terça-feira, 25 de novembro de 2014

Consciência negra e ação cristã


Os bancos do pequeno templo do seminário batista do Rio de Janeiro (RJ) tinham muitos espaços vagos: uma média de 30 a 40 pessoas presentes na Conferência Nacional Negritude & Evangélicos “Reflexão, Resistência e Engajamento”, ocorrida de 13 a 15 de novembro. Pouquíssimos tinham a tez branca. A maioria, sem dúvida, identificava-se com a cor negra. Não somente com a cor, mas com toda uma riqueza de identidade, história e fé que a credencial traz. Não somente com a riqueza, mas também com as dores e feridas de quem sofreu - e ainda sofre - com a discriminação racial.

Se hoje, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a causa está nas manchetes e conquistou sua importância em calendários oficiais de algumas cidades como São Paulo, ainda fica a pergunta: e no meio evangélico, há algum movimento consistente e organizado contra o racismo? O pequeno grupo da conferência talvez mostre fraquezas no processo de formação de um possível movimento nacional, mas também revela forças. Fraquezas porque, de fato, ainda é tímido em termos de abrangência e de articulação. Forças porque, a despeito disso, há produção acadêmica, paixão, coragem e olhar bem informado sobre os caminhos democráticos que podem beneficiar a bandeira, que inspirada no Evangelho, luta contra o racismo.

A Conferência Negritude & Evangélicos, apesar de receber um pequeno público, contou com conteúdo de qualidade sobre as questões relacionadas ao racismo. Não faltaram críticas às igrejas evangélicas por um tipo de acomodação quanto às práticas de discriminação dentro do nosso próprio contexto cristão. Um olhar especial para as mulheres negras revelou que estas sofrem uma dupla discriminação: pela cor da pele e pelo gênero. Em muitas igrejas evangélicas, seus espaços são comumente reservados à limpeza de banheiros e preparação de refeições. Pouco se vê estas mulheres em cargos de liderança; poucas vezes elas são vistas em processos decisórios consistentes.

Quanto à produção acadêmica, foi possível ouvir provocações e propostas no campo da história, da antropologia, da educação, da teologia e da cultura. Por exemplo: a doutora em educação, Cláudia Sales, criticou a falta de referências do negro nos materiais didáticos evangélicos voltados para a primeira infância. “Com relação à literatura infantil, percebemos historicamente a ausência de referências que poderiam ajudar as crianças negras a reconhecerem e aceitarem sua identidade e colaborar no combate ao racismo”, afirmou Cláudia. Já o antropólogo Rolf Malungo de Souza, falou sobre as representações da masculinidade negra no Brasil. Ele usou exemplos do livro “O Cortiço” e de novelas como “Senhora do Destino” e “A Cor do Pecado” que representam o homem negro como violento e destinado à morte. Andreia Fernandes mostrou retratos da discriminação contra negros em peças publicitárias que também são confirmadas por estatísticas sociais.

Outro tema abordado em um dos painéis do evento foi a violência contra jovens negros. O Mapa da Violência no Brasil 2014 revela isto. Em todo o país, sete jovens são mortos a cada duas horas. São 82 jovens mortos por dia, 30 mil por ano, todos com idades de 15 a 29 anos. E, entre os jovens assassinados, 77% são negros (somando aqui os pretos e pardos, pelos critérios do IBGE).

Em outro painel, três estudiosos, entre eles, o conhecido biblista Luis Sayão, falaram sobre o negro e a discriminação racial na Bíblia. Rogério Donizette Bueno, pastor da Comunidade Vineyard em Campinas (SP), especialista em História e Cultura Afro-Brasileira e Mestrando em Educação pelo UNISAL, lembrou que a igreja de Antioquia tinha um negro (Simeão) entre seus profetas e mestres [ver Atos 13.1]. “Ao contrário do que somos induzidos a pensar, o cristianismo entra no continente europeu pelas mãos de homens africanos chamados de cristãos, muito antes de qualquer europeu”, disse ele.

Uma das mais aguardadas participações da conferência era de John Perkins [foto acima]. Com corpo frágil na idade de 84 anos, mas com voz forte de quem tem uma longa história de luta pela reconciliação racial e o desenvolvimento integral, Perkins nasceu em uma comunidade rural pobre em Mississippi (EUA), sofreu o preconceito por ser negro, mas também iniciou um abrangente trabalho de apoio ao desenvolvimento integral de comunidades, inspirado no Evangelho. Hoje, a organização que Perkins iniciou há uns 30 anos ajuda mais de mil iniciativas e reúne milhares de pessoas em conferências anuais. Na conferência brasileira, curiosamente, John foi quem falou menos sobre o racismo propriamente dito. Ele compartilhou sua experiência pessoal, orientou os presentes sobre liderança e expôs o modelo que criou na área de desenvolvimento comunitário. Ele defendeu apaixonadamente a reconciliação como fruto da reconciliação pessoal com Deus. “A verdade incendeia a justiça”, disse ele.

A Conferência Nacional Negritude & Evangélicos, que começou em uma quinta-feira (dia 13), terminou no sábado (dia 15), feriado de Proclamação da República. Que nossa república brasileira seja competente em proporcionar não somente bem-estar, mas também justiça para todos e todas. O caminho para o Movimento Negro Evangélico infelizmente ainda é longo.


Casado, jornalista, é editor de web da Editora Ultimato. Colabora também na área de comunicação com a Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) e a Rede Mãos Dadas.
ULTIMATO

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