terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Escrever pode ajudar a ser mais competente, saudável e feliz

A pesquisa científica sobre os benefícios da escrita expressiva é surpreendentemente vasta. Estudos mostraram que escrever sobre si mesmo e sobre experiências pessoais pode melhorar distúrbios de humor, ajudar a reduzir sintomas entre pacientes de câncer, melhorar a saúde de uma pessoa depois de um ataque cardíaco, reduzir as visitas ao médico e até melhorar a memória.
Agora os pesquisadores estão estudando se o poder de escrever –e reescrever– sobre a história pessoal pode levar a mudanças de comportamento e aumentar a felicidade.
O conceito é baseado na ideia de que todos nós temos uma narrativa pessoal que molda nossa visão do mundo e de nós mesmos. Mas, às vezes, nossa voz interior não interpreta muito bem as coisas. Alguns pesquisadores acreditam que, ao escrever e editar nossas próprias histórias, podemos mudar a percepção que temos de nós mesmos e identificar obstáculos que se colocam no caminho de uma saúde melhor.
Pode soar como uma bobagem de auto-ajuda, mas a pesquisa sugere que os efeitos são reais.
Em um dos estudos mais recentes sobre editar a história pessoal, pesquisadores reuniram um grupo de 40 calouros da Universidade Duke que estavam com dificuldades nos estudos. Eles não só estavam preocupados com as notas, mas questionavam se eram intelectualmente iguais aos outros alunos da escola.
Os alunos foram divididos em grupos de intervenção e controle. Alunos do grupo de intervenção receberam informações mostrando que é comum para os estudantes terem dificuldades em seu primeiro ano de estudos. Eles assistiram a vídeos de estudantes universitários calouros e veteranos que falavam sobre como suas notas melhoraram à medida que eles se adaptaram à faculdade.
O objetivo era estimular os alunos a editarem suas próprias narrativas sobre a faculdade. Em vez de pensar que não levavam jeito para aquilo, eles foram encorajados a pensar que só precisavam de mais tempo para se adaptar.
Os resultados dessa intervenção, publicados no Journal of Personality and Social Psychology, foram surpreendentes. A curto prazo, os alunos que passaram pela intervenção para mudar a narrativa conseguiram notas melhores em uma prova escolhida como amostra. Mas os resultados a longo prazo foram mais impressionantes.
Os alunos que foram estimulados a mudar sua história pessoal melhoraram suas médias e demonstraram menos probabilidade de abandonar os estudos no ano seguinte do que os alunos que não receberam nenhuma informação. No grupo de controle, que não recebeu conselho sobre notas, 20% dos alunos abandonaram a faculdade dentro de um ano. Mas no grupo da intervenção, só um aluno –ou apenas 5%– abandonou a faculdade.
Em outro estudo, pesquisadores de Stanford se concentraram em estudantes negros que estavam com dificuldades para se adaptar à faculdade. Pediram para que alguns dos alunos criassem um ensaio ou um vídeo sobre a vida na faculdade para ser mostrado para futuros alunos. O estudo revelou que os estudantes que fizeram o ensaio ou o vídeo receberam melhores notas nos meses seguintes do que os do grupo de controle.
Outro estudo sobre escrita pediu para casais escreverem sobre um conflito como se fossem um observador neutro. Entre 120 casais, aqueles que exploraram seus problemas através da escrita mostraram uma melhora na felicidade conjugal maior do que aqueles que não escreveram sobre seus problemas.
“Essas intervenções de escrita podem, de fato, empurrar as pessoas de uma forma de pensar derrotista para um ciclo mais otimista que reforça a si mesmo”, disse Timothy D. Wilson, professor de psicologia da Universidade da Virgínia e principal autor do estudo da Duke.
Wilson, cujo livro “Redirect: Changing the Stories We Live By” [literalmente: “Redirecionando: Mudando as histórias que vivemos”] foi lançado este mês, acredita que, embora escrever não resolva todos os problemas, isso pode definitivamente ajudar as pessoas a lidar com eles.
“Escrever obriga as pessoas a reconstruir o que quer que as esteja preocupando e encontrar um novo significado naquilo”, disse ele.
A maior parte do trabalho sobre escrita expressiva foi liderada por James Pennebaker, professor de psicologia da Universidade do Texas. Em um de seus experimentos, foi pedido que estudantes universitários escrevessem 15 minutos por dia sobre uma questão pessoal importante ou tópicos superficiais. Ao final, os estudantes que escreveram sobre questões pessoais tiveram menos doenças e visitas ao centro de saúde da universidade.
“A ideia aqui é fazer com que as pessoas entrem em termos com quem elas são, com aonde querem ir”, disse Pennebaker. “Eu penso na escrita expressiva como uma correção de curso da vida.”
No Instituto de Desempenho Humano da Johnson & Johnson, os instrutores pedem aos clientes para identificar suas metas e depois escrever por que não as atingiram ainda.
Depois que o cliente escreve suas velhas histórias, pedem para que ele reflita sobre elas e edite as narrativas para criar uma nova interpretação, mais honesta. Embora o instituto não tenha dados de longo prazo, a intervenção teve relatos de resultados importantes. Em um exemplo, uma mulher chamada Siri escreveu inicialmente em sua “velha história” que ela queria melhorar sua forma física, mas como arrimo de família, ela tinha que trabalhar muitas horas e já se sentia culpada pelo tempo que passava longe dos filhos.
Com o incentivo, ela eventualmente escreveu uma história, baseada em parte dos fatos, mas com uma abordagem mais honesta sobre o motivo de não se exercitar.
“A verdade é que eu não gosto de fazer exercícios, eu não valorizo minha saúde o bastante. Eu uso o trabalho e meus filhos como desculpas por não me exercitar”, ela escreveu.
Intrigada com as provas que sustentam a escrita expressiva, decidi eu mesma tentar, com a ajuda de Jack Groppel, cofundador do Instituto de Desenvolvimento Humano.
Como Siri, eu tenho inúmeras explicações para não encontrar tempo para me exercitar. Mas, uma vez que comecei a escrever o que penso, comecei a descobrir que, ao mudar as prioridades, posso conseguir tempo para me exercitar.
“Quando você chega àquele momento de confrontar a verdade naquilo que importa para você, isso cria uma grande oportunidade de mudança”, diz Groppel.
Tradutor: Eloise De Vylder

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