sexta-feira, 14 de abril de 2017

O cálice vazio


Por William Lane

Era domingo de ceia em certa igreja. Após o culto, vi diversas pessoas levando seus cálices descartáveis embora para casa. Não tive coragem de perguntar o que iam fazer com aquele cálice, mas fiquei imaginando. O que uma pessoa faria com um cálice vazio e descartável depois da ceia? Minha imaginação foi longe. Pensei: talvez colecionassem os cálices durante o ano como registro e testemunho da sua devoção e assiduidade na ceia. Mas, me coloquei no lugar de um daqueles irmãos e pensei, e se chegasse o final de ano e passando dificuldades, de repente eu me desse conta de que só tinha nove cálices acumulados no ano? Seria tentado pensar que meus problemas tinham alguma coisa a ver com a falta de participação na ceia? Acredito que não. Mas algumas pessoas podiam ser levadas a isso. Seja como for, não consegui imaginar outro uso para um cálice de ceia descartável usado a não ser o lixo! Reciclado!

A ceia do Senhor, ou Santa Ceia, como normalmente se chama, foi uma celebração tão singela da Páscoa de Jesus com seus discípulos, porém, na história da igreja sempre esteve carregada de discussões e compreensões teológicas diversas. Ainda que hoje não se debata tanto o significado da ceia, a sua prática, contudo, nem sempre é consistente com aquilo que se professa a respeito dela.

Apesar de tão fundamental para a fé cristã, a celebração da ceia não está isenta de dificuldades e problemas. Em essência a ceia é um sacramento, ou seja, um sinal visível de uma graça invisível. É um “rito”, é “sagrada”, e representa nossa união “mística” com Cristo. Porém, é justamente nisso que a prática frequentemente distorce o sentido. Vejo pelo menos quatro erros comuns na prática da ceia.

1.
O primeiro erro é a tendência de sacralizar a ceia, isto é, atribuir à ceia ou ao culto de ceia um caráter mais sagrado ou santificado do que é. De fato, como declara a Confissão de Fé de Westminster, na ceia o pão e o vinho são consagrados para o uso sagrado, porém, não devem ser objetos de veneração nem serem preservados para outro uso. Mas isso não significa que o culto de ceia seja mais especial do que os outros e que ‘faltar’ num culto de ceia seja mais grave do que faltar em outras atividades e cultos da igreja. Com frequência, nas liturgias chamamos a ceia de “Santa Ceia”, embora o termo bíblico mais apropriado seja ceia do Senhor (1Co 11.20). Quando atribuímos à ceia um caráter mais sagrado do que é valorizamos mais os elementos e o cerimonial do que o que eles representam – a graça invisível de Cristo. E quando damos mais ênfase ao seu caráter sagrado do que ao que significa, sacralizamos a ceia.

2.
Temos também a tendência de ritualizar a ceia, isto é, torná-la um ritual mecânico a fim de atender às normas litúrgicas e preceitos bíblicos e apaziguar a consciência das pessoas. O rito é um conjunto de palavras, gestos e atos que buscam repetir uma experiência de forma ordenada. Sempre que se deseja repetir uma experiência ou fenômeno religioso, cria-se um rito. Sua finalidade, então, é reviver aquela experiência ou sentido inicial. Contudo, quando o rito se torna mais importante do que aquilo que pretende vivenciar vira ritualismo. Isso acontece quando as pessoas acham que não podem passar o mês sem participar da ceia e quando acham que participar do rito é mais significativo do que ouvir a palavra, ser fiel, amoroso e compassivo com as pessoas.

3.
O terceiro erro é o de mistificar a ceia. Novamente, a ceia realmente representa nossa união mística com o corpo de Cristo. Porém, muitas vezes atribui-se um poder místico ao pão e vinho ou à celebração em si no sentido de colocar na mente das pessoas a ideia de que aquele pedaço de pão e pouco do vinho (ou suco de uva), quando recebido com fé, terá o poder de curar as aflições das pessoas, resolver os problemas pessoais e abençoar os crentes de um modo especial. A celebração da ceia vira uma cerimônia de libertação dos males físicos, materiais, emocionais e espirituais das pessoas. Mas não há nada disso ensinado nas Escrituras. Sua mística está no fato de que por um gesto simples relembramos o sacrifício de Cristo e recebemos os benefícios de sua presença espiritual.

4.
Por outro lado, para evitar esses erros, alguns cometem também o erro de banalizar a ceia, torná-la sem importância, esvaziá-la de seu sentido próprio. É verdade que a ceia como a conhecemos e praticamos é muito diferente do que se vê na Bíblia. Tanto a Páscoa quanto a ceia cristã nas Escrituras era uma refeição partilhada em comunidade. O partir do pão era um ato durante a refeição para a lembrança das palavras e da obra de Cristo. Era simples, porém, significativa. Esvaziá-la de seu significado é abrir caminho para o ritualismo.

Como, então, manter o equilíbrio? A ceia é um memorial do sacrifício de Jesus (Zuínglio). Mas por meio da ceia Cristo opera sua presença espiritual na vida do crente (Calvino). Além disso, como diz Paulo, todas as vezes que comemos o pão e bebemos o cálice, anunciamos a morte do Senhor até que ele venha (1Co 11.26). Participar da ceia implica em relembrar o sacrifício, proclamar sua presença e anunciar ou aguardar a sua volta, aquele dia em que ele beberá do vinho no reino do Pai com os seus (Mt 26.29). Isso acontece no momento da partilhar do pão e do beber do cálice, e em nosso coração carregamos os benefícios da comunhão e a lembrança que frutificarão em gestos de graça, compaixão e misericórdia para com nós mesmos e com os outros. Não precisamos de um cálice vazio para lembrar disso.

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