sábado, 16 de abril de 2016

Nem esquerda, nem direita: Livrando a Fé da Matrix Ideológica

O teólogo alemão Rodolf Bultmann afirmou que o Evangelho, para manter-se relevante ao homem moderno, teria que passar por uma desmitologização, isto é, uma desvinculação da linguagem mitológica fartamente usada na antiguidade. Sem querer entrar neste mérito, creio o que o Evangelho necessita atualmente é de uma desideologização, que consistiria em desvinculá-lo de qualquer ideologia.
A ideologia tem sido motivo de rompimento entre muitos cristãos. Durante os primeiros anos do regime militar, muitos pastores entregaram colegas às autoridades, mesmo sabendo do risco de que fossem torturados sob a alegação de serem subversivos. Será que uma posição ideológica teria mais peso para nós do que nossa irmandade em Cristo? Como Jesus se comportaria nessas circunstâncias?
Teria Jesus abonado ou desabonado alguma ideologia vigente em Seus dias? Sabemos por fontes históricas, além da própria Bíblia, que naqueles dias o povo judeu estava dividido em vários partidos político-religiosos, entres os quais podemos destacar os fariseus, os saduceus, os zelotes, os essênios e os publicanos. De fato, como dizia o sábio escritor de Eclesiastes, não há nada novo debaixo do céu. Esses partidos já defendiam posturas que mais tarde seriam adotadas por ideologias modernas.
Os zelotes, por exemplo, eram um movimento político que procurava incitar o povo da Judeia a rebelar-se contra Roma e a expulsar os conquistadores através da luta armada. Foram eles os responsáveis pela Primeira Guerra Judaico-Romano entre 66 e 70 d.C., que culminou com a queda de Jerusalém. Eram considerados subversivos, insurgentes, dispostos a desafiar o status quo. Não vemos nenhuma crítica direta de Jesus aos zelotes, apesar de Seu discurso pacifista ser o inverso da proposta deles. Mesmo assim, um dos apóstolos de Jesus, “Simão, o Zelote”, era membro deste partido (Lc.6:15 e At.1:13). Eu diria que sua ideologia era o equivalente à extrema esquerda de nossos dias. Imagine, Jesus seguido por um discípulo chamado ‘carinhosamente’ de “Simão, o Comuna”.
Os zelotes eram considerados um partido clandestino e seus membros não tinham representação no sinédrio. O mesmo se dava com os essênios. Sob vários aspectos, os essênios eram extremamente progressistas, apesar de seu ascetismo e de viverem em comunidades separadas dos demais. Aboliam a propriedade privada (quer mais comunista que isso?). Defendiam que as mulheres tinham os mesmos direitos que os homens, podendo ser alçadas à posição de mestres. Acreditavam que a natureza, os seres humanos e todas as coisas vivas constituíam o verdadeiro Templo de Deus, e que Ele não habitava em santuários feitos por mãos de homens. Defendiam que as ofertas aceitas por Deus eram o partilhar da comida com os famintos, fossem homens ou animais. Assim como os crentes primitivos, os essênios tinham tudo em comum. Jesus não disse uma só palavra contra este movimento. Alguns até acreditam que Jesus tenha sido influenciado por suas ideias e que João Batista fora um dos seus membros mais proeminentes.
Deixando a ala esquerda, consideremos a ala direita dos tempos de Jesus. Àquela época, grupos reacionários surgiram dentro da sociedade judaica, tentando restabelecer o seu prestígio e poder, ou pelo menos o que eles consideravam como certo segundo a Lei e as tradições judaicas. Entre eles, os saduceus, considerados como "pertencentes ao partido da estirpe sacerdotal dominante". Diferiam dos fariseus por serem mais abertos às influências helênicas (gregas). Formavam um dos dois partidos aceitos no sinédrio, e como tal, representavam os interesses da classe dominante. Talvez por sua hostilidade a qualquer coisa considerada sobrenatural, não há registro nas Escrituras de saduceus seguidores de Cristo.
Já os fariseus compunham o partido mais popular dentre os que tinham assentos no sinédrio. O termo “fariseu” (prushim, heb.) significa “separado”. Todavia, sua separação não envolvia ascetismo, como os essênios, pois julgavam ser importante o ensino das Escrituras e das tradições dos pais à população. Eram muito religiosos e respeitados na comunidade como pessoas que pautavam seu comportamento na ética e na moral. Jesus, entretanto, denunciou sua hipocrisia e formalidade. Apesar dos constantes pegas pra capar que Jesus tinha com eles, um dos Seus mais fervorosos discípulos pertencia a este partido: ninguém menos que Paulo, o apóstolo dos gentios.
O último grupo que gostaria de citar são os publicanos. Eram os responsáveis pela coleta de impostos para os romanos. Arqui-inimigos dos fariseus, os publicanos eram detestados pelos judeus e muitas vezes envolviam-se em corrupção cobrando das pessoas além do devido. Os Evangelhos relatam que alguns deles se converteram ao cristianismo, entre os quais Mateus, também chamado de Levi, que deixou o ofício para se tornar apóstolo, e Zaqueu (Lucas 19:1-10) que ao ser visitado por Jesus, fez questão de restituir a todos o que havia defraudado. Apesar da má fama dos publicanos, Jesus utilizou-os para ilustrar algumas de Suas mais importantes parábolas, entre elas a Parábola do Fariseu e do Publicano e a Parábola da Ovelha Perdida.
Imagine se Jesus diluísse Sua mensagem em qualquer uma das ideologias vigentes em Seus dias. Como Ele poderia congregar sob o mesmo teto, zelotes, fariseus e publicanos? Uns separatistas, outros inclusivistas. Uns a favor da propriedade privada, outros contra. Uns trabalhando por Roma, outros promovendo rebelião contra o império.
Em momento algum Jesus comprometeu o conteúdo de Sua mensagem com as agendas político-ideológicas do Seu tempo. Ele a manteve intacta. O que Lhe importava era a agenda do Reino de Deus. Por conta disso, salvaguardou Sua isenção profética. Se Ele Se deixasse levar pela pressão ideológica daqueles que O cercavam, certamente teria marchado para o palácio de Herodes, destituindo-o e assumindo o seu trono no dia em que foi recebido em Jerusalém ao som de “hosanas ao que vem em nome do Senhor!”. Foi justamente por não atender à demanda popular, que as mesmas vozes que O louvavam, vinte e quatro horas depois pressionavam no pátio de Pilatos para que este O crucificasse.
Temos tanto o que aprender com o Mestre! Constitui-se uma afronta fazer da pregação do Evangelho panfletagem ideológica, ou usar passagens isoladas das Escrituras para justificar suas preferências. Jesus não é garoto-propaganda de regime algum. Ele não é americano, nem cubano. Não é petista, nem tucano. Não é conservador, nem progressista. Não é socialista, nem neoliberal. Sua mensagem é comprometida com o idealismo, não com a ideologia, seja de esquerda, de centro ou de direita. Seu compromisso é prioritariamente com os pobres, mesmo que alguém o acuse de comunista. Porém, o mesmo Jesus que atende ao clamor de Bartimeu, o mendigo cego às margens do caminho, também atende aos anseios de Zaqueu, o publicano corrupto. Não confundam prioridade com predileção. O Cristo dos Evangelhos jamais fez acepção de pessoas. Ele é capaz de cercar-se de prostitutas em plena luz do dia e ainda atender a um figurão da sociedade na calada da noite. Ele perdoa os romanos que O crucificam, mas também demonstra importar-se com o destino da alma do ladrão crucificado ao Seu lado.
Ele não despreza homem algum, senão o arrogante, o presunçoso, o que se acha dono da verdade, e que em seu nome despreza os que pensam diferentemente dele. Todos têm o direito de ter suas predileções ideológicas. Mas não se enganem. Não há ideologia perfeita. Portanto, não vale a pena matar ou morrer por elas. Nem é de bom tom demonizar a ideologia do outro. Neste campo não há mocinhos ou bandidos. Ambos têm telhado de vidro. Todos os regimes produziram heróis e mártires, mas também algozes e torturadores. Protegeram interesses legítimos, mas às vezes, ao custo de vidas inocentes. Todos são bestas furiosas que devoram seus adversários, e, por vezes, seus próprios cidadãos.
Atribui-se ao nazismo a morte de vinte milhões de pessoas, e ao comunismo, cem milhões. E quanto ao capitalismo? Quantas vítimas fez e está fazendo até hoje? De acordo com “O livro negro do Capitalismo”[1], pelo menos cem milhões de pessoas foram mortas por causa deste sistema. Os tópicos abordados por este livro vão desde o tráfico de escravos africanos até a era financeira da globalização. Na lista incompleta de vítimas do século XX, Gilles Perrault[2] inclui 58 milhões de mortos da Primeira e Segunda Guerras Mundiais (ambas por motivos capitalistas), além de mortes nas várias guerras coloniais, repressões, conflitos étnicos, sem contar as inúmeras vítimas de fome ou desnutrição. Basta uma viagem à África atual para verificar do que o capitalismo é capaz. São milhões e milhões de mortos e famintos, vítimas da ganância e da exploração dos países desenvolvidos. Quando se quer criticar o comunismo aponta-se Cuba, com o seu atraso tecnológico, esquecendo-se que o mesmo se deve ao embargo econômico promovido pela a maior potência capitalista do mundo.
Há santos e pecadores, anjos e demônios em ambas as trincheiras. Se a esquerda produziu Lenin, a direita produziu Hitler e Mussolini. Não há sistema capaz de produzir a verdadeira justiça preconizada pelo Evangelho. Todos estão fadados a fracassar. O mesmo Cetro de Cristo que derrubou o Muro de Berlim, também derrubará a ganância de Wall Street. Não ficará pedra sobre pedra.
É perda de tempo ficar contabilizando para ver que regime matou mais, ou promoveu mais a prosperidade do seu povo. Cada regime tem seu próprio altar e sacrifício. Se um sacrifica a liberdade no altar da justiça social, o outro sacrifica a justiça social no altar da liberdade. Sempre alguém sairá ganhando enquanto outros sairão perdendo. É inevitável. Então, não queiram canonizá-los, tampouco demonizá-los. São simplesmente humanos, tão falhos quanto os que os criaram. Sabendo disso, por que nos digladiarmos com nossos irmãos na fé em nome de uma ideologia qualquer?
Parafraseando Paulo, se por causa de uma ideologia se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa de uma ideologia aquele por quem Cristo morreu (Rm.14:15). Posso até considerar que um irmão esteja enganado quanto à sua ideologia, mas isso não me confere o direito de pôr em xeque a sua integridade e fé.

Hermes Fernandes
www.hermesfernandes.com/

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