sábado, 12 de dezembro de 2015

O Milad vive: viva o Milad!


Deixar o conforto da casa ou um emprego estável para viajar pela imensidão do Brasil, anunciando o Evangelho em tempo integral através da música, da dança, do teatro e, é claro, da pregação da Palavra. E viver disto. Há quem ache coisa de doido. Se for, alguém esqueceu de trancar a turma desta foto aí do lado no manicômio. E graças a Deus por isto: a loucura deste grupo proporcionou o surgimento de um dos ministérios mais ousados e criativos que Igreja brasileira conheceu, o Ministério Louvor e Adoração. Ao completar 15 anos de atividade, o Milad pode, com toda justiça, ser considerado um marco da arte evangélica brasileira, e os remanescentes continuam produzindo boa música sem abandonar a disposição missionária. 

“O que começa bom dificilmente desanda”, proclama o adágio. Para comprovar sua veracidade, basta olhar para as origens musicais e ministeriais do Milad. Seu idealizador, o pastor Nelson Pinto Jr., foi missionário, durante seis anos, de uma das equipes de Vencedores por Cristo (VPC), organização da qual brotaram alguns dos maiores talentos da música cristã, como Aristeu Pires Jr., Jorge Camargo e Sérgio Pimenta. Em 1985, Nelsão, como até hoje é conhecido, apresentou a vários músicos e cantores cristãos o projeto de formar um grupo que pudesse dedicar tempo integral a uma programação evangelística que não se limitasse às férias escolares ou feriados prolongados.

“O Senhor dirigiu os passos para a a implantação de um ministério formado por pessoas comprometidas com o Reino e profissionalmente preparadas para cumprir uma agenda cheia de convites”, afirma Nelsão, atualmente pastoreando, ao lado de Guilherme Kerr – outra cria de VPC –, uma igreja de brasileiros no sul da Flórida, nos Estados Unidos. “Quando surgiu, o Milad desafiava a uma visão maior do louvor do povo de Deus, utilizando diversas formas de comunicação artística da mensagem do Evangelho.”
geração 90
Seleção - A julgar pela formação inicial do grupo, em 1985, não seria exagero dizer que se tratava de uma seleção de 70 da música cristã nacional. Nomes como os do casal Wesley e Marlene Vasques, responsável por alguns dos mais belos solos do repertório evangélico, do talentoso baixista Toninho Zemunner e de João Alexandre, unanimidade como cantor e compositor, aceitaram o desafio e se engajaram na empreitada de viver o mesmo princípio bíblico dos levitas: serviço sacerdotal sustentado financeira e espiritualmente pelo povo de Deus.
Em setembro daquele mesmo ano, a primeira prova de fogo: no garimpo de Serra Pelada, no norte do país, o Milad realizou a cruzada “Jesus: mais precioso que o ouro”, na qual foram contabilizadas cerca de 5 mil decisões. “A imagem daquele palanque na pista do aeroporto do garimpo, com milhares de homens sendo tocados pelas músicas e pelo poder de Deus, nos impressionou muito”, relata Nelsão.

Outro que guarda até hoje esta recordação é João Alexandre. “No dia seguinte, um garimpeiro contou-me que conversara na noite anterior com Deus, mesmo sem crer. No meio de sua oração ao mesmo tempo sincera e incrédula, sentiu que o Senhor olhava para ele, dentro do barraco. Ele orou comigo, pediu perdão por seus pecados e entregou sua vida e seu coração para Jesus, em lágrimas.”

Em 1986, depois de voltar a Serra Pelada, o Milad firmou-se como ministério itinerante, mantido por ofertas e pela venda dos discos do conjunto Água Viva. Não por acaso, o zelo pela proclamação do Evangelho encontrava par no cuidado com a música. Além de contemplar a riqueza das culturas brasileira e latina – com samba, marcha-rancho e até reggae –, o repertório incluía canções de ótimos letristas crentes contemporâneos, enriquecidas por arranjos de qualidade profissional. “O conceito era o da identificação do povo brasileiro com sua cultura numa linguagem instrumental que envolvia, além da formação básica, instrumentos andinos, como a zampoña e o bumbo legüero. Também usamos percussão, até então pouco utilizada no meio da música cristã em geral”, conta João.

Bateria proibida - É claro que tanta inovação encontrava resistências. Wesley – que hoje dirige o ministério no Brasil, ao lado de Marlene – lembra de uma ocasião em que o grupo tinha apresentação marcada numa igreja episcopal do Nordeste, e o pastor local fez censura prévia ao repertório da programação. “Aconteceu também de chegarmos numa congregação e sermos proibidos de usar a bateria dentro do templo. Propomos colocá-la do lado de fora com uma caixa de retorno, mas os líderes da igreja abriram uma exceção e deixaram que o baterista entrasse.”

Na média, porém, a reação das igrejas onde o grupo apresentava-se era muito boa, o que empolgou o Milad a ampliar suas atividades. Em 1987, formou-se o segundo grupo Água Viva, formado por músicos e cantores do Nordeste e de São Paulo, entre os quais o vocalista Walvir e o tecladista Ney. Assim, era possível criar duas agendas paralelas para que o ministério atuasse em lugares diferentes em datas coincidentes. Para os integrantes, era comum passar mais tempo dentro do ônibus do que nas próprias casas.

Num grupo caracterizado pela sensibilidade artística, era previsível que a expressão corporal e o teatro fossem incorporados ao leque de alternativas de evangelização. Logo surgiram o Dança Terra, equipe especializada em coreografias que acompanhava o Água Viva, e o Criação, uma espécie de companhia teatral ligada ao ministério. O Milad também foi responsável pela organização de uma série de retiros chamada “Criatividade no Reino de Deus”, que disseminou em várias cidades do país o conceito de arte como forma de comunicação do Evangelho.

"Surpresas" - Talento sempre foi importante, mas não o único requisito necessário para um missionário do Ministério de Louvor e Adoração. Das dezenas de pessoas que integraram as equipes do Milad, quase todas tiveram que colocar freqüentemente em prática pelo menos duas outras virtudes: a renúncia e a paciência. Dificuldades como deficiência de infra-estrutura nas cidades visitadas, a distância de casa e o convívio de tantos temperamentos diferentes emprestavam ao grupo ares típicos de uma família itinerante. Aventura, saudade, tensão, saia justa, perdão, amizade – cada viagem tinha um pouco de tudo.
Família MILAD: Grupo 1 (Sul e Centro-Oeste) e Grupo 2 (Nordeste)
Nelsão conta que, enquanto foi novidade, a rotina de viagens constantes era encarada com muita disposição. “Depois de muita estrada e canseira, o grupo sentia o desgaste.” Nas cidades visitadas, não foram poucas as surpresas reservadas para os músicos, geralmente encaradas com bom humor. “Nos acostumamos, com o passar do tempo, a enfrentar qualquer tipo de circunstância”, diz João Alexandre. “Alguns irmãos de casas em que ficamos hospedados colocavam o lençol no chão para dormirmos, justificando que, como missionários, estávamos acostumados. Isto com quatro ou cinco camas vazias em casa.”

Passar semanas longe do lar, compartilhando tempo e espaço com pessoas tão diferentes – mesmo irmãos na fé –, era uma tarefa difícil. Divergências também faziam parte do dia-a-dia do ministério do Milad. Afinal, se Pedro e Paulo também tiveram suas discussões, não chega a ser surpreendente que um grupo tão grande de missionários também tenha suas rusgas. “O convívio era um desafio constante”, conta Nelsão. “Chegávamos a passar 30, 40 dias em viagem. Eram muitas pessoas, com gostos e temperamentos diferentes. Dá para imaginar quanta coisa tinha que ser acertada para nos sentirmos bem uns com os outros.”
Garimpo Serra Pelada
João reconhece que nem sempre as diferenças eram resolvidas com a rapidez que se esperava. “Havia momentos de convivência pacífica e tremendas discussões. De vez em quando, eram mais críticas que elogios. Outras vezes, perdão sincero. Acontecia de alguém ficar de cara fechada e só pedir perdão ao outro depois de vajar vários dias, o que influenciava as apresentações. Já pensou: ter que cantar sobre a verdade da alegria de sermos irmãos num clima desses? Mas eram coisas de seres humanos normais, com certeza.”

O que mais impressiona Wesley é o fato de nenhum ressentimento ter sobrevivido. Apesar da grande rotatividade – aproximadamente uma centena de pessoas já passaram pelas equipes do Milad –, todos são amigos até hoje. “Uma discussão podia surgir, por exemplo, na hora do ensaio. Fazíamos reuniões de oração regulares, e muitas divergências eram resolvidas no mesmo dia. Graças a Deus, nunca houve uma briga sem reconciliação”, relata.

Enxugamento - A diversidade de temperamentos foi provavelmente o menor dos problemas enfrentados pelo Milad. Bem mais complicado é manter um ministério tão grande e diversificado num país com uma realidade econômica e social como a nossa. Mesmo tendo participado de vários eventos no Brasil e no exterior, muitos de grande porte, como o Geração 90 e uma turnê aos Estados Unidos, o grupo tinha que caminhar na linha estreita traçada pelo orçamento, definido pelo volume de ofertas e das vendas de discos.
Wesley & Marlene
O segundo conjunto Água Viva, assim como o Criação e o Dança Terra, não resistiram por muito tempo. “O mais complicado era arranjar transporte e estadia para todas as pessoas”, explica Wesley. Patrocínio, a palavra mágica que faz brilhar os olhos dos idealistas, mas provoca calafrios nos empresários, era muito difícil de ser captado. A solução foi enxugar. 

Exatamente por isto, a agenda ficou bem mais restrita, o que chegou a dar a impressão de que o Milad havia sido extinto, o que jamais aconteceu. “Acho que a maioria das denominações busca ser abençoada com o talento e o trabalho dos músicos que se convertem, mas sem se mobilizar no sentido inverso, sustentando suas vidas e famílias”, opina João Alexandre.

Além disso, muitos que passaram pelo grupo tomaram rumos completamente diferentes com o passar dos anos. Em 1990, o pastor Nelson Pinto Jr. mudou-se Grupo de Dançacom a família para os Estados Unidos – mesmo ano em que a sede do Milad transferiu-se para Goiânia, onde permanece até hoje. O próprio João sentiu que seu chamado era outro. “Embora fosse missionário, senti que meu chamado era para ser um músico profissional, com todas as implicações e mudanças que esta decisão traria. Também me incomodava muito ter que viajar deixando para trás a família. Não eram poucas as vezes que os integrantes chegavam de viagem e encontravam a esposa entristecida ou o filho com o olhar distante”, diz João, que deixou o grupo seis meses depois de casar, quando Tirza, sua mulher, ficou grávida.

Experiência - Atualmente, o Ministério de Louvor e Adoração concentra suas atividades na edificação de igrejas nas áreas de evangelismo e adoração. Eventualmente, grupos de teatro e dança das igrejas visitadas também participam dos eventos organizados pelo ministério, hoje bem mais experiente no controle do orçamento. As ofertas e as vendas de CDs, distribuídos por Vencedores por Cristo, ainda são fundamentais na manutenção, mas a montagem de um estúdio também ajuda na receita.
Coreografia
Se mudou na estrutura, o Milad continua tão bom quanto antes na produção musical (veja quadro). O mais recente CD, Recomeçar, lançado no ano passado, traz o mesmo esmero artístico das séries evangelísticas e de adoração do grupo Água Viva. Wesley e Marlene, que já haviam gravado o ótimo Planeta de ouro, disco independente produzido apenas em vinil antes da formação do Água Viva e atualmente fora de catálogo, voltam a alternar solos, desta vez com mais tecnologia e o acompanhamento de uma banda de primeira.

A brasilidade de ritmos, melodias e letras, herdada da geração de músicos e compositores cristãos formados nas equipes de Vencedores por Cristo e grupos como o Semente, foi mantida – a moda de viola Toque de fé o atesta. Só que agora o cenário musical evangélico é outro. “O movimento gospel trouxe vários grupos estrangeiros que nada têm a ver com nossa cultura. Isto atrapalhou o processo de nacionalização da música cristã”, protesta Wesley.

Felizmente ainda há quem resista ao bate-estaca dos discos de adoração comunitária ao vivo e aprecie boa música, tanto no Brasil como no exterior. Por conta disto, o Milad mantém uma agenda bastante concorrida. Depois de passar o Carnaval apresentando-se em São Luís (MA), o grupo segue para Anápolis (GO) ainda este mês. Em agosto, os músicos partem para uma segunda turnê no Canadá. Alguém ainda tem dúvida de que o Milad continua vivo?

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