sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

“No Brasil atual, tudo se tornou uma discussão política, o que empobreceu inclusive a própria”


Por Jénerson Alves

Mestrando em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Pernambuco, o professor de História Eduardo Leal, 27, conversa com Presentia sobre as relações entre o Cristianismo e a cultura ocidental. Ele defende o estudo das artes clássicas e analisa a relação atual entre religião e política. Ademais, o professor alerta para a necessidade de o cristão embasar-se em posicionamentos teológicos e conhecer a história da Igreja. “Um povo que desconhece de onde veio e como foram criadas suas instituições, ou seja, um povo sem história, fica à mercê de qualquer demagogo”, observa Leal.
Ainda na entrevista, ele conta um pouco do seu testemunho, relatando o caminho que trilhou para encontrar sentido espiritual em sua vida. “Muitas vezes, precisamos ir até o fundo do poço para podermos enfim encontrar a luz, esse foi o meu caso”, revela.

PRESENTIA – Você costuma afirmar que “Cristo é a rocha da cultura ocidental”. O que esta frase significa? É possível dizer que o Cristianismo vai além da dimensão religiosa e está presente também na cultura?

EDUARDO LEAL – Primeiramente, é um prazer participar desta entrevista para um jornal de prestigio como é Presentia, com um tema tão importante para uma época em crise como essa que estamos vivendo, que é o cristianismo para a preservação da cultura ocidental. Em primeiro lugar, precisamos compreender que o que chamamos de Cultura Ocidental é a cultura iniciada pelos gregos, mais o direito romano e a sociedade cristã, ou o advento de Cristo nosso Senhor a Terra, dando então a formação da sociedade que nós hoje vivemos. Para melhor compreender, seria interessante a leitura de dois livros, um do Thomas Woods, chamado ‘Como a igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental’ e o outro do Christopher Dawson, ‘A Criação do Ocidente’. Nestes dois livros, fica clara a importância da religião para a formação e preservação da sociedade tal como hoje conhecemos.
Vale salientar, que em todas as sociedades conhecidas na humanidade, desde o Egito antigo até os dias atuais, havia o culto a alguma divindade, e que foi a partir da crença em tal divindade que os costumes, direito e a ciência, ou técnica, se fundamentaram. Vale salientar que o advento do cristianismo em Roma, que era um povo politeísta, se deu a partir do momento em que o povo romano deixou de acreditar em seus deuses e na pax romana, ou seja, no seu direito.
Livro revela os fatores religiosos 
que motivaram a emancipação da Europa Ocidental
Trocando em miúdos, toda e qualquer sociedade ao longo da história da humanidade, se fundamentou na crença em algum tipo de divindade e a partir dessa crença criou o seu sistema jurídico (ao menos nas sociedades que conheceram a civilização), e a partir do momento que elas deixaram de acreditar no que fundamenta o seu sistema jurídico, ou seja, no deus que deu fundamento a sua sociedade, ela pereceu.
Na sociedade Ocidental, há-se um diferencial, pois não mais acreditamos em “deuses” elementares, ou seja, o sol, a chuva ou a vaca, para os hindus. Acreditamos no único Deus verdadeiro, ou seja, o Deus que se fez homem, de carne e osso, ao contrário de todas as outras civilizações que nos antecederam. Esse fato, por si só, já é motivo para endossarmos nosso sistema jurídico tradicional, fundamentado nos princípios cristãos que dão como base nossa noção jurídica, e não aceitarmos esse verdadeiro desmanche civilizacional que hoje sofremos devido ao ateísmo jurídico ateu e com um viés marxista que impera nas faculdades de todo Brasil.
A perda da noção metafísica, ou seja, da causa primeira das coisas, faz com que o homem caia no profundo idealismo e existencialismo que hoje a sociedade ocidental, por rechaçar a noção do sagrado, está visivelmente caindo, bem como o absoluto relativismo moral.

PRESENTIA – Você se mostra muito favorável ao estudo e ao deleite dos clássicos, seja na música, na literatura, ou nas demais artes. Em que as obras clássicas podem ser benéficas para quem as aprecia?

EDUARDO LEAL – Ora, é necessário entendermos o significado dos termos e expressões que usamos, de forma clara e objetiva, para não perdermos o sentido de continuidade histórico necessário para a manutenção de nossa civilização. Se as bases que caucaram a nossa civilização, civilização essa que é considerada a mais desenvolvida em toda a história da humanidade, deixam de ser estudadas, compreendidas e dão lugar para o ativismo materialista ideológico, que hoje impera nos estudos de filosofia, direito e artes no geral, causa-se uma verdadeira aporia e confusão mental em todos, que mesmo sem saberem o porquê de tal confusão (como a atual crise da civilização ocidental que estamos vivendo), percebem.
Se procuramos no YouTube, veremos um curto vídeo do filosófo inglês, Sir Roger Scruton, intitulada ‘Why the beaty Metters’ (Porque a beleza é Importante), mostrando o papel essencial da beleza para a manutenção da ordem, como nos dizia Aristóteles, quinhentos anos de Cristo, na Grécia antiga: “A beleza é o esplendor da ordem”. Na Filosofia Clássica, existe uma ligação direta entre o bom e o belo. O que foi totalmente mudado a partir da Filosofia Moderna, mais precisamente do século dezenove, culminando na famosa Semana de Arte Moderna, onde o conceito de beleza foi profundamente atacado dando então vazão a essa “arte”, incompreensível, hermética e burguesa que vemos hoje. Como por exemplo, aqui no Brasil, vemos a peça teatral ‘Macaquinhos’, onde os atores engatinham nus em circulo pelo palco, colocando seus dedos em seus órgãos excretores e nos vende esse show bizarro como arte. Inclusive, tudo isso financiado com dinheiro público. O caos estético e sonoro que vemos nas grandes cidades, projetadas, muitas vezes, por arquitetos modernistas que não compreendem o papel ético e moral de uma obra de arte. Outro livro que ira tratar desta questão de forma magistral, é a obra ‘Arte ou Desastre’, do filósofo alagoano e ex professor da UFPE, Ângelo Monteiro. Enquanto os cursos de filosofia, de artes e mesmo de arquitetura não voltarem a estudar o papel educativo da arte e da arquitetura de modo geral, esse caos urbano nos levara a um futuro cyber punk, como muito bem retratado na clássica obra ‘Admirável Mundo Novo’, de Audous Huskley.

PRESENTIA – Na condição de professor, você acredita que é possível inserir a arte clássica nos estudos em sala de aula? De que forma?

EDUARDO LEAL – Não só é possível, como é necessário. Temáticas como O Direito Natural, O Belo, O Justo e tantos outros temas que foram infinitamente discutidos e estudados por toda a filosofia clássica, e de certa forma abandonadas pelo moderno, precisam ser rediscutidas para que de tal forma possamos a longo prazo, quem sabe, melhorar esse quadro apocalíptico no qual a sociedade pós moderna esta visivelmente afundada. Admira-me muito quando converso com algum amigo do Centro de Artes, que nunca leu o pequeno ensaio de José Ortega Y Gassett intitulado ‘A desumanização da Arte’, mas ao se deparar com uma pequena escultura de barro simulando fezes humanas, faz disso um momento notório da arte humana. Imagine que no futuro muitas destas pessoas darão aula de artes para seus filhos.

PRESENTIA – Atualmente, muito se discute como deve ser o papel do cristão na política. Qual sua opinião sobre esse assunto?

EDUARDO LEAL – Quando Cristo nos diz no evangelho de Matheus, capítulo 22, a famosa frase “daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, nosso Senhor se referia aos tributos. É preciso compreender que a política tal qual conhecemos perpassa, sem exceção, por outras esferas anteriores a política no seu sentido partidário/representativo. Quando se fala política, no sentido Aristotélico: “Todo ser humano é um animal político”, falamos então de política no sentido da natureza humana, ou seja, das relações humanas, isso inclui a preservação da cultura, que dentro dela está a religião, a moral, a ética e a arte. Ou seja, tudo aquilo que forma uma civilização. É nesse segundo sentido que falo de política, e a participação do cristão se faz fundamental para que não sejamos engolidos por visões totalitárias, ideológicas e, consequentemente, políticas estranhas a nossa cultura. Ainda na linguagem cristã, percebemos que o mundo está dividido entre dois reinos materialistas, o primeiro, o reino de Mamom (que é a loucura da riqueza, das glórias do mundo. Ou, como vemos muitos defenderem, um capitalismo sem valores desligado do controle moral e ético.), e pelo segundo grupo, defensores de Leviatã (doutrinas totalitárias que negam a liberdade, buscando controlar o homem em um controle estatal absurdo, dominado por uma pequena minoria de “iluminados” que acreditam saber o que é melhor para todos). Deixo aqui claro que não faço discursos anticapitalistas, e sim, compreendo o capitalismo como uma técnica que tanto pode ser usada para libertar, quanto para escravizar o homem. Quando essa técnica é usada respeitando os limites, morais e culturais, que inclusive dão sentido a esse sistema econômico, melhor sistema não há. Mas quando ela é usada como fim em si mesmo, ela pode se tornar tão perigosa como qualquer regime Comunista, é aí onde entra o papel da religião e do cristão como representante de sua cultura, pois a cultura, moral e religião são o que, em ultima instância, fiscalizam os excessos dos sistemas políticos e econômicos propostos pelas diversas correntes ideológicas. É nesse sentido, que ao reafirmamos que Cristo, a pedra fundamental, é o nosso Deus e único merecedor de adoração que nos livramos dos falsos ídolos que o mundo nos impõe.

PRESENTIA –As palavras ‘direita’ e ‘esquerda’ têm causado uma grande animosidade. Em sua opinião, é possível que setores dos dois lados possam estabelecer algum tipo de diálogo? Para onde o Brasil pode caminhar se o acirramento entre ‘direita’ e ‘esquerda’ não for amenizado?

EDUARDO LEAL – Bom, primeiramente por vivermos em uma cultura marxista e paganizada, o ideal de luta de classes “nós contra eles”, tudo no Brasil atual se tornou uma questão política. E é justamente a politização de tudo que não só acabou com a própria política, no seu sentido clássico, como com as demais áreas do conhecimento, inclusive a própria filosofia. Hoje não se discute mais o que é o bem, o que é justo, o que é belo, como já foi dito na resposta anterior, mas sim (graças a polarização ideológica) o que vemos não são pensadores e sim defensores de seus quinhões. No Brasil atual, tudo se tornou uma discussão política, o que empobreceu inclusive a própria. O que temos é um país de maioria cristã, conservadora, sendo controlada e não tendo representatividade política, já que hoje em nosso congresso e mesmo nas prefeituras, o que vemos é uma bancada de negócios absolutamente desligados de qualquer finalidade benéfica e moral da nação. Obviamente, que tanto na direita como na esquerda, existem pessoas boas e más, pois isso é uma questão de caráter e não de preferência política, porém, o discurso que hoje impera em nosso país é o discurso de uma esquerda radical, violenta e que não está aberta para o contraponto. Contraponto, ou contraditório este, que é condição si ne qua non da democracia. Logo, a meu ver, direita e esquerda são necessárias, assim como o coração e o cérebro se interdependem (como nos diria o filósofo americano Peter Kreeft), mas isso só acontecerá no Brasil quando a hegemonia esquerdista acabar, abrindo assim espaço para o contraditório, assim como o fim do discurso da esquerda radical Frankfurtiana, dando, inclusive, espaço para pessoas que mesmo tendo um viés a esquerda, se utilizam da razão, da lógica e do mínimo de respeito mútuo ao se expressarem.

PRESENTIA – Você percebe que há uma carência de embasamento teórico no ambiente cristão? Questões teológicas, história da Igreja, firmeza doutrinária estão sendo deixadas de lado?

EDUARDO LEAL – Sinceramente, e eu falo pelo que vejo em muitos amigos, sinto que o que falta é um pouco de senso de realidade. Vejo pessoas discutindo horas e horas sobre “a doutrina da graça”, “a doutrina da salvação”, “se é pelas obras”, “se é pela fé”, “se católico adora ou não imagem”, “se é ou não para adorar Maria”, mas esquecemos de dois pontos principais, que são a nossa união em Cristo, nosso Senhor, e nossa unidade cultural. Por exemplo, quando você fala de história da igreja, eu acho isso fundamental, pois estudar a história da igreja nada mais é do que estudar a nossa própria história. Um povo que desconhece de onde veio e como foram criadas suas instituições, ou seja, um povo sem história, fica à mercê de qualquer demagogo, como muitos que fazem ativismo militante em nossas faculdades, na grande mídia e demais instituições estratégicas para a propagação não só do ateísmo, mas sim do anti cristianismo. Perceber esse mal e, acima de tudo, perceber como ele funciona e combatê-lo é muito mais urgente, nesse devido momento, do que ficarmos brigando entre nós, entre disputas teológicas, não percebendo que o ambiente em que estamos a cada dia caindo é uma areia movediça. Precisamos reafirmar nossos valores, nossa cultura, reaprendermos o que para nossas avós e bisavós, era tão comum, entendermos o que é ser cristão e defendermos isso contra esses vários agentes de contracultura que a cada dia estão nos levando a ruína de várias formas.

PRESENTIA – Durante muito tempo, você trilhou por caminhos existenciais distanciados do Cristianismo. Conte-nos um pouco como foi seu retorno à fé...

EDUARDO LEAL – Talvez essa seja a resposta mais difícil de todas, por me obrigar a relembrar de um período triste de minha vida, que se deu no final da minha adolescência até o inicio da vida adulta (mais precisamente dos dezessete aos vinte e três anos).
Não vou aqui fazer uma biografia, pois seria extenso demais, poderia fazer isso em outro momento, mas ao me distanciar da religião verdadeira, da fé verdadeira em nosso Senhor salvador Jesus Cristo, adentrei nos turvos caminhos dos mares materialistas, onde tive envolvimento com drogas e pessoas de índole extremamente tóxica inclusive quando perceberam a minha mudança foram as primeiras a não apenas me virarem as costas como também a me caluniar das mais diversas formas.
Dostoievski nos dizia uma frase maravilhosa: “Dentro do homem existe um vazio do tamanho de Deus”. Esse vazio, o homem moderno busca supri-lo com drogas, mulheres, dinheiro e tudo que o mundo material tem a nos oferecer. O problema dessa compensação é que ela não supre a necessidade ontológica do religare Grego (da reunião do homem com o seu criador), fazendo com que nós a, cada dia, cavemos o buraco em que a sociedade moderna adentra cada vez mais por se esquecer de seu princípio criador.
Chesterton foi um escritor admirado por 
homens como C.S. Lewis e Bernard Shaw
Cristo nos diz, no evangelho de São João, que: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao pai se não por mim: Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Essa liberdade, que não é libertária no sentido hedonista do termo, só é encontrada na Verdade e essa Verdade é Cristo, nosso Senhor, o único que nos limpa do mal e vem para tirar o pecado do mundo.
Chesterton nos diz que “A igreja nada aceita, mas tudo perdoa e que o mundo tudo aceita, mas nada perdoa”, eis a vida dos que se resume a existência, a matéria. O escritor e romancista Charles Bukowski, que não era nenhum padre da igreja, mas era um homem de experiência, dizia que muitas vezes precisamos ir até o fundo do poço para podermos enfim encontrar a luz, esse foi o meu caso. Não sou melhor do que ninguém, muito pelo contrário, talvez eu seja o menor entre os meus irmãos, mas ao ver a minha vida hoje e a minha vida de quatro anos atrás, ou mesmo a vida dos que poderiam estar caminhando ao meu lado, mas insistem no erro, percebo quão maravilhosa e infinita é a misericórdia de Deus pai. Eu não estou rico, não me tornei o super homem, mas eu sinto como se escamas tivessem caído dos meus olhos e hoje, por muitas vezes ser perseguido e difamado por esses que um dia pensei serem amigos, sinto apenas tristeza por saber que essa é máxima do mundo que abandonou a razão, que abandonou a fé, que abandonou a Verdade e se entregou a um sentimentalismo barato, irracional e perigoso.
Esse é um assunto que poderíamos conversar melhor em outra entrevista, pois ela seria apenas sobre isso, ademais, peço a todos que estão lendo que pensem: “Será que o que vemos na televisão e o que muitos de nossos doutores dizem é tão correto assim?”, “Esses que estão a frente das universidades, das câmeras políticas, e às vezes até mesmo das igrejas, estão representando a vontade de Cristo?”.
Deus abençoe.

Em vídeo, filósofo explica a importância da beleza para a manutenção da ordem, assista:


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