domingo, 26 de outubro de 2014

GLAUDIR CABRAL - A Rocha, de T.S. Eliot: a relação entre a cultura e a Igreja

Os críticos literários, de um modo geral, olham com suspeita escritores que se deixam converter por uma experiência religiosa, principalmente se for cristã, como se a conversão comprometesse o talento do artista e pusesse a perder a qualidade da sua obra. É o caso de autores famosos, como o nosso conhecido C.S. Lewis, o poeta W.H. Auden e o dramaturgo, poeta e crítico literário T.S. Eliot, que se converteu do ateísmo ao cristianismo anglicano com a idade de 39 anos.
A peça dramática A Rocha contém 10 coros escritos para uma produção encenada em meados de 1934 na diocese de Londres. Inconformado com o crescente processo de secularização da sociedade britânica, que perdeu a chama da vida, a sabedoria e se perdeu no excesso de informação, Eliot lança seu protesto e seu apelo por uma mudança cultural. Muita informação e pouca sabedoria, “muita leitura e pouca Palavra de Deus”, “muita construção, mas não da Casa de Deus”.
Caminhando pelas ruas de Londres, o poeta ouve comentários de censura e rejeição: “Que os padres se aposentem. Os homens não precisam da Igreja [...] Na cidade, não precisamos de sinos”. E nos subúrbios também não há mais espaço para a Igreja, apenas para as indústrias e o lazer. Para o poeta, essa crise representa a morte da sociedade. Nestes tempos estranhos, o próprio núcleo familiar perde sua base de sustentação e sua unidade, pois “[f]amiliarizados com a estrada e sem paradeiro, nem a própria família anda junto”. As pessoas vivem agora dispersas “entre ruas que se engalham, e ninguém conhece ou se importa com seu vizinho, a não ser que ele o perturbe”.
A obra fala da crise da Igreja, que “tem de ser construída sempre, pois está sempre se corrompendo por dentro e sendo atacada por fora”. Há uma grande obra de restauração a ser feita, e trabalhadores são chamados com urgência, e todos são desafiados a participar, pois “[h]á muito que derrubar, há muito que construir, há muito que restaurar”. A obra está recheada de referências ao livro de Neemias e ao relato da reconstrução do templo de Jerusalém: “Lembrem-se das palavras de Neemias, o Profeta!”. E é preciso construir com o a ajuda do Eterno, pois “construímos em vão se o Senhor não construir conosco. Pode-se guardar a Cidade que o Senhor não protege?”. Evidentemente, há resistências, há oposição, mas a reforma é uma tarefa urgente e contínua.
A Rocha é figura central do poema, é o Filho do Homem, aquele que virá como Forasteiro, “Cristo Jesus Ele Próprio a principal pedra angular”. E ao encaminhar-se para o fim, com a obra de reconstrução sendo completada, “depois de muita luta e de muitos obstáculos”, o poema é cada vez mais invadido pela luz. “Ó Luz Invisível, nós te glorificamos!”
Gladir Cabral
ELIOT, T.S. Obra Completa. Trad. Ivan Junqueira. São Paulo: Arx, 2004. Vol. I
ELIOT, T.S. Coros de “A Rocha”. Edição portuguesa.

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