segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ESPECIAL REFORMA PROTESTANTE O que a Reforma ainda tem para nos ensinar?

por Jénerson Alves, jornalista

Na grande mídia, o dia 31 de outubro é marcado pelas celebrações do Hallowen, o chamado ‘Dia das Bruxas’. No meio cristão evangélico, a data também é mote para celebração. Todavia, a razão é bem diferente: foi no dia 31 de outubro de 1517 que o monge Martinho Lutero afixou noventa e cinco proposituras nos umbrais de uma capela localizada na universidade de Wittenberg, Alemanha. A data, portanto, é símbolo da Reforma Protestante, movimento de transformação da Igreja cujas repercussões são perceptíveis até os dias de hoje.
                      
Foi por causa desse movimento que, em 12 de janeiro de 2016, a então presidenta do Brasil, Dilma Rousseff (PT), sancionou a Lei nº 13.246, instituindo o dia 31 de outubro como Dia da Proclamação do Evangelho, no qual “dar-se-á ampla divulgação à proclamação do Evangelho, sem qualquer discriminação de credo dentre igrejas cristãs”.

Nesse sentido, entendemos que vale observar os fatores da Reforma, as consequências, e expormos um olhar sobre a Teologia por trás do movimento.

01-  Os fatores da Reforma

A Reforma Protestante aconteceu durante o período máximo do Renascimento. O desenvolvimento cultural e econômico que começara no século XV viabilizou a divulgação dos conhecimentos religiosos da época. A Bíblia de Gutenberg, por exemplo, já havia sido impressa em 1450. Destarte, as pessoas começavam a observar a vida do clero e concluir que ela não se adequava aos parâmetros dos ensinamentos de Jesus Cristo.

Esses pensamentos apareciam inclusive nas obras de arte. Exemplo é o quadro A nave dos loucos, pintado por H. Bosch em 1470. Na tela, vê-se um padre e uma freira tentando morder um pão, em meio a diversas referências aos pecados capitais.

Além disso, a venda de indulgências tornou-se uma das práticas mais comuns daqueles tempos. Autorizada pelo papa Leão X, um dos mais corruptos e avarentos da história, a comercialização de remissão de perdão foi uma estratégia encontrada pela igreja de Roma para levantar recursos com o objetivo de concluir a Basílica de São Pedro.

Entre os comerciantes de indulgências, o dominicano João Tetzeldestacou-se devido à sua falta de escrúpulos no tocante à promoção dos produtos que vendia. Ele chegava a afirmar, junto aos seus asseclas, que a aquisição de indulgências tornaria o pecador “mais limpo do que Adão antes de cair”, ou mesmo dizia que “a cruz do vendedor de indulgência tinha tanto poder quanto a cruz de Cristo”.

Humanistas como o holandês Erasmo de Roterdan reconheciam que a Igreja deveria passar por uma reforma. Grupos humanistas em várias partes da Europa procuravam as raízes do Cristianismo por meio da leitura bíblica. Na França, por exemplo, um grupo traduziu o Novo Testamento para o francês, em 1521. Mesmo assim, o papado se mantinha estático diante das demandas da população em consolidar uma espiritualidade mais alinhada aos ensinamentos neotestamentários.

Como o monge Martinho Lutero, na Alemanha, havia feito diversas pesquisas sobre a Bíblia, em 1517 afixou as 95 teses na Catedral de Wittenberg.Nesses trabalho, Lutero defendeu que a salvação é advinda apenas pela fé e não pelas boas obras. Em princípio, Roma não deu muita atenção ao fato. Porém, isso gerou uma grande repercussão, de modo que em 1520 Lutero chegou a ser excomungado pelo papa. Condenado também pelo Imperador Carlos V, o monge ficou refugiado no castelo de Wartburg, onde traduziu a Bíblia para o alemão e ainda escreveu livretos para os cristãos. Apoios assim foram fundamentais para que o luteranismo se consolidasse.

O termo ‘protestante’ passou a ser usado em 1529, quando tentou-se impor o Catolicismo aos príncipes luteranos, os quais protestaram contra a medida. Apenas em 1555 esse imbróglio foi resolvido, ao ficar decidido que cada príncipe poderia adotar a religião que quisesse.

Em 1530, houve a Confissão de Ausburgo, na qual foram apresentados os fundamentos do luteranismo. De acordo com a nova fé, a salvação é adquirida pela fé e não mais pelas obras; o culto religioso apresenta liturgia simplificada (salmos e leitura da Bíblia); o clero não é mais compreendido como “intermediário” entre o povo e Deus e permanecem apenas dois dos sete sacramentos: batismo e comunhão.

02-  Consequências da Reforma

Quatrocentos e noventa e nove anos depois do episódio na Catedral de Wittenberg, ainda é possível encontrar resquícios da Reforma Protestante por toda a sociedade ocidental. Vejamos algumas dessas repercussões, na Educação, na Economia e na Política.

Um dos benefícios que a Reforma trouxe aos países que a adotaram foi a escola infantil obrigatória. Basta lembrar que em 1530, na cidade de Nuremberg, Lutero ministrou o sermão intitulado “Prédica sobre o dever de mandar crianças à escola”. Em um trecho do discurso, o alemão chegou a declarar que “a ausência das crianças à escola é pensamento do diabo”, argumentando que não é desejo do inimigo a existência de gente instruída, “mas apenas gente que pensa em comer e fazer dinheiro”. Ele defendia que o povo não poderia ter uma base de ensino estritamente religioso, mas também uma instrução de conhecimento político e econômico, com o objetivo de formar uma sociedade bem estruturada. Assim, a escola deveria formar um indivíduo capaz de gerir suas finanças.

Ademais, Lutero também promoveu uma ampliação na consciência acerca da atividade profissional. Ele cunhou, em alemão, a palavra beruf. O professor Walter Altmann– autor do livro ‘Lutero e Liberdade’ (Editora Ática) – explana: “Beruf é ofício, profissão; mas, como sua raiz rufen indica, é simultaneamente vocação. Ou seja, Lutero conferiu sentido vocacional à atividade profissional. Mais uma vez, entendeu a profissão não como um mal necessário, nem divisou seu sentido preponderante na busca do auto-sustento – também presente, como é óbvio, mas sobretudo como possibilidade de serviço aos outros. Não há dúvida de que surgiu a partir daí uma nova ética e inclusive uma inusitada disciplina do trabalho”.

Do ponto de vista político, percebe-se na obra de Lutero o princípio federativo. A professora Maria Aparecida Macedo Pascal observa o seguinte: “Decerto que a ideia federalista desenvolveu-se mais tarde, com Kant, na busca do equilíbrio, com Saint Simon e sua utopia europeia e, notadamente, com Proudhon. Mas certo, também, é que as proposições de Lutero já enfatizavam a exigência de unificar os povos, sob um só governo, ideia vetorial do modelo federativo que emerge, hoje, como um verdadeiro mecanismo de promover e desenvolver diversidades, um instrumento a acomodar conflitos emergentes, assegurando a coexistência de um ordenamento jurídico independente e de outro coletivo, um figurino estatal cujo funcionamento é comandado por sharedrules e self rules”. Em outras palavras, se há, atualmente, uma preocupação estatal pelo acolhimento das minorias em um só governo, acomodando diversas exigências em uma mesma sociedade, essa ideação é detectável na obra de Lutero – formada por 67 volumes escritos em alemão e 33 em latim.


03-  A Teologia por trás da Reforma

Todas as transformações promovidas pela Reforma Protestante tiveram sua base na descoberta de uma verdade. Essa descoberta transformou a vida de Martinho Lutero e, consequentemente, abalou a Europa até o restante do mundo, chegando aos dias atuais.

Pois bem. Lutero nasceu em 1483, em Eisleben, Alemanha. Seu pai queria que ele fosse advogado, mas ele optou pelo sacerdócio. Essa decisão adveio de uma preocupação que lhe perseguiu durante anos: a salvação. Sua infância foi marcada por castigos e excessiva austeridade, principalmente por parte do seu genitor. Devido a isso, Lutero vivenciou períodos intensos de angústia profunda e de depressão.

Foi em julho de 1505 que ele ingressou no mosteiro de Erfurt, de ordem agostiniana. Um dos motivos para essa escolha foi estar em meio a um temporal, ocorrido duas semanas antes, durante o qual ele prometeu a Santa Ana que se tornaria padre, caso escapasse daquela situação.

No entanto, mesmo consagrado sacerdote, já formado doutor em Teologia, ele confessava que sentia um profundo vazio existencial. Certa vez, ao partilhar esse sentimento de angústia com seu confessor, ele foi instruído a conhecer os místicos, que diziam ser bastante amar a Deus. “Amar a Deus? Às vezes, eu O odeio!”, chegou a exclamar Lutero. Afinal de contas, se Deus era como o seu pai e os seus mestres, que chegavam a tirar-lhe o sangue, como poderia amá-Lo?

Provavelmente, foi apenas por volta de 1515, já como sacerdote em Wittenberg, que Lutero encontrou a solução para essa inquietação. Ele começou a ministrar palestras sobre o livro de Romanos. A leitura do versículo 17 do primeiro capítulo daquele livro o deixou atordoado: “Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé”. (“Iustitiaenim Dei in eorevelaturexfide in fidem, sicutscriptum est: Iustus autem exfidevivet”, em latim).

Era, exatamente, a “justiça de Deus” que ele não tolerava. O próprio Lutero chegou a contar que odiava a frase desse versículo, mas nela meditava de dia e de noite, até chegar à revelação completa. Ele, então, compreendeu que a “justiça” de Deus não é o castigo, mas o pagamento que Ele já fez pelos nossos pecados, sendo assim um dom gratuito. Ao despertar para essa verdade, Lutero comentou: “Senti que havia nascido de novo e que as portas do paraíso me haviam sido abertas. Todas as Escrituras tiveram novo sentido. A partir de então, a frase ‘a justiça de Deus’ não me encheu mais de ódio, mas se tornou indizivelmente doce em virtude de um grande amor”.

É a partir dessa revelação que vem o entendimento de que o ser humano, na condição de espírito recriado pelo processo do novo nascimento, torna-se justiça de Deus. Isso quer dizer que encontra-se em uma posição ideal diante de Deus e sua vida não se pauta mais na exterioridade, mas sim pela fé (do grego, pistis, ou seja, firme convicção fundamentada no ouvir).

Mais do que as repercussões sociais, políticas ou filosóficas advindas da Reforma, a maior lição que se pode tirar dela é a doutrina da salvação pela fé. Explicando sobre o significado de Romanos 1:17, o teólogo Frank Staggpontua:

“La ideasería que Dios aporta lajusticia a aquel que larecibe por fe y que éste es el que vivirá. Esto no reducelaidea de lasalvación por gracia. Síve a lagracia de Dios como algo creativo, que no sólootorga al pecador um status inmerecido (el ser tratado como justo) sino que tambiénlehace justo”.

Viver por fé, todavia, não se limita a confiar no paraíso vindouro. Consiste em modificar os padrões e os conceitos a partir do agora. É ter a Palavra de Deus como estilo de vida e fazer de sua própria uma revelação do Evangelho, vivendo “de fé em fé”. Sem dúvida, o maior desafio para os cristãos evangélicos da atualidade é manter a fé viva, não como um compêndio intelectual, mas como verdadeira forma de viver. Para isso, convém lembrar que pecado é aquilo que não provém de fé (Rm 4:17) e que a fé opera pelo amor (Gál. 5:6).



Referências Bibliográficas:

ARRUDA, José Jobson de Andrade. História moderna e contemporânea. São Paulo: Ática, 1980, 12. ed.

GONZÁLES, Justo L. História ilustrada do cristianismo: a era dos reformadores até a era inconclusa. São Paulo: Vida Nova, 2011.

Lutero e a Reforma: 480 anos depois das 95 teses, uma avaliação dos seus aspectos teológicos, filosóficos, políticos, sociais e econômicos. – São Paulo: Editora Mackenzie, 2000; 79 páginas – (Série Colóquios, v.1)

STAGG, Frank. Teologia delNuevo Testamento. USA, Casa Bautista de Publicaciones, 1976.


PEREIRA, Lilian Criscielly. A Reforma Protestante e a origem da escola pública. Disponível em Acessado em 30.10.2016


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