sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O julgamento divino demonstra o santo amor de Deus

Resultado de imagem para a arca de nóe filmeA música Imagine, composta por John Lennon no começo dos setenta, incentivava as pessoas a imaginar que não havia céu ou inferno. Segundo o ex-beatle, que se notabilizou pela transgressão de normas culturais e sobretudo das regras socialmente aceitas, o que valia era o lema “viva o agora”, sem se importar com uma suposta eternidade. Assassinado em 1980, Lennon deixou uma multidão de fãs, uma boa quantidade de detratores e um legado pop considerado genial. Pois agora, quarenta anos depois de seu maior sucesso, parece que muitos evangélicos estão – imagine! – seguindo seu conselho. Muito se tem falado que o Evangelho não diz respeito à vida após a morte. Nessa ótica, ele responderia a perguntas muito mais importantes do que a situação eterna de uma pessoa. A ênfase dos ensinos de Cristo diriam respeito, então, à vida de hoje, e nem tanto ao futuro. Lennon, com certeza, aplaudiria.
Assim, de forma lenta, mas certeira, começamos a deixar a promessa do julgamento divino, presente no Credo dos Apóstolos, escapar despercebida. Muitos cristãos têm falado bastante sobre justiça, mas pouco sobre julgamento. A justiça aqui e agora é um assunto bastante popular. O julgamento futuro?  Nem tanto. Mas justiça e julgamento são dois lados da mesma moeda. Não se pode ter uma justiça perfeita sem a perspectiva de julgamento. É necessário que Deus reconheça e declare determinadas coisas como erradas para que, então, possa consertá-las. É o julgamento de Deus que nos leva a um mundo perfeitamente justo. Tente-se ter um sem o outro, e perder-se-ão as boas novas do Evangelho.
E por que nos sentimos pressionados a minimizar a noção de julgamento? O que nos incomoda nessa parte do Credo dos Apóstolos? Talvez nos envergonhemos com a ideia de um inferno eterno, e pensamos então, que se retirarmos esse obstáculo – a ideia de um tribunal eterno –, poderemos tornar o cristianismo mais aceitável para uma sociedade que não abre espaço para o julgamento em seu entendimento de Deus. Infelizmente, quando subestimamos ou negamos o juízo divino, perdemos uma das principais razões que temos para compartilharmos nossa fé. Nosso desejo de remover essa ideia incômoda de nossa pregação acaba, na verdade, por remover o caráter urgente da questão. Ou, talvez, o fato de negligenciarmos a realidade do juízo de Deus seja uma maneira de aliviarmos nossa consciência por deixarmos de evangelizar. Obviamente, rejeitar a tradicional compreensão cristã do inferno pode nos ajudar a lidar melhor com a realidade de termos amigos e familiares que morreram sem serem salvos. Afinal, ninguém quer imaginar que o vovô está no inferno. Subestimar o julgamento, portanto, nos ajuda a enfrentar essa situação.
A verdade é que, agindo dessa maneira, evitamos encarar nossa própria maldade. A maioria de nós, do Ocidente, temos sido protegidos contra as atrocidades da humanidade. Se tivéssemos vivido em campos de extermínio no Camboja, nos Bálcãs ou em Ruanda, talvez estivéssemos mais preocupados com justiça. Uma vez que admitimos que a justiça é necessária, abrimos a porta para lidarmos com nossos próprios pecados. Talvez seja atraente minimizar o julgamento, pelo fato de ter uma parte em nós que gostaria de eliminar a existência da injustiça, ao invés de admiti-la juntamente com nossa própria contribuição para perpetuá-la, deixando de acusar a nós mesmos.
 PROMESSA RECONFORTANTE
Mas o que estamos perdendo ao negligenciarmos essa parte desconfortável da teologia cristã que é a doutrina da eternidade com ou sem Cristo?  O Catecismo Heidelberg questiona por que tal conhecimento traz conforto. À primeira vista, parece uma pergunta estranha. Se Jesus está voltando para julgar, então, onde está o motivo do nosso conforto? A expressão “dia do julgamento”, certamente, inquieta a muitos cristãos e pode soar de maneira terrível, mesmo. As imagens de filmes sobre o fim do mundo, que descrevem um apocalipse de proporções épicas, logo vêm à nossa mente. E, mesmo quando nos lembramos de que é a Bíblia, e não Hollywood, que deve moldar nosso entendimento a respeito do julgamento, encontramos razões para ficar apavorados. Se o santo julgamento de Deus será derramado em tudo o que há de errado no mundo, certamente se abaterá também sobre nós. Uma perspectiva aterradora!
Mas há algo reconfortante no julgamento de Deus, algo que os autores do catecismo reconhecem como parte integrante da história do Evangelho. A humanidade está unida em seu desejo por justiça. Sabemos que a vida não é justa, e, ainda assim, por algum motivo, sentimos que ela deveria ser. As Escrituras ensinam que a vida não é justa agora, mas apontam para o dia em que os erros serão corrigidos e a justiça será feita. Deus irá acertar as coisas de uma vez por todas. É por essa razão que a ideia do retorno de Cristo no dia do julgamento traz conforto. Para aqueles que sofrem nas mãos dos injustos, é reconfortante se agarrar à promessa de que, um dia, tudo irá se acertar. Este mundo louco, com valores invertidos, não continuará em seu estado atual para sempre. Deus vai executar justiça, e ela será evidente aos olhos de todos – e o conhecimento do Senhor inundará a terra, assim como as águas cobrem o mar.
Porém, há também um lado assustador na ideia de um mundo perfeitamente justo. Pense nisso: Se Deus voltasse e limpasse o mundo da maldade, o que aconteceria conosco? Seria possível que habitássemos nesse novo mundo perfeito? O que acontece quando percebemos que somos parte do problema, e não apenas aqueles que desejam uma solução? Quando imaginamos nosso lugar na história cósmica da redenção, percebemos que somos mais do que vítimas passivas das consequências do mal. Somos, na verdade, insurretos do mal, rebeldes contra a boa e amável autoridade de Deus, nosso Criador. Em Arquipélago Gulag, Aleksandr Solzhenitsyn, que sofreu nas mãos dos comunistas soviéticos, sintetiza muito bem a questão: “Aos poucos me foi revelado que a linha que separa o bem e o mal não passa por Estados, classes, nem partidos políticos – e sim por cada coração humano.” Somos, sim, sedentos por justiça; mas, uma vez que consideramos a justiça de Deus, rapidamente descobrimos que o retorno de Cristo só pode ser uma boa notícia se encontrarmos misericórdia diante do Senhor.
Apesar de a nossa cultura estar se voltando para um tipo de pluralismo que negaria a realidade (e até mesmo a necessidade) de justiça divina, existem razões bíblicas sólidas para manter nossa crença na tradicional compreensão cristã sobre o julgamento final. Em primeiro lugar, porque ele é algo bom. Quando entendemos o julgamento divino como um ato que coloca um fim em tudo o que está de errado no mundo – guerras, fome, exploração, doenças –, então compreendemos por que até mesmo o apóstolo Paulo o via como parte de seu Evangelho, conforme Romanos 2.15-16. O Antigo Testamento também vê o julgamento de Deus como algo positivo. O salmista disse: “Regozijem-se todas as árvores do bosque na presença do Senhor, porque vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, consoante a sua fidelidade.”
Aparentemente, os autores de nossa Bíblia não tiveram problema em celebrar o julgamento como uma coisa boa. A ideia de Jesus voltando para julgar os vivos e os mortos era motivo não apenas para conforto, como o Catecismo de Heidelberg afirma, mas também para celebração. Se escamoteamos a noção do juízo divino, roubamos do Cristianismo qualquer esperança de satisfazer nosso desejo por justiça – um anseio, aliás, colocado em nós por nosso Deus justo e santo. Sem julgamento, o Evangelho falha ao lidar com o problema do mal e com as maneiras prejudiciais com que o ser humano trata ao seu semelhante – e, por extensão, a Deus. Uma vez que perdemos de vista o julgamento, fechamos os olhos para a gravidade do nosso pecado. E, uma vez que perdemos de vista nossa pecaminosidade, boicotamos a experiência da poderosa gratidão que vem quando recebemos a graça de Deus.
A ideia do julgamento, também, demonstra o santo amor de Deus. O Senhor não é uma divindade bipolar, com um lado irado e outro amoroso e misericordioso. O amor é seu atributo essencial, mas não se trata de um amor sentimental, como se propaga hoje. O amor de Deus é santo. É ciumento. Sua ira está baseada em seu amor. O julgamento bíblico não apenas nos assegura da justiça futura; também nos dá uma visão mais clara do amor de Deus. Portanto, quando eliminamos a noção de Deus como um juiz, ficamos com um Deus unidimensional – uma divindade sentimental, facilmente controlável. Esse ser balança negativamente a cabeça ao ver nosso comportamento, como um velho bondoso que não investe verdadeiramente em nossas vidas. Mas a maldade do mundo é séria demais para termos a visão de Deus como a de um pai leniente que passa a mão na cabeça de seus filhos pecadores.
A imagem bíblica de Deus é muito mais satisfatória. Ele se ira porque é um Deus de amor. Ele olha para o mundo e vê o tráfico de crianças inocentes, o uso destrutivo das drogas, as atrocidades genocidas, os ataques terroristas que fazem as pessoas viverem em medo constante. Diante disso tudo, o Senhor, por amor à criação que o reflete como Criador, está legítima e gloriosamente irado.
 O que assusta, de verdade, não é o Deus irado da Bíblia, e sim o Deus que fecha os olhos para a maldade desse mundo, que dá de ombros e ignora tudo em nome do “amor”. Que tipo de amor é esse? Um Deus que nunca se aborrece com o pecado e que deixa o mal passar sem punição não é digno de adoração. O problema não é que o Deus que não traz juízo sobre a terra é amoroso demais – e sim, que ele não é amoroso o suficiente.
FAVOR DIVINO
O julgamento eterno só faz sentido quando entendemos que vivemos em um mundo bom, criado por um Deus de amor. Ao percebermos a bondade inerente na divina criação, então somos capazes de ver – através dos olhos de Deus – a destruição e a dor que o pecado desencadeou no mundo.  Podemos ver porque a criação está gemendo por redenção e julgamento – não pelo fogo destruidor de Deus, mas pelo fogo purificador, que deixará descoberto tudo o que corrompe a criação e abrirá espaço para que a presença do Senhor preencha esse mundo novamente.
Outra verdade incômoda que por vezes preferimos ignorar é que nosso pecado irrita a Deus pessoalmente. O Senhor odeia o pecado por causa do que ele faz conosco; ele odeia a iniquidade por causa do que ela faz com sua boa criação. Ele não tolera o pecado por causa do seu grande amor por seus filhos. Contudo, dizer que Deus irá julgar o pecado e restaurar a criação pelo nosso bem não é o bastante. Trata-se apenas de um passo na direção certa, mas deixa de fora um componente crucial a respeito da existência do pecado e da realidade do julgamento. Deus se ira contra o pecado não apenas pelo que ele faz conosco, mas também pelo que faz com ele próprio: o pecado desonra seu nome.
Quando retiramos o caráter pessoal do julgamento de Deus, tratando o castigo divino como simples resposta imparcial à transgressão generalizada, ficamos com uma visão deficiente do pecado. O pecado não é apenas ruim para nós; todas as transgressões que praticamos uns contra os outros são, em última análise, cometidas contra Deus. Quando foi tentado pela mulher de Potifar, José se recusou a ir para a cama com ela porque aquele seria um grande pecado contra seu senhor e contra Deus. José percebeu que pecar contra seu mestre também seria como encravar um punhal no coração de Deus. Ele sabia que o pecado, mesmo cometido contra outras pessoas, também se dirige ao Senhor. O Senhor precisa lidar com cada um de nós individualmente no julgamento porque nosso pecado o aborrece pessoalmente. Ele é dirigido a Deus, e deve ser tratado dessa forma.
Um terceiro aspecto sobre o julgamento de Deus é que ele é benéfico para a sociedade. Não devemos manter a noção do juízo eterno como parte da nossa apresentação do Evangelho meramente por razões pragmáticas. Cremos no juízo, em primeiro lugar, porque encontramos esse conceito claramente ensinado na Bíblia. Contudo, o julgamento é algo bom para a sociedade. Em Life after death: The evidence (“Vida após a morte: A prova”), Dinesh D’Souza oferece um forte argumento: o de que as sociedades funcionam melhor quando existe a expectativa de um julgamento divino após a morte.
Minha mulher cresceu sob o comunismo na Romênia. Ela testemunhou em primeira mão as injustiças perpetradas ali, particularmente contra a comunidade cristã. Nicolae Ceausescu, o líder daquele regime tirânico, era um ateu confesso. Por não ter medo do que poderia acontecer com ele após sua morte – o que acabou acontecendo em 1989, quando foi executado no processo da derrubada da Cortina de Ferro –, ele conseguia viver confortavelmente no luxo, enquanto fazia seu povo passar fome. Sem medo algum de ficar frente a frente com seu Criador, Ceausescu podia justificar qualquer desejo egoísta que podia ter.
Todos nós pecamos e merecemos ser julgados. Quando menosprezamos ou negamos a noção de um tribunal divino, não precisamos encarar nossos próprios pecados. É por esse motivo que percebemos com certa facilidade a maldade no mundo, enquanto permanecemos cegos para o mal presente em nossos próprios corações. A melhor maneira de nos prendermos à crença tradicional de Cristo como juiz é nos humilharmos, admitindo nosso pecado e reconhecendo que também merecemos a condenação eterna. Ao nos depararmos com o Deus da Bíblia, nos sentimos assustados pela justiça perfeita que vemos. No entanto, também nos espantamos com a graça de Deus concedida a nós através de Jesus Cristo – e concluímos que surpreendente não é o julgamento de Deus; é o favor divino!
 ESPERANÇA PARA O PECADOR
Uma das questões mais questionadas sobre a fé cristã é a do perdão dos pecados. É razoável supor que pessoas bondosas serão agraciadas com a vida eterna. Ninguém imagina, por exemplo, Madre Teresa de Calcutá ardendo nas chamas do inferno. Porém, o que dizer de criminosos contumazes, homicidas que massacram inocentes, maníacos que violentam e matam crianças? Se crerem em Cristo, serão salvos, apesar das atrocidades que cometeram? Poderia um assassino entrar no Reino dos céus? De fato, essa ideia é inconcebível para muita gente. Porém, a ação de Deus em relação ao ser humano contempla o rigor da justiça e a concessão da graça ao mesmo tempo. Podemos ver a justiça e a misericórdia de maneira mais clara na cruz de Jesus Cristo. A cruz de Cristo justifica o nome de Deus. O Senhor é o justo, é aquele que justifica. A ressurreição de Jesus reivindica sua inocência. Deus, o Pai, anulou os vereditos dos tribunais terrenos e declarou seu Filho inocente. Com Jesus como nosso substituto, estamos justificados; somos declarados inocentes porque estamos unidos a Cristo, o justo.
Deus, o supremo juiz, prometeu tirar o mal do mundo. E, ainda assim, ele nos ama. Em sua graça, ele é o justo magistrado e o perfeito redentor. Seu julgamento contra o mal foi derramado sobre o seu único Filho, na cruz. Portanto, justiça e misericórdia não estão em guerra – elas se encontram na cruz. E podemos ver tanto o julgamento quanto a misericórdia como algo bom, uma vez que reconhecemos nossa culpa à luz da santidade de Deus. Por isso, podemos gozar do perdão, à luz de sua maravilhosa graça.  
Trevin Wax é editor e escritor
cristianismo hoje

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