quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski - A opção pelo simples


Quando conversamos com vários casais nos encontros de casais que ministramos, nos deparamos com pais preocupados em oferecer o melhor para seus filhos e, não poucas vezes, desesperados diante das respostas débeis dos filhos.

Trata-se de pais conscienciosos que estimulam os filhos a serem bons estudantes e a desenvolverem suas habilidades motoras e cognitivas ao máximo, por meio de uma série de atividades extracurriculares, como o aprendizado de uma língua estrangeira, de um esporte ou de alguma habilidade artística.

Muitas crianças e muitos adolescentes iniciam várias destas atividades, simultânea ou sequencialmente, às vezes motivados pela novidade ou pelo estímulo de um amigo próximo, mas desistem depois de algum tempo alegando desinteresse ou cansaço. Os pais insistem oferecendo uma atividade alternativa, na esperança de motivar os filhos e finalmente encontrar algo que possa preencher o espaço. Para isso, muitas vezes têm de se sacrificar por horas a fio em meio ao trânsito caótico de grandes centros para levar e buscar os filhos em tais atividades.

Por vezes arriscamos perguntar aos pais por que eles acreditam que os filhos necessitam desta infinidade de atividades para as quais demonstram pouco ou nenhum interesse. E as respostas geralmente oscilam entre a necessidade de equipar os filhos para enfrentarem uma sociedade competitiva e “porque todos os coleguinhas fazem”. Entretanto, o que constatamos é que muitos pais terceirizam as atividades lúdico-educativas dos filhos porque “perderam” a habilidade do simples.

Perguntei a um pré-adolescente se ele já tinha feito uma pipa ou construído um carrinho de rolimã junto com o pai. O pai estava ao lado e, constrangido, deu uma risada sem jeito. Eu perguntei a ele se nunca tinha construído um carrinho de rolimã em sua infância e ele disse que sim, mas que havia esquecido como se faz.

Os pais precisam tomar consciência de que o “melhor” investimento na educação dos filhos é o “tempo” de qualidade que podem dispensar a eles. Quando um filho ou uma filha brinca com os pais, desenvolve diversas habilidades (motoras e cognitivas) de uma forma tranquila e silenciosa, por meio da observação e da coparticipação. O simples fato de uma menina observar a mãe cortar uma cartolina para elaborar um cenário onde elas irão desenvolver uma brincadeira ou de um menino ajudar o pai a segurar uma ferramenta já é altamente estimulante para o desenvolvimento de habilidades. E arriscaríamos dizer que pequenas experiências como estas são “mais” estimulantes que atividades extracurriculares, porque nelas está presente um elemento fundamental para o aprendizado: o “afeto”!

Assim, o “simples”, como ter o filho ao lado, sentado no chão, empilhando pedacinhos de madeira na construção de um castelo, pode gerar um resultado melhor em termos de aprendizado que cinquenta aulas de bricolagem para crianças. Sempre me encanta o privilégio e igualmente a responsabilidade que Deus oferece aos pais de “criar os filhos” (Ef 6.4), e penso que tal privilégio não deve ser transferido a terceiros com tanta facilidade -- e até mesmo leviandade em alguns casos. Chego a pensar que nossa sociedade tem roubado certos direitos exclusivos da família (entre esses, o direito de educar os filhos) ao criar a mentalidade de que as crianças precisam ser superdesenvolvidas em inúmeras habilidades extracurriculares -- como diziam os pensadores marxistas, os filhos são do estado e não dos pais, estes são meros procriadores.

Pais, não entreguem a outros um privilégio que é especialmente dado a vocês. Escolham o “simples”: tempo de qualidade com os filhos para desenvolver atividades lúdicas.

• Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. São autores de Pais Santos, Filhos Nem Tanto. Acompanhe o blog Casamento e Família.

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