Disciplina, espiritualidade e vida

O pastor Richard Foster insiste na necessidade da disciplina cristã na vida do crente: “Corpo e mente diante de Deus”.

Por Brandon O’Brien,
editor assistente da revista Leadership

O Congresso de Pastores que acontece agora, no início de maio, em Águas de Lindoia (SP) terá uma presença ilustre. Promovido por Servindo Pastores e Líders (Sepal), o evento receberá o pastor Richard Foster, um dos líderes evangélicos mais destacados de nosso tempo. Foster, celebrado autor de livros voltados ao público cristão – dos quais o mais conhecido é o best-seller Celebração da disciplina, lançado em 1978 –, também é fundador de Renovare, organização que, como o nome já sugere, promove a renovação espiritual da liderança e da Igreja. Um movimento internacional, que estimula o discipulado e a formação cristã em países como Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, Coreia do Sul e Brasil.
Foster baseia seu trabalho na defesa de práticas cristãs como santidade, disciplina e reflexão. Nada de novo – mas o que chama a atenção é a simplicidade e a clareza de suas ideias. “As disciplinas espirituais são para todos os cristãos. Não há como avançar como discípulo de Cristo sem uma formação espiritual adequada”, pontifica em seus livros, palestras e mensagens. Ele acaba de finalizar mais uma obra, Sanctuary of the soul (Santuário da alma), que pretende lançar durante sua visita ao Brasil e tem tudo para se tornar mais um clássico da espritualidade cristã. CRISTIANISMO HOJE ouviu Richard Foster em sua casa, em Denver, no Colorado (EUA), poucas semanas antes de sua viagem ao Brasil:

CRISTIANISMO HOJE – O que são disciplinas espirituais?
RICHARD FOSTER – As disciplinas espirituais são simplesmente uma parte da vida cristã normal. Através dessas disciplinas, aprendemos a colocar nosso corpo e nossa mente diante de Deus, a fim de que o Senhor promova sua obra em nossas vidas. É o que a Palavra de Deus chama de sacrifício vivo. Jamais poderíamos ter amor, alegria, paz, benignidade, bondade e longanimidade sem a graça do Senhor. E essas coisas promovem o crescimento da alma, levando-nos a assumir uma nova personalidade, um caráter cristão.

Sacrifícios e disciplinas parecem, à primeira vista, difíceis de atingir para o crente comum...
Não. A disciplina espiritual é para todos os cristãos. Ela nos move para a vida abundante que Jesus promete. Não há como avançar como discípulo de Cristo sem uma formação espiritual adequada. O detalhe é que não há valor nas disciplinas em si. Em nenhuma delas. Elas não nos rendem pontinhos extras com Deus. Estamos falando de coisas que os crentes precisam fazer para viver a simples vida cristã. Oração, meditação, estudo e jejum fazem parte da vida sob a graça. E nós não somos apenas salvos pela graça; nós vivemos pela graça!

Qual a diferença entre disciplinas cristãs e boas obras?  
As disciplinas não são obras. As disciplinas não têm nada a ver com as obras, pois elas não produzem justificação alguma. Portanto, nunca devemos pensar nas disciplinas como meio para ganhar algo. Dito de outra forma, as disciplinas espirituais nos trazem a justiça do Reino de Deus de uma maneira indireta. Elas são esforço. Como disse Jesus, nós nos esforçamos para entrar pela porta estreita – ou, nas palavras do apóstolo Paulo, devemos nos empenhar na piedade. Nós simplesmente fazemos as coisas com nossas próprias mãos e o Senhor usa isso para operar maravilhas em outros seres humanos, pelo seu poder. Essas coisas levam ao crescimento da alma, e nós começamos a assumir uma nova personalidade, um caráter cristão.Aprendemos a amar nossos inimigos, e assim por diante. Isso é para todos os cristãos. É a herança comum do povo de Deus.

Disciplina espiritual não é um tema com tanto apelo entre os cristãos de hoje. Como o senhor explica, então, o enorme sucesso de seu livro Celebração da disciplina, que já vendeu mais de um milhão de cópias?
Só posso entender que foi a graça de Deus que fez tudo acontecer da forma como aconteceu. Senão, como umas poucas anotações em um pedaço de papel poderiam ter esse tipo de efeito? Celebração da disciplina foi escrito para todos aqueles que ficaram decepcionados com as superficialidades de todos os aspectos da cultura moderna, incluindo o religioso. Acho que o livro saiu justamente no momento em que havia um sentimento genuíno de que o que estávamos fazendo no ministério não funcionava mais. Além disso, líderes foram caindo como moscas devido a falhas morais, e as pessoas estavam ansiando por algo mais substancial. O livro veio trazer uma proposta de vida espiritual mais profunda e comprometida. Havia também desejo de se resgatar um verdadeiro diálogo sobre o crescimento da alma, que havia sido esquecido.

Grandes avivamentos da história, como o que ocorreu na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos no século 18, trouxeram mudanças positivas na sociedade, ao mesmo tempo em que abalaram a Igreja. Hoje, em nações forte de presença evangélica, como os EUA e o Brasil, movimentos espirituais parecem ficar circunscritos às paredes dos templos, quase sem nenhuma relevância social. Por que isso acontece?
Os primeiros seguidores de John Wesley falavam de uma santidade que promovia impacto social. William Penn disse: “A religião não nos leva para fora do mundo.Ela nos leva ao mundo eimpele todos os nossos esforços para consertar o mundo”. Recuperar esta ênfase é parte fundamental no processo de avivamento cristão. Nós nos esquecemos de que o envolvimento em uma guerra espiritual tem várias frentes ao mesmo tempo – ela acontece nos níveis pessoal, social e institucional, para citar apenas alguns. A proclamação do Evangelho inclui o que os reformadores chamavam de “mandato cultural”, ou seja, necessariamente deve ter impacto sobre a cultura em geral. Um avivamento certamento começa no indivíduo, mas também o leva para fora, a fim de interferir na vida dos outros. Basta pensar, por exemplo, no que aconteceria se os cristãos aprendessem a não mentir.Pense no tipo de mudança que isso poderia provocar em instituições empresariais, governamentais e em todas as instâncias. As implicações sociais da pregação do Evangelho têm que acontecer de alguma forma.Nós amamos a Deus e amamos ao nosso próximo; isso anda de mãos dadas. O III Congresso de Lausanne, que aconteceu ano passado na África do Sul, voltou a salientar que o evangelismo cristão deve sempre promover profundo impacto social.

Como promover um discipulado eficaz na sociedade de hoje?
O discipulado é uma característica da vida em comunidade. No caso do discipulado, ele é uma das expressões dessa vida comunitária. Falo de uma comunhão profunda, muito mais intensa do que as configurações normais das igrejas, onde as pessoas se encontram uma vez por semana, ou às vezes apenas uma vez por mês. Por isso, a essência do movimento Renovare é a criação de comunidades. Temos trabalhado para criar comunidades de pastores, líderes e leigos. Agora, desenvolver uma comunidade onde as pessoas amem e cuidem umas das outras leva um longo tempo.

Qual o ambiente mais propício para a formação espiritual na igreja local? A escola dominical, a pregação, a mentoria ou os pequenos grupos?
Todas essas opções. A pregação é um dos principais meios de formação espiritual do povo. Agora, nós perdemos esse entendimento quando o pastor não conhece seu rebanho. O pastor é um diretor espiritual para a congregação. Então, precisa caminhar entre o povo, saber o nome das pessoas, conhecer as situações com que está lidando. A mentoria também tem esse aspecto de envolvimento. Já os pequenos grupos nutrem uma forma mais forte de carinho, amor e cuidado, e isso é um importante meio de formação espiritual.

A Igreja Evangélica, tanto na América quanto no Brasil, é regularmente chacoalhada por novos movimentos que causam grande impacto, promovem mudanças estruturais e comportamentais, mas depois desaparecem com seus erros e acertos. O que se pode fazer para preservar os ganhos espirituais dessas ondas?
Nosso povo tende a ser levado por modismos muito facilmente. É importante olhar sempre para frente, a longo prazo. Em qualquer situação, devemos sempre prestar atenção ao tipo de vida que cada movimento está produzindo. Quem não conhece a história fica muito impressionado quando aparece um desses movimentos de fé, mas eles sempre têm surgido ao longo dos tempos e, muitas vezes, não trazem nada de novo – é só algo mais que pode colaborar, e pronto. Se houver algum tipo de bem que um novo movimento possa trazer, ótimo, vamos incorporar isso. Mas ainda assim, não vamos ficar muito animados e abrir a guarda totalmente para o novo. Quero ver como tudo vai se desenrolar dentro dos próximos 50, cem anos...

O senhor disse que, no início de seu ministério, foi encorajado a ser “ministro de Cristo”, e não um “ministro do povo”. Qual é a diferença?
Isso foi no tempo em que eu estava tentando entender a identidade pastoral. Foi meu amigo Dallas Willard que me disse: “Você precisa decidir se é um ministro do povo ou um ministro de Cristo”. Ele sabia que, naquele início de carreira, eu estava sendo puxado em todas as direções por causa de expectativas do povo acerca do que um pastor deveria fazer.Se sou um ministro do povo, então eu sou controlado pelo que as pessoas pensam, sentem e dizem. Mas, se sou ministro de Cristo, então é o Senhor quem dá as cartas, e depois disso eu vou servir ao povo. Há um pequeno livro de Watchman Nee chamado Ministry to the house or to the Lord [“Ministério para a casa ou para o Senhor”], que aborda a mesma idéia básica. Quando você aprender a ministrar a Deus, então o trabalho que você faz, seja em casa ou na igreja, irá encontrar o lugar certo. Eu encorajo os pastores a aprender que, primeiro, devem ser ministros de Cristo. Então, seu trabalho entre o povo vai achar seu próprio lugar de forma natural.

Os pastores costumam se queixar de solidão. Isso já aconteceu em seu ministério?  
Eu sempre incentivo os pastores a encontrar uma pessoa a quem possam abrir o coração, compartilhar a vida. Certa vez, pedi a um pastor luterano que me ensinasse tudo o que sabia sobre oração. Esse foi o começo. Aquele homem tornou-se meu grande professor e mestre, e isso acabou desenvolvendo uma bela e duradoura amizade ao longo de quarenta anos.  Mesmo quando nos separamos geograficamente, sempre mantivemos uma comunicação regular.
Isso não tem que ser feito com alguém extraordinário; basta ser uma pessoa simples e madura. Todo pastor deve pedir a Deus que lhe mostre alguém assim. Ajuda se for alguém de fora da congregação, porque aí pode-se compartilhar de forma mais aberta problemas pessoas e ministeriais. Mas, é claro – as pessoas de dentro da congregação também podem amar e cuidar do líder. O pastor que vê nas ovelhas não apenas pessoas a quem têm de disciplinar, mas amigos, pode desenvolver na igreja boas e profundas amizades cristãs.

Qual é o estilo de vida que agrada a Deus?
Precisamos aprender a ter um pouco de paz e alegria, e não tentar viver uma vida espiritual muito tensa. Eu gostaria de dizer às pessoas que tudo que fizermos deve nos alegrar em Deus e nos levar a desfrutar da comunhão e amizade um do outro. A vida que agrada a Deus não vem por ira ou estresse, mas por um profundo amor ao Senhor, com Jesus e as pessoas que estão ao nosso redor.

A entrevista foi resumida,

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