sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Agressividade, passividade ou assertividade?


A assertividade é um conceito que vem da Bíblia, mas que, como tantos outros, foi encampado pelo meio empresarial como fazendo parte da ética das organizações. Ela é aquela atitude nos relacionamentos humanos cotidianos, em que a pessoa sabe “ficar na dela”, numa situação constrangedora, de agressão ou passividade. Ou seja, a pessoa assertiva, ou proativa como muitos a chamam, mas que é um pouco mais do que isso, sabe dosar o espaço de cada um, não deixando invadir o seu e nem invadindo o espaço dos outros. Ela respeita os outros na mesma medida em que respeita a si mesmo. Por isso, tem um grau de paciência, depois do qual ela toma atitudes.

Por exemplo, quando alguém é despedido de forma agressiva, ela não deve baixar a cabeça passivamente, “engolindo o sapo”, mas também não deve partir para a agressão, batendo no entrevistador, mas manter a calma e deixar claro ao outro que a agressividade não leva a nada. 

Para dar um exemplo disso, escolhi dois casos de agressividade; um, de passividade, e outro de assertividade em “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas”.

O primeiro é o de Pedro, quando se remete a Edmundo, como sendo um “animal”, por destratar a sua irmã mais nova. Acontece que, como na física, uma ação nunca fica desprovida de reação. Toda atitude posterior de Edmundo, principalmente em relação à Lúcia, que era quem Pedro pretendia “defender”, quando cometeu a agressão ao irmão mais novo, poderia se explicar daí, embora não fosse nenhuma justificativa. É claro que todos nós que temos irmãos já passamos por situações semelhantes: um irmão, bem intencionado, agredindo outro para defender um terceiro e gerando mais agressividade, explícita ou velada. 

Mas o pior resultado da agressividade é o que veio a seguir: o comportamento movido pelo sentimento de amargura e vingança. Ele pode ser observado muito bem no solilóquio (conversa consigo mesmo) que Edmundo tem, depois da sua fuga da casa dos castores, cena que infelizmente ficou de fora do filme. Ele traça planos de como vai governar o mundo, e principalmente, os irmãos. O episódio lembra muito o diálogo entre Gollum ou Sméagol (que são a mesma pessoa equizofrência), sobre a possibilidade de matar Frodo. Ambos os personagens revelam a lógica autodestrutiva do orgulho, considerado o pecado capital do cristianismo, que vem intimamente relacionado ao do egoísmo e da amargura. Então, de certa forma, a agressividade é apenas a expressão externa chegada ao ápice de processos internos fervorosos, ligados a vários vícios.

O exemplo de passividade está em Susana quando as crianças ingressam em Nárnia. Ela acha tudo muito perigoso, mas resolve aderir, mesmo a contragosto e vencida pela maioria, ao plano de Lúcia de salvação do fauno, não tanto por coragem e vontade e sentimento de solidariedade, mas seguindo o seu instinto gregário. Quem sabe essa também seja a razão porque ela só descobre Nárnia num momento de fuga de um perigo, no caso da brincadeira de esconde-esconde e ocultação no guarda-roupas mágico. 

Não é por acaso também que ela é a primeira a deixar de regressar a Nárnia nos episódios seguintes das Crônicas, pois está sempre preocupada em mostrar-se adulta e sedutora, preocupações essas que a fazem provavelmente esquecer-se de Nárnia, e preferir viajar com os pais para os Estados Unidos, a acompanhar os irmãos e acabar numa eletrizante aventura. Interessante notar o medo típico dela, quando as crianças ouvem falar pela primeira vez em Aslam, que até lhe dá um sentimento de prazer no início, mas que a faz desconfiar quando descobre que ele é um leão. Ou sua suposição (para escândalo dos castores) de que a feiticeira poderia ter alguma humanidade. Em todos os casos, apesar de sua falta de firmeza, ela acaba conhecida em Nárnia como sendo Susana, a “Gentil”.

Claro que o exemplo de assertividade que podemos dar é o de Lúcia, que conquista o título de “Destemida” em Nárnia. Ela não apenas é a primeira a descobrir aquele mundo mágico, mas também mantém o seu caráter ileso, mesmo cometendo erros e demonstrando falhas, não apenas nesse episódio, mas nos demais em que ela aparece, sendo que a sua última aparição se dá na “Última Batalha”, já no que Lewis chama de “Nárnia verdadeira”. 

Lúcia não usa de subterfúgios para esconder seus sentimentos e vontades diante dos outros. Ela segue a sua intuição, mesmo em situações de perigo. Tudo isso, sem atitudes ousadas ou agressivas. A ela é dada a visão exclusiva de Aslam em “Príncipe Caspian” e o acesso ao livro mágico em “A Viagem do Peregrino da Alvorada”. E visão tem a ver com a virtude máxima (além da fé, esperança e amor), a prudência ou sabedoria. Assim, ela se parece com os profetas e mártires da história do Cristianismo, que sofreram e morreram não por algum subterfúgio, mas pela convicção de que há mais entre os céus e a terra do que a nossa vã filosofia é capaz de abarcar. 

Desafio os leitores a uma releitura de “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupas” ou do filme, a partir dessa perspectiva do comportamento assertivo, que nada mais é do que o do sábio e, em última instância, do que ama, conforme descrito em 1 João 4.

É mestre e doutora em educação (USP) e doutora em estudos da tradução (UFSC). É autora de O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética e tradutora de Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Costuma se identificar como missionária no mundo acadêmico. É criadora e editora do site www.cslewis.com.br

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