segunda-feira, 21 de julho de 2014

O mito da “mão invisível”: a política para além da urna

Esse pequeno texto busca fazer uma reflexão acerca das transformações sociais que nossa sociedade precisa realizar, pontuando o quão limitado é o pensamento que apregoa que elas virão apenas pela mudança do partido e das pessoas que governam o país, os estados e os municípios.
Eis abaixo o teor da reflexão:
 Muitos daqueles que tem tido posicionamento contrário aos protestos  dos movimentos sociais são os mesmos que defendem que mudanças na sociedade ocorrerão apenas pela simples troca de governantes (o que é sintomático, e revela, em certa medida, o ethos¹ brasileiro sobre o que é política²). Contudo, estes mesmos indivíduos passam horas ao telefone para reclamar das tarifas dos bancos, das cobranças de serviços de telefonia e internet, do valor das mensalidades e material escolares dos filhos, etc.  Com efeito, se fossem seguir até o fim a linha da argumentação política que propõem,deveriam somente esperar a troca dos gerentes dessas prestadoras de serviços e descansar em berço esplêndido, achando que, dessa forma, tudo seria resolvido. 
É claro que não seria, e a história está aí para provar: as mudanças sócio-culturais, sejam elas em termos de melhores salários, saneamento básico, direito ao voto, igualdade racial, étnica e de gênero, e tantas outras, foram fruto de pressão social, o qual funcionam como um contraponto ao conservadorismo, àquilo que é considerado “normal”, mas que outrora não era. Em outros termos, o que somos e vivemos hoje, grande parte disso, foi considerado em algum passado histórico como causa progressista, “perigosa”,  o que levou muitas pessoas a lutarem para que nada mudasse, achando que o que existia no tempo em que viviam deveria ser doxa social, ou seja, o “modelo” de sociedade para as gerações futuras. 
E hoje acontece algo parecido, isso porque, como já nascemos sob certo habitus social, econômico e político, achamos que a realidade sempre foi assim. Mas não foi. Ela muda, e muda quando grupos sociaisse sentem marginalizados e procuram formas de atualizar aquilo que, para eles, são apenas sombras. Essas “atualizações” ocorrem dentro das condições em que historicamente os indivíduos se encontram.  Concretamente, isso significa dizer  que a demanda reivindicada, e a forma de reivindicação irão depender das situações sociais na qual eles estão inseridos. Por exemplo: alguns lutarão por umainternet mais rápida, outros, por transporte público. Alguns, por uma cobertura no residencial X, outros, por cobertura ante a chuva e o mau tempo que experimentam há um bom tempo. Alguns lutarão por mais polícia, outros, para que a polícia pare de discriminar minorias. 
E a luta destes últimos não é ilegítima ou menos legítima do que as daqueles que buscam melhorias nos serviços prestados pelas empresas. Se há aqueles que querem melhorias naquilo que já possuem, há também aqueles que querem direitos historicamente negados. São pautas distintas, mas dentro de modus operandi igualmente legítimos. E não adianta pensar que o voto, per si, irá transformar algo e garantir esses direitos, pois o próprio Estado é processo de conflito, um jogo de forças econômicas e políticas dentro do qual o governante eleito está inserido e, muitas vezes, amarrado.
Portanto, para mudar, tem de lutar sempre, buscar direitos, unir-se em torno de causas comuns, considerando como coisa do jardim da infância da história cultural a ideia da mudança por meio, tão somente, da “mão invisível”  em época de eleição. Penso que, levado isso em conta, a urna será um dos elementos sociais para alterar a realidade, dentre tantos outros;  um dos meios para o fazer político, e não o seu fim.
Deus nos abençoe.
Cleiton Maciel Brito
gospelprime
¹ Na acepção aqui proposta, significa visão culturalforma de ver o mundo.
² Compartilho da visão de Hannah Arendt, filósofa política alemã, para a qual a política é a convivência entre os diferentes, sendo o espaço público, o lugar onde todos podem participar por meio do direito à palavra, à contradição das verdades e à liberdade de ação. Ver: ARENDT, Hannah. O que é Política? Rio de Janeiro: Bertrand, 2004; pág. 21-24.

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