quinta-feira, 24 de novembro de 2016

As dez músicas mais criativas – espiritualidade e imaginação na MPB


Eugene Peterson, ao falar sobre a linguagem poética presente nas Escrituras – mais de 50% de seu conteúdo é poesia –, apresenta uma definição simples do que seja poesia. Uma linguagem. A linguagem da imaginação.

Todo discurso poético, portanto, é um discurso eminentemente imaginativo. Escolhi as canções abaixo do nosso rico cancioneiro popular, a partir de sua verve poética e de um aceno de diálogo entre realidade e espiritualidade, entre cotidiano e transcendência.

SEDUZIR. A canção de Djavan, inspirada (intencionalmente ou não) na célebre frase de Agostinho: “O meu coração não encontra descanso/Até que descanse em ti” é, portanto, uma canção djavaniana/agostiniana. Seus dois últimos versos dizem: “Vou andar, vou voar pra ver o mundo/Nem que eu bebesse o mar, encheria o que tenho de fundo.”

CANÇÕES E MOMENTOS – Da dupla Milton Nascimento e Fernando Brant, a canção discorre sobre a profissão que é vocação. “Eu só sei que há momento que se casa com canção/De fazer tal casamento vive a minha profissão.”

CHORO BANDIDO – Clássico da dupla Chico Buarque, Edu Lobo e que, na minha opinião, inclui um dos versos mais belos de toda MPB: “Mesmo que você fuja de mim por labirintos e alçapões/Saiba que os poetas como os cegos podem ver na escuridão.” Nada mais poético/profético.

A CIGARRA. Gravada por vários intérpretes, brasileiros e latino-americanos (foi escrita por uma compositora argentina, María Elena Walsh), afirma, entre outras pérolas: “Tantas vezes te mataram, tantas ressuscitarás/ Tantas noites passarás desesperando/ Mas na hora do naufrágio, na hora da escuridão/Alguém te resgatará para ir cantando/ Cantando ao sol como uma cigarra/ Depois de um ano em baixo da terra/Igual a um sobrevivente regressando da guerra.”

ENQUANTO HOUVER SOL. Clássico da banda de rock Titãs, anuncia de maneira singela: “Quando não houver saída/Quando não houver mais solução/Ainda há de haver saída/Nenhuma ideia vale uma vida/Quando não houver desejo/ Quando não restar nem mesmo dor/ Ainda há de haver desejo/ em cada um de nós, aonde Deus colocou.”

NA RIBEIRA DESSE RIO. Canção de Dori Caymmi, sobre poema de Pessoa, discorre sobre o mistério entre o homem e o rio, lembrando a metáfora sobre o vento, que nos é tão cara. “Vou na ribeira do rio/Que está aqui ou ali/E do seu curso me fio/Porque se o vi ou não vi/Ele passa e eu confio.”

QUANTA. Uma das mais emblemáticas canções do repertório de Gilberto Gil, propõe uma fusão entre física quântica e as Escrituras no coro da canção: “Arte, descoberta, invenção/Teoria em grego quer dizer/O ser em contemplação/Cântico dos cânticos/ Quântico dos quânticos”.

MENINA AMANHÃ DE MANHÃ – Uma deliciosa antítese apocalíptica de Tom Zé, a canção afirma categoricamente: “Menina amanhã de manhã quando a gente acordar/Quero te dizer que a felicidade vai desabar sobre os homens, vai/desabar sobre os homens, vai/desabar sobre os homens”, claramente emprestando a linguagem de morte e de destruição que, no texto sagrado, desabam sobre a humanidade e também enfatizando que a felicidade será um bem inexorável, inevitável, quase que imposto à vida, do qual ninguém pode (nem gostaria de) escapar. 

PODER DA CRIAÇÃO. Da dupla João Nogueira e Paulo César Pinheiro, a canção discorre sobre o processo criativo e lembra a angústia do profeta: “Ela é uma luz que chega de repente/Com a rapidez de uma estrela cadente/E acende a mente e o coração/É, faz pensar/Que existe uma força maior que nos guia/Que está no ar/Vem no meio da noite ou no claro do dia/Chega a nos angustiar/E o poeta se deixa levar por essa magia/E um verso vem vindo e vem vindo uma melodia/E o povo começa a cantar”.

I STILL HAVEN’T FOUND WHAT I’M LOOKING FOR. Um dos maiores sucessos da banda irlandesa U2, I still haven’t found é um autêntico hino pós-moderno: “Eu creio na vinda do reino/onde todas as coisas se tingirão de uma só.../Mas ainda não encontrei o que estou procurando”.
[A inclusão de Bono e cia nessa lista é apenas uma “licença poética”.]



Mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor.

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