quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Ricardo Gondim - Meu último trecho

Chegou o tempo de repetir o que parece obviedade: a vida é curta. Envelheci como roupa usada. O sol dissipou a maioria dos meus anos como neblina. Já não consigo esconder o desgaste do tempo. Mostro rugas. Não disfarço no olhar as cicatrizes da alma.
Noto uma grossa camada de poeira cobrindo pessoas, eventos, instantes. Entristeço. Os anos não me deixam rever o semblante de quem já se foi. A saudade tortura. Não sei como reviver momentos especiais. O tempo soterrou a vida.
Posso também me valer de uma metáfora comum: a vida é uma estrada. Desde muito, meu caminhar foi íngreme. Na adolescência, me vi obrigado a enfrentar as ladeiras de grandes montanhas. Me senti constrangido tantas vezes só por ser filho de preso político. Em época de muito preconceito, eu precisava admitir publicamente que papai era “subversivo”. Nessas trilhas, me vi obrigado a encarar dificuldades maiores do que a minha resiliência. Ainda menino, carreguei fardos. Compreendi: não existem estradas fáceis. E o aceno da porta larga não passa de alucinação. Hoje convivo com uma certeza: se o meu itinerário nunca foi fácil, o de ninguém também não é.
Ainda revivo o desconforto da mamãe, grávida e obrigada a voltar a morar na casa dos pais. Ela sofreu demais. O cárcere político nos empobreceu da noite para o dia. Não tenho como avaliar sua humilhação.
Nasci canhoto. Em tempos passados, os canhotos sofriam discriminação. A professorinha, que me ensinou o be-a-bá, tentou me forçar a escrever com a direita. Não conseguiu. As feridas ficaram, todavia. Sempre que refaço o trajeto, olho de baixo para cima. Eu era “desastrado”.  Por isso, jamais me vi capaz de ultrapassar o sarrafo dos campeões.
Cedo aprendi que jamais teria competência para triunfar sozinho. Muitas vezes só encarei desafios na carona da coragem alheia. Eu me esforçava só para acompanhar a valentia das pessoas que me rodeavam. Nunca me distanciei da imaturidade. Embora procurasse evitar, cresci consciente das minhas inadequações. A idade não me ajudou a superá-las todas. Permaneço incipiente.
Cresci tímido, introspectivo. Enfrento melhor grandes auditórios que uma conversa cara-a-cara. Sempre dependi da iniciativa dos outros para começar algum diálogo.
Alguém detectou que os homens passam pela vida sem desistir de reencontrar o colo materno. Dizem que nossa existência não passa de uma viagem ao passado. Buscamos sem cessar a mulher que nos saciou, abrigou e protegeu. Admito, anelo sem parar o regaço da Glícia, minha mãe.
Sigo assim no último trecho da estrada. Não nego a “noite escura” da minha alma. Encaro meus desertos. Atrelo o destino a uma cruz. Guardo no peito um clamor parecido com o do Nazareno: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? “
Caso a jornada se alongue por mais alguns anos, sei que vou enfrentar novos perigos. Tenho certeza, porém, do amor de meus queridos. Creio que através deles, perceberei a voz de Deus. E ela soará como a da mulher que um dia me fez adormecer. Em meu pavor infantil, mamãe me acalmava só em dizer: “Estou aqui”.
Soli Deo Gloria

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