quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O que a Reforma tem a nos ensinar?


por Jaelcio Tenório


No último sábado, 31 de outubro, foi celebrada a Reforma Protestante. O acontecimento histórico modificou o pensamento ocidental. Precisamos lembrar que em 1517 a presença da religião na sociedade era muito mais forte do que nos dias atuais, com implicações nas mais diversas dimensões da vida das pessoas. A partir da Reforma, surgiram conceitos religiosos como a Salvação pela Graça, o Sacerdócio Universal dos cristãos e o Livre Exame das Escrituras. No entanto, não quero utilizar a tribuna desta Casa para falar sobre religião, mas sim comentar um pouco dos impactos da Reforma na nossa vida, inclusive do ponto de vista político.
Pouca gente sabe, mas o conceito de democracia no Ocidente possui raízes na Bíblia e não na Grécia. Vários historiadores se debruçam sobre esse assunto. Basta lembrar que o filósofo Platão acreditava que a democracia era o pior dos regimes, isso porque na Grécia esse modelo terminava resultando em anarquia e não trazia muitos benefícios para a sociedade em geral. Para Platão, o governo perfeito era o do filósofo rei. Esse foi o mesmo pensamento trazido por Maquiavel em “O Príncipe”, tratado lido e estudado até os dias de hoje.
É bem verdade que a própria noção de democracia no Brasil está em um processo de construção. Por isso, acho importante buscar referências no passado, inclusive na Bíblia e na Reforma, para percebermos as contribuições das gerações anteriores e assumirmos nosso papel diante do presente. Sabemos que evangélicos como Robert Kalley lutaram pela laicidade do Estado brasileiro. O pastor Lisâneas Maciel, enquanto deputado, lutou pelo fim da ditadura. Seu exemplo foi de tanta importante que o próprio presidente da Câmara, Leonardo Chaves, costuma afirmar que se inspirou no pastor Lisâneas.
Essa visão sobre a política é totalmente oposta ao que a Bíblia ensina, desde o Velho Testamento. Para se ter uma ideia, no capítulo 18 do livro de Êxodo vê-se Jetro orientando Moisés a não liderar o povo sozinho. O sogro do libertador dos hebreus ensinou que ele deveria dividir as responsabilidades. Além do mais, dois capítulos depois, Moisés entrega ao povo a Lei Divina, recebida no Monte Sinai. Foi esse o tipo de pensamento que resultou na democracia que conhecemos. Quem manda é a Constituição (a lei), não o líder. Eu poderia citar muitos outros exemplos de luta pelo bem estar social e por um país mais justo que tiveram os evangélicos como protagonistas. Quando olhamos para a história dos evangélicos do passado, vemos o quanto esse movimento contribuiu para o povo brasileiro, inclusive nas áreas da Saúde e da Educação. Quantas escolas e hospitais não foram montados neste país pela influência do chamado 'povo da Bíblia'?
Na tarde do último dia 29, o deputado Cabo Daciolo usou a tribuna da Câmara Federal para fazer cobranças a Cunha e ao restante da bancada evangélica. Ele pediu que a Frente Parlamentar “tome uma posição”. O Cabo declarou esperar que Cunha “peça para sair”, pois a situação está “insustentável”. Na semana passada, o deputado Daciolo foi usado por Deus de maneira profética na Casa e, orando em línguas estranhas, pediu que Deus “jogasse por terra” tudo o que não provém dEle. Como evangélico, eu creio que Deus quer fazer o melhor neste país. E eu creio que, com a iluminação dEle, poderemos construir um país mais justo.
Infelizmente, hoje em dia vemos este legado ser manchado por causa da falta de testemunho e de seriedade de alguns homens. Não estou aqui querendo me colocar como juiz de ninguém, mas os frutos estão sendo vistos diante da sociedade. Não é preciso ir longe para ver pastores, bispos, apóstolos – muitos desses títulos desconectados da história da Igreja – se aproveitando da boa fé das pessoas. A exemplo do que ocorria com a venda de indulgências na Idade Média, atualmente há muita gente usando o nome de Jesus para enriquecer. Esse tipo de gente tem conseguido amplo espaço na política. Nós vemos o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, sendo alvo de escândalos. Por causa disso, na semana passada, representantes e membros de igrejas evangélicas protocolaram junto à Mesa Diretora da Câmara um manifesto no qual pedem a saída imediata de Cunha. O Conselho de Ética da Casa deverá apresentar a defesa nos próximos dias.
Quero concluir com um trecho bíblico, que está no livro de Deuteronômio, capítulo 16, versículos 19 e 20: “Não pervertam a justiça nem mostrem parcialidade. Não aceitem suborno, pois o suborno cega até os sábios e prejudica a causa dos justos. A justiça, somente a justiça seguirás; para que vivas, e possuas em herança a terra que te dará o SENHOR teu Deus.”
Eu acredito que nós, enquanto cidadãos – e principalmente enquanto evangélicos – precisamos, sim, tomar uma posição. E essa posição deve ser ao lado da ética, da justiça, do direito. Afinal de contas, a paz é filha da Justiça. Precisamos ajudar este país a construir uma democracia limpa, na qual os cidadãos tenham consciência dos seus direitos e deveres. Precisamos ser exemplos. Era assim que os cristãos eram vistos no primeiro século, mesmo em meio a duras perseguições. Hoje, é incompatível ver cristãos perseguindo outros segmentos sociais. Nós somos o povo da paz, o povo da reconciliação, o povo da união. Precisamos assumir esse papel.

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