quinta-feira, 10 de março de 2016

Carlo Carrenho - Minha história judaica

A intolerância religiosa só cresce no mundo. Dos atentados contra a equipe do jornal satírico francês Charlie Hebdo à pedrada na menina candomblecista no Rio de Janeiro, tudo parece caminhar para um ponto de ruptura. Hindus e cristãos se trucidam na Índia e judeus são mortos em Paris pelo simples fato de serem judeus. Em um processo cruel de ação e reação, multidões de refugiados de maioria islâmica fogem da violência em seus países e acorrem à Europa cristã, onde as ações humanitárias são criticadas pela extrema direita xenófoba e racista. Ideais de convivência pacífica entre credos distintos, como os semeados por Mahatma Gandhi, parecem utopia diante do choque entre as civilizações do Oriente e do Ocidente.
Quando olho tudo isso, sou grato a Deus pela educação que tive. Em casa, meus pais me ensinaram o amor e o respeito ao próximo como um dos princípios mais básicos do Cristianismo. Na primeira série, fui colocado em uma escola católica. Depois, ao longo do ensino fundamental, estudei em uma instituição de ensino judaica. Ali, embora cristão, tive aulas de hebraico, Velho Testamento, história e geografia de Israel. Aprendi toda a tradição israelita, decorei rezas e, com exceção da circuncisão e do Bar Mitzvá, cumpri todos os rituais judaicos para um garoto da minha idade.
Na prática, do ponto de vista religioso, eu ia domingo à igreja e passava a semana em um ambiente judaico. Eu era uma minoria dentro de uma minoria, e isso, realmente, faz você refletir e valorizar a tolerância e o respeito. Durante oito anos, nunca sofri preconceito por ser goy, termo com que os judeus chamam os gentios. Pelo contrário – eu era admirado por ter abraçado a educação judaica por opção. Também nunca senti minha devoção a Jesus Cristo ameaçada naquele ambiente. Na verdade, meus professores e colegas judeus sempre respeitaram minha fé. E, de fato, foi naquela escola, chamada Osvaldo Aranha – homenagem ao diplomata brasileiro que presidiu a sessão plenária da recém-criada Organização das Nações Unidas que, em 1947, culminou com a criação do moderno Estado de Israel –, que aprendi a importância da tolerância. Foi com aqueles colegas e professores que descendiam de um povo historicamente perseguido, mas que sabiam respeitar o próximo, que eu aprendi a amar e ser tolerante com outras religiões e com pessoas diferentes de mim.
A verdade é que saí daquele colégio com um amor e carinho enormes pelo Judaísmo. De tanto estudar o Holocausto, demorei anos para me sentir à vontade na Alemanha, país que visito todos os anos por razões profissionais. Demorei, mas consegui. Também foi importante ter uma colega palestina na escola laica onde completei o antigo colegial. Das várias conversas com ela durante os recreios, construí minha posição sobre a questão palestina, deixando certo sionismo radical de lado. Mas a verdade é que foi graças à tolerância que aprendi na escola judaica que consegui corrigir até mesmo os desvios de opinião causados pelas próprias peculiaridades da minha educação. No que se refere à tolerância, não me deram o peixe, mas me ensinaram a pescar.
Hoje, considero-me meio-goy. E uma das poucas coisas que não consigo tolerar é antissemitismo. Qualquer comentário preconceituoso contra o povo ou cultura judaicos é capaz de me tirar do sério ou de uma mesa de refeição. Afinal, meu amor por este povo está enraizado na minha mente e no meu coração – portanto, não dá para aceitar preconceito contra quem me ensinou a respeitar e ser tolerante.
Ninguém, na verdade, precisa estudar em uma escola judaica para aceitar os judeus como são, passar anos numa mesquita para conviver bem com muçulmanos ou frequentar seminários para aprender a respeitar os cristãos. No entanto, qualquer um de nós pode conhecer e se aproximar mais das pessoas que praticam outros credos, ou não professam crença nenhuma. Você já foi a uma missa? Já entrou em uma sinagoga? Já procurou entender as bases dos cultos afrobrasileiros? Provavelmente, se o fizer, começará a ver tais crenças, e aqueles que as professam, de modo diferente. Você já se aproximou daquele seu vizinho ou colega de trabalho que é gay? Vale a pena tentar. Além de ser uma grande oportunidade de ser sal da terra, como nos orientou nosso Mestre, você estará não apenas exercendo sua tolerância, mas criando relacionamentos de respeito mútuo – e é disso que o mundo de hoje mais precisa.
cristianismo hoje

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