sexta-feira, 19 de agosto de 2016

“Caruaru não é mais uma cidade pequena. Os políticos é que são provincianos”, dispara Eduardo Guerra

O candidato Eduardo Guerra (PSOL) iniciou a série de entrevistas do Programa Ivo Sutter (Nova FM 105.09), em parceira com o blog PresentiaOnLine. Ele respondeu às perguntas elaboradas pela produção do programa e enfatizou a Educação e o Desenvolvimento Econômico como norte de suas ideias. Confira a transcrição dos principais trechos:

IVO SUTTER – Caruaru faz parte do Polo de Confecções do Agreste, com uma economia voltada para a produção e comercialização de materiais têxteis. Na sua opinião, a permanência da Feira da Sulanca no Centro pode comprometer a pujança econômica da cidade?
EDUARDO GUERRA – Não só compromete a pujança econômica. Nosso plano de governo fala de Educação Integral em Tempo Integral com desenvolvimento econômico sustentável e solidário. Sem dúvida, a Feira da Sulanca – ao acaparar a verdadeira Feira de Caruaru, feita pelo povo – mostra a falta de visão dos governantes, que fizeram crescer uma feira a 500 metros adiante sem saber que o crescimento exponencial de Caruaru dar-se-ia dessa maneira nos últimos anos, forçando uma nova localização da Feira têxtil. Por outro lado, a área têxtil tem destacado o pequeno, o micro e o médio empreendedor de Caruaru, na sua dinâmica. Aliás, a dinâmica criativa é uma marca do caruaruense, em diversas áreas, que não foram compreendidas pelo poder público para capitalizar o poder empreendedor, causando falta de mobilidade, educação de qualidade e saúde pública de qualidade.


IVO SUTTER – A cidade possui diversos loteamentos irregulares, deixando a população carente de serviços básicos. O senhor acredita que a cidade precisa de uma reforma urbana que discipline as condições de moradia, sobretudo para a população mais carente?

EDUARDO GUERRA – Ivo, eu não acredito que todos os candidatos que venham aqui falar que farão mobilidade possam fazer isso. Eles são os causadores da falta de mobilidade. Há 56 anos governam esta cidade, quando o primeiro cacique das tribos que governam esta cidade se elegeu. A partir daí, o que se viu foi uma grande especulação imobiliária. Caruaru tem 17 quilômetros quadrados na cidade, onde moram cerca de 330 mil habitantes. O município, que é mais ou menos do tamanho de Nova Iorque, tem 920 quilômetros quadrados, dos quais 906 é zona rural, onde moram apenas 28 (mil habitantes). Eram 36 (mil habitantes), mas foi reduzido atualmente. Então, ao redor da cidade está a especulação imobiliária. Os donos das terras são os ‘Marqueses de Calabar’. Há a especulação imobiliária de políticos e empresários importantes, que compram as terras. A cidade, com 17 quilômetros quadrados, não tem para onde expandir. Por isso, falta saneamento básico, os bairros não têm autonomia, desrespeitam as regras de calçadas e ocupação do solo, vereadores doam tijolos com fins especificamente eleitorais. Não pensam na beleza, no crescimento, na saúde, na qualidade de vida. Morre mais gente por contaminação ambiental do ar e da água do que por causa do revólver, que mata tanto aqui, que já é um dos índices maiores de Pernambuco, que possui um dos maiores índices do Brasil. É provado pelas Nações Unidas que o ar e a água matam muito mais do que as armas. É necessária uma reforma urbana, sim. E muito bem pensada. É preciso retomar as terras tomadas pela especulação imobiliária. Nós vamos apresentar leis de regularização fundiária, que falta em mais de 60% da cidade. Vamos fazer a transformação. Por mobilidade, nem os ônibus de governador, vice-governador ou senador vão passar pelo Centro da cidade. É isso que nós vamos fazer se o povo nos der a honra de governar esta cidade.



IVO SUTTER – A Segurança Pública é de atribuição do Governo do Estado. Porém, Caruaru possui a Guarda Municipal, que conta com um efetivo de 39 profissionais. Segundo o IBGE, o município possui 347.088 habitantes. A proporção é de 8.899 habitantes para um guarda municipal. Esse efetivo é suficiente? O que o senhor pretende fazer para minimizar a insegurança do cidadão?

EDUARDO GUERRA – Primeiro, eu tenho dito que essa segurança é por causa de um Governo Estadual irresponsável e por falta de um comando do Governo Federal. O governador se mostrou um frouxo, porque começam com esse programa de segurança nas cidades, mas a insegurança aumentou. A insegurança tem três vertentes. Uma delas é a exclusão social; a outra é a corrupção e a outra é a falta de cultura, de educação, de disciplina, de hierarquia dentro de uma sociedade. Nós temos visto que isso está ocorrendo de uma forma avassaladora.
Dizer que guardas municipais vão acabar ou minimizar a violência é um absurdo, é de quem não tem preparo. Guarda municipal é para cuidar dos monumentos municipais, das escolas, do patrimônio público. Eles podem ser bem treinados, dentro de uma política de inteligência, em parceria com a Polícia Federal, com a Polícia Rodoviária Federal, com a Polícia Militar, com a Polícia Civil. A Destra trabalhando em conjunto. As organizações, as associações de bairro deixando de ser xeleléus de prefeito para prestar um serviço e fazer o levantamento da violência em cada bairro. Para isso, vamos criar o NEV – Núcleo de Estudo da Violência. Pastorais, clubes de serviços, sindicatos, todos vão participar estudando essa violência. Essa violência não será resolvida na bala e nem armando a Guarda Municipal. Vamos capacitar a Guarda Municipal para fazer o seu trabalho. Nosso combate à violência dar-se-á por uma formação educacional cidadã, conhecedora dos direitos e deveres do cidadão. Todo mundo gosta de falar dos direitos, poucas pessoas falam dos deveres, que têm de ser cumpridos, com desenvolvimento econômico e sustentável.


IVO SUTTER – Nos últimos anos, Caruaru desenvolveu-se no ponto de vista educacional, sobretudo por causa das instituições de ensino superior. No entanto, fortalecer a Educação Básica continua sendo um desafio, desde o déficit na quantidade de creches às dificuldades estruturais no Ensino Fundamental. Há algum projeto que valorize a formação das crianças caruaruenses?

EDUARDO GUERRA – Enquanto eu acho que a Guarda Municipal não deve ser medida pelo índice da população, mas territorial, neste caso específico das proteções ao patrimônio público, acho que as creches, sim, têm de estar disseminadas nos bairros. Ninguém deveria pegar um ônibus para deixar o filho em uma creche. Agora, a transformação da Educação que queremos fazer é valorizando os professores como engenheiros de alma e engenheiros de gente. Não vão haver mais de 5 mil contratados no serviço público. Vamos fazer concursos. Os professores concursados estarão capacitados para desenvolver a Educação que o povo requer. A Educação formal deve ser complementada fora da sala de aula, com Educação para o Meio Ambiente, para a Agricultura, como estão fazendo os países mais desenvolvidos do mundo – a Finlândia, por exemplo –, além de formar quadros que tenham consciência do dever do trabalho.

IVO SUTTER – Não se pode falar de Educação sem mencionar as condições de trabalho dos professores. O seu governo procurará estabelecer um diálogo aberto com a categoria, favorecendo quesitos como salário, carreira, condições e efetivação profissional?
EDUARDO GUERRA – Primeiro, o poder precisa entender que é serviço. A mordomia inerente ao poder é outra coisa, mas o poder é serviço. Um prefeito não pode estar encastelado em um bairro nobre, não pode viajar para a Suíça pensando que lá vai descansar dos problemas de nossa cidade. Os professores devem ser tratados com Prioridade 01. Deve ser dada aos professores a mesma prioridade que é dada ao desenvolvimento econômico. As pessoas pensam em emprego, mas a pessoa tem que ter sua consciência cidadã, seus deveres de cultura, de ética, de arte, de interpretar o destino. A educação perpassa a percepção das relações ocultas entre os fenômenos. Se a pessoa não tiver consciência do que se passa ao seu redor, ficará à mercê de uma Educação que a torna subalterna. O grito de liberdade só acontece com consciências livres.
Vamos acabar com esse Plano de Cargos e Carreiras que está aí e não foi dialogado com as bases. Temos que dialogar com os professores, que são engenheiros de gente. Professor tem que ter tempo para planejar sua aula.


IVO SUTTER – Salta aos olhos a crescente quantidade de veículos que circulam pelas ruas da cidade, o que muitas vezes dificulta o bom andamento do trânsito. Vias estreitas, calçadas irregulares, ausência de acessibilidade provocam estorvos para pedestres e condutores. De que forma o trânsito pode ser melhor ajustado no município?

EDUARDO GUERRA – Primeiro, essa cidade tem que ser expandida. Tem que acabar com esses donos das terras circunvizinhas. Eu não entendo porque uma pessoa, para determinado serviço, tenha que sair do Salgado para o Centro da cidade. Não entendo como acontece isso. Por que os ônibus têm de passar pelo Centro da cidade e não podem fazer a circunvalação? É tudo concêntrico! Tem outra coisa: as ruas por onde passam os ônibus não têm o mesmo tratamento das ruas por onde passam os automóveis. Ivo, eu só ando de carro porque não há um transporte público de qualidade. Se houvesse um transporte público de qualidade, eu andaria de ônibus o dia todo.
A velocidade média de uma cidade como Caruaru é 40km/h. Ninguém andará nesta cidade a mais de 40km/h. Nenhum ônibus intermunicipal entrará no Centro desta cidade. Nós vamos tentar desafogar isso aí com transportes alternativos. O automóvel tem que respeitar a moto, mas a moto tem que respeitar a bicicleta, a bicicleta tem que respeitar o patim e o patim respeitar o pedestre.

IVO SUTTER – Conhecida mundialmente devido à sua diversidade cultural, boa parte dos artistas da cidade reclamam da falta de estrutura para desenvolverem seus trabalhos. Em Caruaru, há eventos demais e base cultural ‘de menos’? É necessário tornar a cultura um setor economicamente ativo?
EDUARDO GUERRA – Não só economicamente ativa.A cultura é a alma de uma civilização. Caruaru surgiu pela cultura. A Feira surgiu porque as pessoas iam para o Sertão e voltavam de lá comercializando e paravam aqui enquanto intercambiavam. Não foi o Governo quem fez a Feira, foi o povo. Não foi o Governo quem fez a cultura popular, a cultura é popular por ser feita pelo povo. Isso eles não entendem. Estão acabando com a cultura popular. Estão acabando com o maior centro de artes figurativas das Américas. Usam o nome de Vitalino, mas não respeitam seu talento. Não é seguir a mesma coisa ‘per omniasaeculasaeculorum’. Os tempos mudam e a expressão artística muda. Eles trazem um artista que trabalha no barro para as pessoas ficarem olhando, como um gorila que é colocado em uma jaula para as pessoas ficarem olhando. O povo de Caruaru é germinativo, empreendedor e criativo. Infelizmente, essa casta que governa a cidade castra a criatividade do povo, acabando com festas populares. Caruaru tem zabumba, teatro, forró pé-de-serra, mamulengo, perna-de-pau. Caruaru é a terra da criação e da cultura popular, assim transformando-se em terra de Educação também. Eles querem castrar isso, pois pensam que Educação é colocar Wesley para cantar para 100 mil pessoas em um local que não tem saneamento básico. É assim que eles tratam essa cidade. Eles não sabem pensar. Caruaru não é mais uma cidade pequena. Os políticos é que são provincianos.

IVO SUTTER – Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo SUS é o acesso do paciente aos equipamentos de saúde. De que maneira o poder municipal pode se inserir neste contexto, favorecendo os pacientes no que concerne aos cuidados médicos?
EDUARDO GUERRA – Bem, vou aproveitar e complementar a resposta da pergunta anterior. O Parque 18 de Maio será um local de festas e feiras populares. As pessoas vão se reunir para brincar, mostrar arte, fazer exposições. Isso é saúde também, física, mental e espiritual. O SUS está muito limitado ao projeto nacional, que querem acabar. O PMDB do senhor Antônio Geraldo, o PSDB da senhora Raquel Lyra, o PSB do senhor Jorge Gomes estão trabalhando para desestruturar o SUS. Estão cortando as verbas do SUS, as verbas da Educação. E eles vêm nos dizer que vão realizar os projetos do SUS! Nós vamos lutar, junto ao Governo Federal, com nossos valorosos deputados do PSOL para que as verbas do SUS não sejam cortadas. E vamos fazer uma Saúde Preventiva sem precedentes na história de Caruaru, cuidando do meio ambiente, do saneamento básico, do esporte, do lazer, da cultura popular, do emprego e da renda. Vamos priorizar a Saúde Preventiva, que isso, sim, está dentro das possibilidades do Município e vamos lutar, com a garra do PSOL, para preservar as vantagens conseguidas pelo SUS para o atendimento da ação curativa da população.

IVO SUTTER – Caruaru tem áreas ambientais a serem preservadas, desde Serra dos Cavalos ao Rio Ipojuca. Como conciliar o desenvolvimento do município com o cuidado ambiental?
EDUARDO GUERRA –Caruaru tem a sorte de ter dois grandes rios nas suas entranhas: o Capibaribe e o Ipojuca, que eles transformaram em um filezinho de água poluída. Foram permitindo a construção de prédio tal, de escola tal, os comerciantes foram invadindo o leito do rio. Mataram o Rio Ipojuca, construíram prédios nos riachos, desarborizaram a cidade. Nós achamos que Caruaru tem que se inserir no debate de revitalização do Rio Ipojuca com os municípios circunvizinhos, sabendo que não é uma responsabilidade específica do Município, mas o Município tem de debater e se inserir nisso.
Para a Serra dos Cavalos, temos um projeto educacional. Todos os municípios circunvizinhos poderão ir lá estudar fungos, árvores, borboletas, acampar como escoteiros, fazendo uma educação científica desenvolvendo um cidadão com conceitos ambientais e éticos.

PERGUNTAS DO PROFESSOR

URBANO SILVA –Eu gostaria de lhe fazer uma pergunta, candidato, que envolve três aspectos: empreendedores, emprego e renda. Quando vemos esses fatores, chegamos ao Distrito Industrial, perto de onde há um aeroporto que não funciona. Qual seu projeto para a expansão do Distrito Industrial e reativação do aeroporto?
EDUARDO GUERRA – Em primeiro lugar, tenho de entender que em Caruaru a indústria que deve ser privilegiada é a indústria seca, que não consome muita água. Já temos um problema de escassez de água. Em 2004, disseram que Jucazinho viria, como veio, mas a qualidade de água não é boa e não resolveu o problema. Já veio Camevô, mas não resolveu o problema. Agora, já dizem que virá um novo projeto, de Pirangi, que dizem que estará pronto no próximo ano. E a água não chega nem o povo é educado para a economia da água. Mesmo Caruaru sendo uma cidade de serviço, o Distrito Industrial é muito importante. A indústria tem que vir cuidando do meio ambiente. Mas também tem que ter internet de qualidade e qualificação sistêmica dos métodos operacionais. Selecionando as indústrias que virão para Caruaru, teremos que ampliar essas terras e voltamos para o problema da democratização das terras. Tudo isso com transporte de qualidade para os trabalhadores.

URBANO SILVA –Segundo dados do IBGE, Caruaru tem uma população de 42 mil habitantes em sua área rural. Queria saber seu plano de governo para a zona rural...
EDUARDO GUERRA – Há dados mais atualizados, que mostram uma redução para 36 mil habitantes neste ano de 2016. Na zona rural, existiam várias alternativas de subsolo, como poços artesianos, que hoje estão desarticulados. O homem do campo está perdendo a característica e deverá perder mais, porém é necessário manter um cinturão verde ao longo da cidade. Temos que estimular os hortifrutigranjeiros, mas também o turismo ambiental. Através de cultura e educação rural, vamos criar educação de Ensino Médio em cada zona rural de Caruaru.

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