domingo, 2 de março de 2014

Minhas sinceras impressões sobre Caio Fábio

Só estive com ele pessoalmente uma vez. Provavelmente, ele sequer vai lembrar. Fui visitá-lo em meados dos anos 90 no escritório da Vinde em Niterói, num edifício alto, acompanhado de um pastor americano chamado Bill Mikler.

Caio nos recebeu com carinho. Enquanto eles conversavam em inglês, fiquei admirando seu gabinete, principalmente um enorme quadro com uma espécie de árvore genealógica das igrejas. Fiquei orgulhoso quando vi ali a igreja que meu pai liderava. Quando soube de quem eu era filho, Caio demonstrou muito respeito, pois apesar de liderar uma igreja tipicamente neopentecostal, meu pai era reconhecido por sua seriedade. Seu nome, Cecílio Carvalho Fernandes. 

Encontrei ali um homem despretensioso, que não se gabava de suas realizações. Isso chamou muito a minha atenção. Imaginei-o soberbo, amante da ostentação. Dei com os burros n'água. Sua humildade desarmou-me.

O primeiro contato que tive com sua obra foi nos anos 80, quando li um livro de sua autoria sobre namoro, noivado e casamento. No início, meu pai demonstrava certa desconfiança sobre aquele pregador barbudo e cabeludo. Porém, ao ler seu livro sobre  aborto, meu pai sentiu-se inspirado a promover uma reunião especial em sua igreja para tratar do assunto. Cerca de dois mil pessoas se apertavam na igreja em Quintino, quando meu pai entrou cercado de pequenos caixões, representando crianças abortadas. Sem qualquer constrangimento, meu pai usou o livro de Caio para montar o esboço de seu sermão. Conheci minha esposa naquele culto.

A cada livro seu que lia, crescia minha admiração pelo pregador. Segui, de longe, sua trajetória. Orgulhei-me, como muitos pastores, de tê-lo como representante da classe junto aos jornais e TV. Aprendi muito com suas preleções veiculadas na TV e no Rádio.

Até que um dia, no escritório de uma loja de instrumentos na Penha, acompanhado de um pastor e o gerente (também crente), chegou a notícia bomba por fax.

O gerente da loja virou-se para nós e disse: Vocês não vão acreditar! Sabem quem caiu? CAIO FÁBIO!

Levei um choque. Emudeci. Porém, o choque que se seguiu seria maior que o provocado pela notícia em si. Aquele pastor e o gerente pareciam comemorar. Um deles disse: - Eu sabia que mais cedo ou mais tarde a máscara cairia. Era questão de tempo até que surgisse um escândalo com o seu nome. Toda aquela santidade não passava de fachada!

Saí dali amargurado. Conheci, naquele fatídico dia, uma face da igreja evangélica que até então ignorava.

Vi quando o castelo desmoronou-se. O fechamento da fábrica de esperança. A venda da revista Vinde (que tornou-se Eclésia). Os livros que foram tirados das prateleiras das livrarias.

Parecia que Caio jamais se levantaria. Não bastasse o escândalo provocado por seu caso extraconjugal, ainda veio a bomba do dossiê Cayman. Caio parecia ter entrado num inferno astral.

Foram anos de silêncio. Só Deus sabe o quanto gostaria de tê-lo encontrado nessa época. Sei que muitos que se diziam amigos, simplesmente evaporaram. Os mesmos que lhe rasgavam seda, agora o apedrejavam. 

Quando surgiu o site, comecei a acompanhá-lo. Aquilo parecia uma pequena nuvem do tamanho de uma mão, que eventualmente cresceria, tornando-se num temporal. Acompanhei de longe o surgimento do Caminho da Graça. Uma vez chegamos a nos falar por telefone. Queria muito encontrá-lo para expor-lhe o que o Senhor me fizera compreender acerca de Sua graça e reino. Mas infelizmente este encontro jamais ocorreu.

Quando o Danilo do Genizah e o Charlito o encontraram em Brasília, eu estava morando nos EUA e não pude ir. Lamentei-me profundamente.

No período em que morei em Orlando, tornei-me muito amigo de Jonathas Moreira, um pastor presbiteriano que conhecia seu pai. As coisas que me contou, fez aumentar minha admiração, pois percebi-o como tronco de uma árvore cujas raízes eram profundas. Jonathas, hoje com 83 anos, faz missões nas comunidades ribeirinhas do Amazonas, que tanto seu pai amava. 

Apesar de não ter tido a oportunidade de estreitar nossa amizade, quero deixar registrado o quanto me sinto honrado por ser contemporâneo deste gigante da fé. Considero-o um ícone, uma referência para a minha geração, e particularmente, para mim.

Talvez nossas ideias não convirjam totalmente. Mas nossos ideais são exatamente os mesmos. Eu o considero um tipo de subversivo-mor nesses dias de apatia crônica da igreja evangélica. 

Quanto ao período em que perdeu tudo o que tinha (pelo menos em termos ministeriais e materiais), creio que tenha enriquecido sobremaneira a sua biografia, fazendo-o ainda mais sensível às mazelas e dilemas humanos. Sinceramente, prefiro o Caio de hoje ao de ontem. A maturidade lhe fez muito bem.

Vejo-o como um homem à frente do seu tempo. Um visitante do futuro, enviado por Deus para desatar muitos Lázaros que, embora tenham experimentado o poder da ressurreição, ainda são reféns de pensamentos ultrapassados, que cheiram a mofo em vez de exalarem o bom perfume de Cristo.

Qualquer dia desses, quero ter a alegria de recebê-lo na Reina, igreja à qual sirvo como bispo. Seria uma honra confiar-lhe o microfone de nosso modesto trabalho. Caso este texto lhe chegue às mãos, considere-se convidado. 


Por Hermes C. Fernandes
http://www.hermesfernandes.com/

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