domingo, 12 de outubro de 2014

ESPECIAL - Jesus e as crianças

Jesus é um adulto que nunca deixou de ser criança e uma criança que cresceu sem abandonar a beleza da infância, mas agregando a ela sabedoria.
Mesmo grávida de nove meses e com um menino de 1 ano e meio a tiracolo, a jornalista Rita Mucci, casada com Rodrigo Santos, não perdeu a oportunidade de entrevistar o conhecido pastor evangélico Ariovaldo Ramos, durante o evento Ultimato 40 anos -- Encontro de Amigos, realizado em Viçosa, MG, em julho de 2008. 

Como Deus vê a criança?

Quando Jesus chama uma criança para perto de si e diz que se não nos tornarmos uma criança não entraremos no reino (Mt 18), ele está dizendo que vê na criança o melhor do ser humano; que ela tem muitas características que não deveríamos perder, mas que perdemos com o tempo. Em boa parte do capítulo 18, Jesus está nos advertindo para que não deixemos que as crianças percam tais características, pois esta perda vai afastá-las do Pai. Primeiro, a criança tem um deslumbramento em relação à criação, a Deus, a certeza de que o universo é muito mais do que aquilo que os nossos olhos podem perceber. Segundo, Jesus sugere que as crianças têm uma espécie de comunhão com os anjos, porque ele diz que os anjos das crianças vão constantemente diante dele, dando a impressão de que existe uma interação entre as crianças e o mundo espiritual, que, como adultos, não percebemos mais. Perdemos essa sensibilidade para com Deus. Terceiro, a criança tem a consciência de carência, de necessidade do outro, aquela sensação de que a solidão não é boa. Em qualquer situação de abandono ela chora, pois sabe que não pode ficar sozinha, que ninguém nasceu para ficar sozinho. Isso é algo que vamos desaprendendo, principalmente porque, no mundo moderno, somos estimulados o tempo todo ao individualismo.

São consideradas crianças pessoas de que idade?
É difícil dizer. Claro que os mais novos são crianças por excelência, porque eles têm tudo de dependência, de convivência; são uma porta aberta, onde se pode colocar coisas boas ou coisas ruins. O que nos torna, como educadores, tão responsáveis pelo mundo é que as crianças só vão processar o que receberem. Deveríamos prolongar a infância ao máximo, mantendo as crianças dentro dessa abertura para o outro, dessa alegria, dessa franqueza, dessa vontade de estar junto. Porém, estamos fazendo o contrário. Hoje, uma criança de 4 ou 5 anos já está começando a reagir como adulto. Nós -- a sociedade -- é que determinamos a duração da infância. No meu tempo de garoto ela durava mais. Com 12 ou 13 anos, ainda estávamos brincando na rua, empinando pipa, jogando pião. Não é tão cronológico, com exceção dos primeiros 2 ou 3 anos, em que é mais difícil a criança processar o ódio que tentam incutir nela. Depois, isso dependeria do ambiente em que a criança é criada. É exatamente isso que Cristo quer dizer em Mateus 18 quando nos adverte a não desviar ou estragar as crianças. Nós as desviamos quando as fazemos não amar ser gente. A infância é a fase em que se aprende não apenas a ser gente, mas também a amar ser gente. 

O que você quer dizer com “aprender a amar ser gente”?
Gostar das pessoas, de andar com elas, do contato, de brincar, de ver os amigos, de rir, de pular, de admirar a criação, de brincar com os animais. Enfim, gostar de ser gente! Criamos uma sociedade que está ensinando cada vez mais cedo as crianças a não gostarem disso. Começa com pais que não conseguem amar seus filhos direito. Aqueles que trabalham com resgate de crianças ficam assustados ao ver como os pais podem fazer mal a seus filhos. Quando alguém é vitimado, depois se torna algoz; a pessoa retorna o que recebeu. Pergunto-me o que vamos ter daqui a 30 anos, já que estamos perdendo a infância. Deveríamos aprender com a espontaneidade da criançada, com a facilidade que elas têm de achar graça, de brincar. É isso que Jesus estava dizendo, principalmente com relação à capacidade que ela tem de amar. A criança recebe carinho, precisa de carinho e devolve carinho, de maneira natural.

O que os pais devem fazer para que seus filhos não percam as características de criança e ao mesmo tempo sobrevivam no mundo de hoje?
Uma coisa a fazer é ajudar a criança a perceber que as pessoas adoeceram, e que na vida sempre teremos de escolher entre contrair a doença também e entender que a pessoa está enferma, amá-la, orar por ela e deixá-la nas mãos de Deus. Devemos conviver com ela da melhor forma possível, conscientes de que precisamos nos proteger de alguma maneira. Muitas vezes, confundimos as pessoas com suas doenças, e acabamos ficando doentes também. Para não retirarmos das crianças o que elas têm de melhor e ao mesmo tempo ajudá-las a sobreviver sem perder a beleza, o primeiro passo que Jesus nos convida a dar é voltarmos a ser criança. Não se trata de apologia à irresponsabilidade, mas de apologia ao amor, que não é irresponsável, só não é tirano. Todos nós temos de passar por esse processo -- foi para isso que Jesus tentou chamar nossa atenção naquele dia. Ele não disse que a criança não tem maldade. Ela é um ser humano. Percebemos isso em uma situação de normalidade mínima; a não ser que a criança nasça em um ambiente tão disfuncional, que imediatamente seja introduzida à loucura. O caminho cristão é a recuperação dessa espontaneidade, dessa alegria, dessa capacidade de amar, de confessar as necessidades, de admitir a fraqueza, de admitir que não pode ficar sozinho, que precisa do outro.

Como os adultos podem voltar a ser crianças, se o mundo exige deles o contrário?
Esse é o milagre da salvação, a obra maior do Espírito Santo. Quando entregamos nossa vida a Jesus, o primeiro sinal que aparece é a alegria no Espírito Santo, essa alegria infantil. Encontramos Jesus e somos encontrados por ele. Quando a igreja, a comunidade, começa a perder essa alegria da comunhão, é algo assustador. Tenho a impressão que Jesus desejava criar uma grande cooperativa, e a igreja é a cooperativa de Deus. Cada um trabalha com seus talentos, as capacidades que o próprio Espírito comunica -- investimentos que ele fez em cada um de nós -- e todos trabalham por todos, de maneira que ninguém fica desamparado; quem colhe em abundância não acumula, para que quem colheu menos não passe necessidade. Assim deve ser a comunidade, um lugar onde a pessoa possa sentir-se em casa, entre irmãos, entre amigos. Temos de ajudar a igreja a recuperar a alegria da comunhão, da amizade. O suíço Hans Burki, que foi da ABU, dizia que “O reino de Deus é antes de tudo um reino de amigos”. Se perdermos isso, perdemos o reino de Deus. É na infância que se aprende que, não importa quantos brinquedos se tenha, não tem graça ficar sozinho com os brinquedos. É isso que Jesus veio nos trazer de novo, a graça da vida, da comunhão, que a criança tem muito enquanto não é atrapalhada pelos adultos. Ser criança é o grande milagre do Espírito Santo. E o bom de estar mais perto dele é que ele nos leva a esse equilíbrio entre a alegria e a espontaneidade da criança e a prudência da sabedoria. O contraponto é a sabedoria e não essa coisa do adulto. A sabedoria é suficientemente aguda para a pessoa perceber quando está em um ambiente enfermo, onde tem de amar, mas não pode se deixar contaminar. Precisamos aprender a preservar a infância envolvendo-a com sabedoria; ela não mata a infância e ao mesmo tempo não se expõe a riscos desnecessários.

O que podemos fazer para que crianças e adultos “estragados” deixem de sê-lo?
Primeiro, ter a consciência de que se precisa de ajuda; segundo, pedir ajuda. Crianças que parecem estar bravas na verdade estão pedindo ajuda. A exposição de fraquezas é carência, um extraordinário ato de coragem. Este é o caminho. Ao ter a consciência de que precisa, você repensa sua história. Achamos que o Senhor Jesus nos comprou com seu sangue da situação de inferno, de condenação; porém, Pedro diz que Cristo nos libertou da forma fútil e vã na qual aprendemos a viver (1Pe 1.18ss). Cristo resgata nossa capacidade de ser gente, nos ensinando o que isso significa. Ao vermos Jesus, vemos como deveríamos ser. A diferença entre Jesus e Moisés é que Moisés veio nos mostrar em quê nós nos tornamos e Jesus veio nos mostrar em quê podemos nos tornar. Outra característica da criança que precisamos ter é a capacidade de aprender. A criança sabe que não sabe, e não tem medo de perguntar. O arrependimento passa por essa profunda consciência de que eu não sei, e de que o que sei está errado. Admito minha ignorância não olhando para a questão de ordem moral, mas olhando para Jesus e dizendo que não sei amar dessa forma, que não sou capaz de me doar desse jeito, que não consigo falar as coisas que ele fala. Jesus se importa com as pessoas, ele muda sua agenda para se envolver com elas, ele olha para as pessoas e vê o coração, sem se preocupar muito com o que aparece. Jesus vê alguém que ninguém mais vê. Então, vou descobrindo que não sou pecador porque desobedeço a uma série de leis morais, mas porque minha motivação está errada. Meus relacionamentos estão sempre presos aos meus interesses, sempre penso em mim. Jesus via as outras pessoas primeiro. E ele não apenas vê, mas também nos faz ver. Olhando para Jesus, percebemos que ele é um adulto que nunca deixou de ser criança. Dizemos que uma pessoa amadureceu porque ficou mais séria, mais rigorosa. Porém, ela amadurece quando adquire sabedoria, quando a alegria torna-se capacidade de consolo, quando a pureza torna-se capacidade de resistir à maldade, quando a espontaneidade torna-se capacidade de dizer o que precisa ser dito. Não temos de perder o belo da infância, mas sim envolvê-lo com sabedoria, e isso é o milagre do Espírito de Deus. Temos primeiro de aprender a olhar para a criança, para ver o que Jesus viu. Jesus tentou nos ensinar também que só encontramos identidade na comunidade. A identidade da criança é gregária, está ligada à família. A primeira coisa que ela sabe é que é filha do seu pai e da sua mãe. Ela não constrói a identidade sozinha, mas em grupo. Jesus quer que recuperemos dentro da comunidade o fato de que somos, antes de tudo, membros de uma família. 

Você falou da importância do arrependimento. Como é esse processo?
É o momento em que digo a Jesus que quero ser gente igual a ele, que ele pode me libertar das trevas para onde estou sendo atraído para me tornar parecido com os demônios e perder minha humanidade. Então Jesus diz: “Vem”, e eu vou. A partir desse momento só tenho de continuar andando. Não posso duvidar que ele está comigo, nem que ele me ama. Nesse sentido, muitas coisas que pedimos são desnecessárias. A única oração que deveríamos fazer é: “Pai nosso, santifica o teu nome”. A partir daí o amor e a bondade de que precisamos já estão em nós, pois o Espírito do Senhor já está em nós. Então posso usar todos os meus momentos, toda a minha comunhão com Deus para aprender a ser mais parecido com ele, em vez de ficar preocupado com outras coisas que acho que deveria saber. Devemos nos ocupar em andar com Jesus, em conhecê-lo, em falar com ele. Nesse sentido, não precisamos pedir, pois tudo o que queremos já está em nós. A questão é se acreditamos nisso. O desafio é epistemológico e se retrata no questionamento: “Em quê eu acredito”. Não precisamos sentir, pois já cremos. Agora devemos trabalhar para que nossa crença apareça. Quando fizermos isso, o Espírito Santo trabalhará na área do sentimento, tornando real no coração o que já é realidade em nossa convicção. Entender que o verdadeiro é o que Jesus falou, e não o que penso ou sinto, será sempre um desafio.

Não há uma contradição entre não pedir e ser dependente?
O fato de eu depender não significa que eu tenha de pedir, mas sim que eu receba. São coisas diferentes. Quando chega a hora de o seu filho comer, ele não precisa pedir; você leva a comida para ele. O fato de ele não precisar pedir não significa que não é dependente. Quer dizer que você se antecipou a ele. Da mesma forma, quando falamos com Deus, acreditamos que ele está se antecipando, o que não quer dizer que não precisamos. Vou porque tenho certeza que Deus já se antecipou a mim e fará tudo acontecer. 

Como a igreja deveria agir com relação à criança?
Primeiro, a igreja precisa priorizar a criança. Estamos ali por causa delas, pois estamos construindo um novo paradigma da humanidade, e a melhor forma de fazer isso é educá-las já nesses novos padrões. Assim, elas serão melhores do que nós, pois muitas coisas que o Espírito Santo precisou tirar de nós não precisará tirar delas. Nossa prioridade seria ajudá-las a irem mais longe do que conseguiremos ir. Lamentavelmente, a igreja vê as crianças como um problema, um estorvo. Temos o pensamento equivocado de que elas só dão trabalho, não trazem nenhum retorno. Não temos considerado que é um privilégio tê-las entre nós, porque elas serão formadas já na nova comunidade, a comunidade do pacto. O Senhor mandava circuncidar os filhos ao oitavo dia, e isso significava que eles já nasciam no pacto, dentro de outra sociedade, de outra filosofia, aprendiam a ser gente de outra maneira. A igreja é uma nova humanidade, e quanto mais investirmos nas crianças, mais a comunidade terá a forma que precisa ter. Em geral vamos perdendo essa visão da criança, caindo no “conto do sistema”, que é um conto individualista. Quando vou para a comunidade, tenho de aprender que agora faço parte da construção de outra sociedade, e que cada criança é a possibilidade de a próxima geração ser melhor apresentada e melhor realizada do que a atual. Para isso, é necessária uma forte visão comunitária de que estamos construindo uma nova forma de nos relacionarmos como gente, sendo a criança o nosso alvo principal. Herdamos um vão e fútil procedimento, como afirma Pedro, mas não precisamos repassá-lo, porque somos libertos por Jesus. Nossas crianças serão criadas na graça e sabedoria diante de Deus e dos homens.

ULTIMATO

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