Se você me ouvisse...


Se as minhas palavras chegassem aos seus ouvidos, você saberia que o brilho dos seus olhos ilumina minha vida e que o seu sorriso é um bálsamo para a minha alma.
Se, por acaso, você atentasse seu coração para minhas palavras, entenderia que o corpo vale mais do que as roupas; o saber é mais precioso do que o diploma; a essência é incontavelmente maior do que o 'status'.
Se você não me negasse alguns minutos do seu tempo, teria sensibilidade para compreender que gaguejo quando tento abrir os portões do meu ser para outra pessoa, mas isso não a impede de entrar.
Se seus olhos me enxergassem, você me consolaria quando eu lhe dissesse que, por ter consciência de que sou apenas pó, me envergonho de mim mesmo.

Quero fugir das minhas limitações.
Anelo viver uma noite eterna, repudio a chegada do amanhecer.

Se meus convites implorando uma esmola de atenção tivessem sido atendidos – pelo menos por uma vez – eu não teria de guardar para mim mesmo a tristeza do não-ser, a saudade de um sonho, nem o riso que foi abortado da minha face fértil de lágrimas.
Se você quisesse dividir um pouco das angústias de sinto, o vazio que me enche poderia ter se esvaído e dado lugar para um mar de ternura. Se eu não fosse motivo de aversão, você saberia que perdi noites por sua causa; comunguei do seu pranto; aguardei sua bonança; torci por sua vitória; aplaudi sua chegada ao pódio, mas não fui convidado para a festa.

Se eu não me sentisse invisível diante dos seus olhos, você perceberia que meu coração tenta escapar da caixa torácica toda vez que minha visão lhe enxerga.
Você teria noção que tento exaltar minhas virtudes para que eu lhe seja útil.
Tento abafar meus defeitos, purificar meus erros, contornar meus atos.

Se você me ouvisse por uma vez, desenvolveria o dom de entender meu silêncio.
Me calo quando as palavras não conseguem traduzir o que habita no espírito.
Não gosto de jogar frases ao vento.
Falo apenas o que considero importante – mesmo sabendo que, muitas vezes, minhas falas ficam presas no ar, aguardando quem as entenda...

Entretanto, você não quer me ouvir! Minhas palavras lhe incomodam; minha presença lhe constrange; minhas ideias lhe assustam; meus desejos lhe atormentam!

Cabe a mim, portanto, conter a minha voz. Estou decidido.
Não falo mais!
A decisão é dolorosa, mas sensata.
Escondo na parte mais profunda do íntimo do meu ser o tesouro que quero lhe entregar – mas você insiste em chamar de lixo…

Jénerson Alves

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