quarta-feira, 18 de maio de 2016

Discernindo e exercendo a vocação com humildade


Certamente você já sofreu a pressão de demandas que julgamos as mais importantes do mundo, aquelas que podem multiplicar-se como mosquitos da dengue em dias de chuva e calor. O que fazer, a que se dedicar, o que atender, seja em relação às tarefas mais simples do dia a dia ou aos grandes projetos da vida? Entender a nossa vocação, ou, se preferir, o nosso chamado, pode ser a chave para lidar com as expectativas “urgentes” e “prioritárias” que aparecem em nossa vida.

Chamado (uso “chamado” e “vocação” aqui como sinônimos) é algo que pode ser entendido de diferentes maneiras. Primeiro, para os que creem, significa uma convocação do Senhor para viver para ele, não só para depois da morte, mas para hoje, para sermos agentes da reconciliação de todas as coisas por meio de Cristo. Segundo, tem a ver com aquilo que fazemos no cotidiano. Qualquer tarefa -- seja o mais prosaico cuidado com a casa, os diversos afazeres ou trabalhos burocráticos -- pode e deve ser vista não como um desvio de nossa vocação, mas como uma oportunidade de realizá-la com gratidão, dedicando-a e ofertando-a ao Senhor.

Terceiro, há um sentido de vocação que diz respeito à realização, particular e única de cada pessoa, enfocando a sua vida, dons, talentos e habilidades de maneira a crescer, desenvolver-se e sentir que está cumprindo algo relacionado a sua identidade, com um propósito e sentido para aquilo que o Senhor a chama a fazer no mundo.

Paulo, no capítulo 12 de Romanos, nos dá pistas importantes para que tenhamos paz quanto a quem somos e o que queremos fazer com a nossa vida. Vemos ali que um enfoque importante da nossa aproximação daquilo que Deus quer que façamos passa por um discernimento e perspectiva adequados de quem somos (Rm 12.3): uma percepção correta diante de Deus e do outro e uma correta auto percepção. Qualquer distorção disso pode afetar negativamente o modo como vivemos nossa vida e vocação.

Essa percepção adequada, que passa por um “conceito equilibrado”, por “pensar com humildade” a respeito de nós mesmos, é uma chave importante para viver melhor a nossa vida à luz do chamado de Deus. Há uma ação do Senhor em nossa vida que nos transforma, pela misericórdia divina. Podemos, assim, obedecer ao propósito de Deus para nós e humildemente sermos fiéis a ele, porque primeiro nos encontramos com o Senhor e depois somos transformados por ele.

Essa “espiritualidade da humildade” também passa pela descoberta do outro. Sabemos que entre as tendências ou tentações da natureza humana estão a comparação e a competição com o outro. Paulo entende que isso é um problema, quando recomenda que os romanos não se achem melhores nem tenham um conceito de si mais elevado do que se deve ter. Mesmo Jesus teve de lidar com essas preocupações entre seus discípulos mais próximos (Mt 18.1-4)  sobre quem seria o maior. Na verdade, o tema principal possivelmente seria a discussão sobre quem era o mais inseguro entre eles, incertos de seu valor.

A resposta de Jesus foi que devemos aprender a valorizar o outro e colocá-lo adiante de nós mesmos. Jesus o fez de uma maneira surpreendente. Ele não colocou a si mesmo como exemplo de humildade. Ele ensinou sobre essa virtude no reino apresentando uma criança, algo que os discípulos não esperavam. No reino, essa é a perspectiva correta de corpo, de comunidade, com pessoas e dons diferentes que se complementam; e assim a tarefa é realizada. Nessa perspectiva de humildade temos maiores chances de nos encontrarmos.

Um honesto reconhecimento de nós mesmos com uma correta avaliação de nossa identidade e capacidade nos ajuda no cumprimento íntegro de nosso chamado. Para “encontrar a si mesmo” é bom estar atento a três elementos: “nossos dons e habilidades, as necessidades ao nosso redor e os nossos interesses”. Cada um desses, independente dos demais, pode não ser suficiente e até mesmo nos levar a uma situação enganosa, desviando-nos de nossa vocação. A consideração dos três em conjunto não é em si uma garantia de paz, mas já nos ajuda a ir por bons caminhos para buscarmos sentido e realização.

Primeiro, devemos admitir que temos dons e capacidades. Humildade passa por reconhecê-los, senão estaríamos falando de outra coisa: a falsa modéstia. O desafio passa por assumir essas habilidades, desejar crescer nelas, ser bons mordomos das capacidades “naturais” ou “espirituais” que recebemos. Sim, entre aspas, porque essa seria uma falsa dicotomia. Se cremos que somos criados por Deus, inclusive criados com a capacidade de aprender, todas as qualidades e dons que temos ou desenvolvemos podem e devem, em última análise, ser entendidas como “dadas”, possibilitadas pelo Senhor. É ele quem nos convida a crescer nelas.

Segundo, como sugere Gordon Smith no excelente “Courage and Calling”, os nossos dons estão relacionados com as diferentes maneiras como vemos as necessidades em um mundo quebrado. A lista de dons nas Escrituras (como em Romanos 12) poderia ser uma expressão de como é preciso haver pessoas com olhares diferentes a respeito das necessidades dos outros, exercendo assim dons que se complementam e edificam toda a comunidade.

Terceiro, também há aquilo que nos traz prazer e alegria, ou pelo menos deveria trazer. Por isso é importante considerar os nossos interesses. A última capacidade listada por Paulo em Romanos 12, a de “mostrar misericórdia”, é chamada a ser realizada com alegria, uma conclusão tão simples, mas tão forte que serve como um desenlace perfeito para todos os dons e capacidades anteriores: abraçar com alegria a nossa vocação.

Creio tanto nisso a ponto de entender que é algo que não pode ser subestimado. Há situações na vida em que somos quase obrigados a fazer coisas das quais não gostamos ou nas quais não temos prazer. Mas, quando falamos de vocação para toda a vida, de sonhos, projetos e realização, sinceramente animo você a desconfiar fortemente, com convicção, daquilo a que você se dedica sem o mínimo prazer ou alegria.

Quer ser missionário na África, mas não aprecia o clima ou a cultura de lá? Quer servir entre os mais pobres, mas não consegue ficar sem a comida da mamãe ou da vovó? Quer ser médico, mas desmaia ao ver sangue? Você acredita que sua vocação é ser um monge celibatário em um claustro isolado do mundo, mas na verdade ama interagir com as pessoas, desfrutando crescer em intimidade com outros e, se possível, com uma companhia para a vida toda? Então... suspeite desse “chamado”.

Dons e habilidades, necessidades, interesses, isoladamente talvez sejam insuficientes para definir uma vocação com tranquilidade e convicção. Com a ajuda do Senhor, do outro e de uma correta percepção de si mesmo, os três elementos conjugados podem lançar alguma luz e nos ajudar a definir o rumo de nossas vidas. Precisamos da “espiritualidade da humildade”, a fim de evitar a presunção e a negligência e, com alegria, sermos agentes de mudança aonde o Senhor nos levar.

• Ricardo W. M. Borges é casado com Ruth e pai de Ana Júlia e Carolina. É pastor na Igreja Metodista Livre da Saúde, em São Paulo, SP, secretário regional associado para a América Latina da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE-IFES).

Foto: James Gilbert.

ultimato

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Receba no seu e-mail informações de Presentia

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...