quarta-feira, 7 de outubro de 2015

“A igreja continua morna e cega, precisando de cura por todos os lados”

Sérgio Pavarini é um blogueiro provocador por natureza. O jornalista e publicitário esteve em Recife no dia 22 de setembro, para participar de um bate-papo realizado pela ONG Visão Mundial na Livraria Cultura. O repórter Jénerson Alves, colaborador de Presentia, entrevistou com exclusividade um dos maiores especialistas em redes sociais do país. Na ocasião, Pavarini falou sobre engajamento político, a postura da igreja na internet e os rumos da Educação, entre outros assuntos. Vale a pena conferir as provocações apimentadas do editor do Pavablog (site com mais de 200 mil seguidores).

Você veio a Recife participar de um evento da ONG Visão Mundial. Conte um pouco sobre isso...
É um evento ligado ao engajamento e envolvimento de jovens via internet. Ou seja, como os jovens podem se engajar através da internet. Na verdade, eu sempre venho a Recife para aprender. As experiências estão todas aqui. 180 mil horas de trabalho voluntário é algo para a gente morrer de inveja e orar para que isso se espalhe pelo Brasil inteiro.

Você acha que a Igreja evangélica está abrindo mais os olhos para a questão do engajamento social?
Não. A igreja continua morna e cega, precisando de cura por todos os lados. Jesus precisa passar cuspe nos olhos da Igreja. Nossa sensibilidade está anestesiada. Nós nos ocupamos tanto com nossas coisas que não nos comovemos quando vemos alguém passando fome, precisando de alguma coisa. É como se fosse uma televisão em nossa frente. A gente só falta querer pegar um controle remoto e desligar os problemas das outras pessoas.

Essa ausência de sensibilidade tem sido um ‘privilégio’ das igrejas que pregam a Teologia da Prosperidade ou também existe nas igrejas tradicionais?
Só me permita trocar o nome. Não podemos falar em ‘Teologia da Prosperidade’, mas em ‘Heresia da Prosperidade’. Convida-se os pastores que pregam esse tipo de mensagem a ir ao interior de Alagoas, por exemplo, e ver como essa teologia funciona lá. No entanto, é geral. É um clima de decepção no país. Estamos anestesiados, precisando ser sacudidos. É aí que entra o lance dos blogs, das redes sociais. Não acredito que meu papel seja tanto de sensibilizar, mas de chacoalhar, mesmo, as pessoas.

Você mencionou essa questão da internet. Como você avalia a inserção da igreja nas redes sociais? A igreja quer criar guetos?
Olha, muito interessante. No mês passado, me chamaram para um debate na TV, onde debati com o criador do Faceglória. Lá no dia eu não falei, mas acho que isso vai deixar de existir. Muita gente já tentou fazer isso, mas não é possível colocar muros na internet. Na essência, a internet é um ambiente de liberdade. A gente está – usando o dialeto bíblico – coando mosquitos e engolindo mosquitos de todos os tipos.

Conta um pouco como começou sua história com o Pavablog...
Toda a história começa antes. Durante a faculdade de Jornalismo, eu fiz uma revista para uma igreja que eu frequentava, na época, e ficava próxima à Avenida Paulista. Essa revista era distribuída nas bancas da Paulista encartada nos jornais. Na época, nós tentamos nos filiar à Associação dos Editores Cristãos e a nossa filiação foi recusada porque disseram que nossa revista não apresentava ‘linguagem evangélica’. O interessante é que, alguns anos depois, eu fui diretor desta Associação. Essa revista me deu uma certa projeção. Daí, fui convidado a editar um livro na Editora Vida. E isso foi se multiplicando. Nós tivemos uma química muito legal: um publicitário com o cabelo no meio das costas e um pastor assembleiano. Nós sempre pensamos muito diferente, mas com muito respeito. Passei dez anos na Editora Vida e conheci o Brasil todo, pastores famosos e anônimos. Foi nesse tempo onde aprendi a respeitar tudo isso que nós temos.
O Pavablog surgiu como uma extensão do Vidanet. Na verdade, nasceu como Blog do Vidanet. Quando a Editora Vida foi vendida, conversei com meu chefe e ele disse que toda essa criação foi minha, orientando-me a permanecer. Portanto, num surto egóico, acabei colocando meu nome em tudo – Pavarini/Pavablog, enfim. Isso já faz dez anos de blog. Eu brinco que vida de blog é mais ou menos como idade de cachorro, portanto deve representar uns 60 anos (risos).
A partir daí, incorporamos o lance das redes sociais, onde a interação é ainda mais rápida. Hoje, nossa empresa trabalha nessa questão de produção de conteúdo.
Pavarini e Jénerson

Você também gerencia o blog ‘Livros e Pessoas’, que é uma forma de estimular a leitura. Como surgiu essa ideia?
Sempre fui apaixonado por livros. Sou filho de professores e esse foi o maior legado que eles me deram, o prazer da leitura. Não me lembro de meu pai ter me levado em uma loja de brinquedos e ele me dizer: “escolha um brinquedo”. No entanto, toda semana ele me levava para uma banca de revistas e dizia: “escolha o que quiser”. Então, eu tive coleções de histórias em quadrinhos. Não havia nem livraria na cidade, mas eu cresci no meio dos livros. Eu creio que um dos meus chamados é ser um ‘evangelista das letras’, alguém que estimule as pessoas a ler. Quem lê tem uma posição profissional melhor, tem um salário melhor, é mais engajado, discute, é melhor em qualquer área. Atualmente, mesmo tendo uma agenda meio doida, continuo lendo bastante.

Você coloca ‘redomas’ nas suas leituras? Há certos tipos de livros que você não lê?
Nada disso. Hoje pela manhã, eu terminei de ler um livro é sobre uma adolescente que tem dúvida de sua sexualidade. O livro é recomendado pelo John Green, por exemplo. Terminei de lê-lo e comecei a ler o livro do Laurentino Gomes com o Osmar Ludovico sobre a peregrinação a Jerusalém. O livro é a coisa mais linda. Na mesma manhã, li dois livros completamente diferentes e me diverti com ambos. Ler é uma coisa, pegar como preceito para a vida é outro. É preciso saber diferenciar.

Os livros mais comerciais, às vezes, são chamados de ‘subliteratura’ em relação aos clássicos. Como você avalia isso?
Olha, leitura é legal. Se começar com bula de remédio, está valendo. Há livros que a gente classifica como ‘livros introdutórios’. Ninguém começa a vida comendo feijoada. Primeiro, vem o mingauzinho e depois os alimentos mais sólidos. Não tenho preconceito. Não consigo chamar os livros para adolescentes de ‘subliteratura’. Há um percentual gigante de livros assim que são muito melhores do que alguns livros cristãos, por exemplo.

Você é filho de professores. Como avalia a questão da desvalorização da docência no Brasil, tendo em vista que até a procura por licenciaturas tem diminuído?
Há duas semanas, eu estava na Bienal do Livro no Rio de Janeiro. Lá, conversei com um garoto que havia ido da Bahia ao Rio de ônibus só para conhecer alguns autores. Eu perguntei quantos livros ele havia lido este ano. Ele respondeu: “Li poucos, uns cem”. Eu fiquei impressionado e disse que isso iria ajudá-lo muito profissionalmente. Ele respondeu que já estava ajudando, pois ele estava na faculdade. Não me lembro agora exatamente qual era o curso que ele fazia, se era Letras ou Pedagogia, mas era uma licenciatura. Então, eu brinquei, dizendo que professor não é valorizado. Ele me respondeu: “Não quero ser como os meus amigos, que fazem o diagnóstico e só ficam na crítica. Eu quero contribuir com a mudança e vou fazer minha parte. Ser professor é uma das formas mais legais que a gente tem de interferir em um país”.
Cara! Eu achei isso superlindo. A leitura produz esse tipo de consciência. A internet nos dá muitas distrações – e eu sou um dos responsáveis, preciso de uma cruz bem grande. Por isso, caminho com os livros, com o ativismo social. Caso contrário, eu seria o palhaço que faz todo mundo dar risada e se divertir, mas sem sobrar nada depois. A leitura é um instrumento de transformação.
Além disso, eu faço perfis específicos para professores. Um deles é ‘Orgulho de ensinar’, para valorizar o professor. Diariamente, troco mensagens. Faço campanhas de livros didáticos. A profissão de professor tem sofrido um dos maiores desgastes nas últimas décadas. Alguém precisa fazer alguma coisa para melhorar.

E com relação ao tipo de Educação desenvolvido no Brasil. Você acha que há um utilitarismo, principalmente no Ensino Médio, quando há uma espécie de fixação pela aprovação no vestibular?
Acredito na solução regionalizada, do envolvimento dos pais, da participação dos alunos. Em um estado como Pernambuco, é um pecado não estudar muito a cultura local. O Brasil é de uma riqueza tão grande que tudo o que se tenta unificar fica só no slogan, feito ‘Pátria Educadora’. Acredito muito na participação. Se a escola, com os pais, com o Conselho, decidir que tem de mudar tudo, que mude-se tudo! Rubem Alves dizia que “há escolas que são gaiolas”. Temos gaiolas demais e liberdade de menos.

E você acha que a escola-gaiola é incapaz de atender as demandas dos novos tempos?
Por isso que há escolas que têm de proibir o uso do celular. O aluno passa a aula todinha no smartphone porque nada que está sendo trabalhado na sala o interessa. Da mesma forma, não o interessa muito o que acontece dentro da igreja. O problema não é a tecnologia. O problema é o que está sendo oferecido para as pessoas. O adolescente está em casa assistindo a uma série com vários efeitos especiais e um roteiro inteligente e o manda para a igreja, querendo que ele fique 40 minutos quieto, ouvindo uma pessoa que às vezes nem estudou direito para falar.
Eu disse em uma palestra na Colômbia que a tecnologia é nossa amiga. Então, o professor deve usar o smartphone de forma pedagógica, criar um grupo no whatsapp para discutir um trabalho, etc.

Fala um pouco do teu livro ‘A Minha alma está a[r]mada (Ed. Saraiva)”.
A ideia foi provocar, trazendo lições espirituais através do rock, e não de versículos bíblicos. Todos os capítulos têm uma linha de rock. Minha intenção foi mostrar que o diferencial está nos nossos olhos. Poderiam ser lições espirituais que aprendi com Luiz Gonzaga, ou mesmo com o funk – é provável que eu consiga, se observar um monte de coisa. É possível. O rock sempre foi tido como algo do diabo, mas descobri que Deus também pode ser encontrado nele, seja de Raul Seixas a NX Zero.

Tem algum outro livro na agulha?
Estou com um ou dois projetos na cabeça, mas ainda não parei para fazer.

Vamos falar sobre Política...
Eu atendo a políticos também. É claro que há cláusula de confidencialidade, mesmo dos mais famosos. Sou fascinado por política, também para desconstruir os mitos bobos que todo político é ladrão. Essas afirmações são rasas e preguiçosas. Conheço deputados, prefeitos, políticos de caráter, que dentro do espectro de ação deles conseguem fazer um trabalho legal.
No caso das igrejas, acho que um bom serviço seria abrir os debates, para não ficar na superfície. É muito interessante que as redes sociais encurtaram essas distâncias. As pessoas vão à página do deputado ou do prefeito e apresentam suas queixas.

Para encerrar, que mensagem você transmite para os leitores de Presentia?
Morra de ler. Questione. E, sobretudo, ame. Ame. E ame. Jesus disse que nós seríamos conhecidos pelo amor. De alguma forma, nós erramos, pois passamos a ser conhecidos pelo ódio e não pelo amor. Precisamos resgatar a essência do Cristianismo, de um Deus que se autodenomina Amor.

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