertou a ira dos irmãos. Lúcifer ambicionou o poder celestial e sua cobiça resultou na Primeira queda. Adão e Eva foram tentados justamente com a oferta satânica de poder saber e ser como Deus, o poder por excelência. Por que tantas revistas e programas que enfocam o mundo dos ricos e famosos senão por esta atração fatal que o poder exerce nos incautos e nos conscientemente ambiciosos? E a história humana não é a história do jogo do poder, num darwinismo onde predomina o mais forte?
Não é a lógica do mercado materialista? Não é a prática de nações contra nações? É algo de base instintiva, que a Bíblia chamará de carnalidade. Então, é questão que atinge a todos, incluindo pastores. Lidar com esferas de poder é muito importante e necessário, parte da dinâmica social. A questão é manejá-las com ética, orientado por valores do Reino de Jesus Cristo, que disse: "O meu reino não é deste mundo", nem  atua como os dominadores deste mundo. Jesus Cristo trouxe outra lógica, a do amor ao próximo, o espírito de serviço e não o de poder.
Além da má fé, do abuso de poder e outras coisas, falta também preparo bíblico e até emocional a muitos desses pastores?
Sem dúvida. Outras razões para a má-fama de pastores e a suspeita pública que recai sobre eles tem a ver com a patente má-formação bíblica, teológica e emocional da enxurrada de “auto-proclamados” bispos, apóstolos e pastores. Tem cada um! Em geral dispensaram a "incômoda" e exigente tradição de formação pastoral que percorria o ciclo do despertamento espiritual, da chamada, do preparo bíblico teológico de anos e supervisão. Dizem que é perda de tempo, que o Espírito Santo dá a inspiração na hora. Não se apercebem o quanto de voluntarismo carnal estão tentando santificar. E esse voluntarismo individualista é muito sedutor. Querem um caminho rápido para o poder espiritual. Curioso que ninguém é chamado para servir entre miseráveis, mas apenas para ser líder?
Alguns mais sofisticados e com alguma iniciação escolar conseguem a proeza de se formar em "psicanálise" em cursos sob suspeição, já que seus fundadores e docentes não tem credibilidade acadêmica junto aos célebres institutos de formação da área. Basta checar seus nomes e produção científica junto à Capes, CNPQ, Plataforma Lattes, CFP e CFM. Uma confissão do complexo de inferioridade ou do incômodo de ser "apenas" pregador da Palavra de Deus. Freud deve estar tremendo no túmulo por causa desses ousados "novos psicanalistas". Entendo que o Procom, a polícia e o judiciário farão o trabalho de contenção do mal que deveríamos nós mesmos estar fazendo.
Você falou em supervisão entre pares ou por meio de profissional. Acredita que o acompanhamento psicológico pode ser eficiente em alguns casos, além do acompanhamento pastoral?
Um princípio salutogênico é o que todo ajudador, pastor, terapeuta, desde sua formação e ao  longo da vida, se submeta a outros ajudadores, pastores e terapeutas, para tratar de suas próprias feridas, conhecer-se melhor, ampliar visão, ser confrontado em suas sombras.  Isso é o cumprimento da instrução paulina do "cuida de ti mesmo e da doutrina". Manter-se aberto, estudar sempre, comparecer a encontros de reciclagem, e manter cooperação com profissionais é fator de segurança e crescimento. Os que são mais abertos à cooperação e tem um senso de limitações, que caminham com temor e tremor diante de Deus são os menos propensos a surtar ou desequilibrar moralmente. Para isso, um caminho de formação entre pares e a submissão a bons formadores é imprescindível, para se evitar a soberba do auto-investimento.
Conhece alguns pastores ou ministérios se destacam nesse acompanhamento a pastores?
Sim. O honrado bispo metodista Nelson Leite, autor do livro Pastoreando pastore; José Cássio Martins, profundo estudioso das Escrituras e da psicologia profunda, co-autor de um projeto de cuidado a pastores na IPB e instrutor de grupos ministeriais; Jessé Bispo, pastor de pastores da Igreja Cristã Evangélica; Zenon Lotufo Jr., educador, pastor, escritor. O pastor Carlos Bregantim, em São Paulo, com intercâmbios para amizades entre pastores; Kornfield, do Mapi-Sepal; Werner Haeuser, no Janz Team, de Gramado. Um pioneiro, Karl Lachler, nas décadas e 70 a 90, professor da Faculdade Teológica Batista, em São Paulo, hoje sucedido pelo professor Silas Molochenco. Felizmente tem muita gente boa, com vida exemplar, equilibrada, frutuosa, emocionalmente sadia. Cito alguns que muito me ajudaram com estudos, orações, acolhida, incentivos, como o casal Clotilde e Douglas Johnson, o casal Bacon, do Espírito Santo, a capelã Taelma, de Belo Horizonte, o reverendo Oziel Campos, em Florianópolis, a capelã Eleni Klassen, hoje na Flórida, EUA, e Eleni Vassão, de São Paulo. O reverendo Denoel Eller, de Belo Horizonte, e, em São Paulo, e meus atuais pastores Kodo Nakahara e Ziel Machado.
É comum pastores e demais líderes o procurarem pedindo aconselhamento por conta de pecados e deslizes no ministério?
Em clínica há 34 anos, já atendi dezenas de pastores e pastoras, padres, monges, freiras e seminaristas. Monges e padres são indicados por seus formadores, confessores e superiores, hoje bastante abertos à contribuição profissional de psicólogos e psiquiatras. Fomos chamados a conventos e mosteiros para conversações bastante proveitosas sobe a interface fé cristã, saúde psicológica e vocação. O instituto da confissão no âmbito da Igreja ajuda a prevenir o agravamento de problemas. Já os pastores mostram maior medo, alguns chegam escondidos, pedindo anonimato, outros sugerem atendimento em restaurante, devido ao temor de serem vistos por algum conhecido, atitude que deve ser respeitada e depois devidamente analisada. Eles repetem o procedimento de Nicodemus, que buscou Jesus escondido, com medo dos colegas. Trazem queixas parecidas aos de outras pessoas, mas, com maior desconforto, pela culpabilidade exacerbada e temor de julgamento até do próprio terapeuta.
E quais, via de regra, são os problemas e queixas?
Geralmente deixaram os problemas se acumularem anos e anos, sempre empurrando com a barriga, acreditando encontrar uma saída, sozinhos. Quase sempre dizem não ter confiança em ninguém, daí o motivo de não buscarem ajuda entre colegas ou amigos e familiares. Quando admitem ter amigos e colega maduros, têm vergonha de se expor, preferindo manter uma imagem de alguém "normal". Essa posição adoece qualquer um, além de ser hipocrisia. Um dia a casa irá cair, pois o reprimido irrompe de formas incontroláveis, daí ser imprescindível e urgente não mais protelar e buscar ajuda idônea. É preciso parar de jogar para a platéia e viver pela agenda dos outros, respeitar seus limites, reconhecer seus pecados crônicos e, importante, reforçar seu anseio de cura, buscar libertação de padrões neuróticos. Este é o caminho para a sanidade, que caminha junto com a santidade. O caminho bíblico para um caráter íntegro, santo, saudável.
E por quais outros motivos os pastores evangélicos resistem tanto na busca por ajuda psicológica?
Para eles, admitir a necessidade de buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica é assumir uma derrota inadmissível, parecendo negação da fé. Só mesmo quando surta alguém da família, a esposa ameaça abandonar ao casamento ou um filho se declara gay que alguns se rendem à evidência de que a onipotência humana não existe. Sem dúvida, pastores e líderes evangélicos, mais do que outras pessoas, se apresentam, em minha experiência, mais resistentes em buscar ajuda psicológica. Até mesmo pastores pentecostais que pregam curas buscam médicos para si e familiares quando a coisa aperta.
Há estudos e pesquisas que comprovam a necessidade do cuidado a pastores?
Há um livro da psicóloga Roseli Kunrich, de Porto Alegre, sobre cuidado aos cuidadores, fruto de pesquisa com dezenas de pastores, encontramos dados sobre condições do exercício pastoral, relações familiares e eclesiásticas com a saúde física e mental. O levantamento revela dados preocupantes sobre a patologia do cuidado, o descuido de si mesmos, o isolamento e adoecimento a que ficam expostos, devido a um estilo de vida construído sob equívocos e idealizações. Uma cultura de medo de julgamento por outros cerceia a liberdade de ser gente como outro qualquer. Muitos caíram nessa armadilha da idealização de figuras pastorais como tendo acesso privilegiado a Deus, como entes superiores e com mais forças para resistir a tentações, e coisas tais. Há os que estão submetidos a líderes de congregações moralistas e controladores do dinheiro e das idéias Para saírem desse aprisionamento precisam buscar ajuda externa, de profissionais que conheçam e respeitem sua fé.
Eleni Klassen, capelã brasileira com atuação num hospício nos Estados Unidos, tem estudo sobre patologias pastorais, especialmente quando a persona pastoral, o papel profissional sufoca a pessoa do ministro. Como uma armadura que cobre sua personalidade para atender as expectativas dos outros. Personalidades que poderiam ser felizes e viver saudavelmente perdem o brilho e o gozo. Um líder escravizado pelo medo de ser criticado, de não ser bom nem ser carismático, ter sucesso e fazer crescer igrejas segundo o modelo “capetalista” do mercado religioso. Isso compromete sua integridade psicofísica e pode destruir sua vida psíquica, afetar suas relações familiares, predispondo-o à depressões e vulnerabilizando-o. Daí a largar tudo e se meter em aventuras financeiras e eróticas é um passo comum. Falta recuperar o direito a serem humanos comuns, nem mais santos nem demônios que os demais.
Num plano mais ‘macro’, o que deveria ser feito?
É urgente que se discuta a formação de seminaristas e consagração de pastores. Temos pastores demais em igrejas confortáveis e centrais, onde se paga mais, e pastores de menos nas periferias e cidades pequenas. Encontram-se muitos mal-formados, auto-investidos, sem  supervisão de colegas, sem dedicação a estudos, sem saber o que é meditação bíblica, apenas envolvidos em  ativismo religioso. Homens e mulheres hoje montam igrejas com o intuito de viver do imposto único estabelecido em Israel dos tempos bíblicos, manipuladores do medo das populações, exploradores dos que buscam, angustiados, respostas bíblicas para suas vidas. Quantos não entraram para o ministério  atendendo a um impulso juvenil ou um arrebatamento emocional ao redor de uma fogueira ou para cumprir a profecia de alguém? Líderes imaturos dirigindo comunidades com dezenas ou centenas e pessoas, é algo muito temerário.
A exemplo dos fariseus, líderes e pastores extremamente 'legalistas' costumam se esforçar mais para camuflar e esconder suas falhas de caráter. Até que ponto isso pode ser prejudicial espiritual e emocionalmente?
É verdade. Trata-se de um falho mecanismo de compensação  psicológica. Esses pastores legalistas tentam se convencer de que são puros  e intocáveis, acusando os diferentes de hereges, pecadores ou perigosos. Vejam o caso ilustrado por Jesus do ‘”edizente” santo, o fariseu, que até em oração pecava ao se vangloriar de não ser como o homossexual, o macumbeiro, a prostituta, digo, como o publicano, enquanto  este, lucidamente quebrantado, pedia misericórdia confessando-se totalmente indigno. Impressiona tristemente saber como setores que se dizem tão apegados à bíblia são duros, frios, inquisitoriais com os diferentes, com  quem é de outra confissão ou religião ou de nenhuma. Duros com as pessoas comuns, insensíveis socialmente e até impiedosos com os da própria casa.
Tragédias familiares, como o suicídio de filhos, divórcio e fugas têm acontecido em famílias de lideranças rígidas ou fundamentalistas. Além de escândalos sexuais de arrepiar. Isso só vem confirmar o saber psiquiátrico que relaciona obsessivos por limpeza  externa a sofrimentos internos de impureza real ou imaginária.
Pode citar um ou mais exemplos da bíblia de líderes que ficaram marcados por problemas de caráter ou integridade?
Os patriarcas Abraão e Jacó cometeram deslizes e mostraram fraquezas. Assim, errando e acertando, dirigindo-se para Deus alcançaram a estatura de homens de honra. Davi, o rei sábio, pautou sua vida pelo temor a Deus, contudo, falhou várias vezes, com a esposa, com os filhos, com os amigos, caindo em tentações horríveis, abusou do poder, articulou a morte de um amigo leal e lhe roubou a esposa. Um corajoso profeta, Natã, demonstrou integridade espiritual ao lhe confrontar. Nas rodas de poder os governantes geralmente são vítimas de bajuladores que encobrem erros, sendo cúmplices, para não correrem o risco de perder privilégios.
Natã é um bom exemplo de integridade ministerial?
Sim. Suas palavras ao rei possibilitaram que este entendesse e reconhecesse seu desvio, pecado  e crime. Davi, entrando em si, arrependeu-se e foi curado da alienação. Neste momento deixou a prepotência. Humilhou-se. Recuperou a credibilidade. Seu arrependimento revelou o que se encontrava no núcleo profundo de sua personalidade: o bom caráter. Religou-se a Deus, ao Deus que louvava e adorava quando adolescente e jovem, despojado. Hoje citamos seus salmos como Palavra de Deus. Se tratamos a Davi com esta benevolência, porque somos tão cruéis e vingativos com irmãos nossos que cometem deslizes leves ou pecados graves? Consideramos o apóstolo Pedro como um homem cheio do Espírito Santo e também ouvimos suas palavras como sendo Palavras de Deus.
No entanto, sua biografia é marcada por incidentes, vacilações, ambigüidades e até mesmo a negação e abandono de Jesus. Cristo o reabilitou chamando-o à consciência e ao amor incondicional. Paulo o confrontou quando regrediu diante de judaizantes. Pedro aceitou essa disciplina, não guardou ressentimento. Em sua segunda carta trata admiravelmente o outro apóstolo como muito distinto. Esses exemplos mostram o caminho da perfeição. Temos a perfectibilidade, não a perfeição. Somos perfeitos no horizonte escatológico, na medida em que no dirigimos para o alvo, no caminho da santificação segundo Cristo, o arquétipo do humano.

Ageu Heringer Lisboa, mestre em Ciências da Religião, psicólogo clínico, escritor, um dos fundadores do CPPC - Corpo e Psicólogos e Psiquiatras Cristãos www.cppc.org.br e da EIRENE - Associação Brasileira de Terapia e Pastoral Familiar www.eirene.org.br. Dirige seminários para casais e consultoria para grupos ministeriais. Clínica em Campinas e São Paulo.  F.(11) 5579.5475 E-mail: ageu.lisboa@gmail.com

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