domingo, 13 de setembro de 2015

Cristãos de Hong Kong denunciam perseguição do governo chinês


Por anos, o reverendo Philip Woo, líder de uma pequena igreja protestante, testou os limites das restritivas leis chinesas sobre religião. De Hong Kong, ele proferia sermões ferozes sobre direitos humanos, conduzia seminários sobre problemas sociais para estudantes vindos da China continental e ordenava pastores em território chinês sem permissão do Partido Comunista.

Por isso, Woo ficou atônito ao ser convocado pela Administração Estatal de Assuntos Religiosos a uma audiência na China continental. Eles dispararam uma lista de leis que Woo havia desrespeitado e ordenaram que ele parasse com as violações.

A vibrante comunidade cristã de Hong Kong há muito tempo atrai a atenção de visitantes da China continental. Mas com os esforços redobrados do governo do presidente Xi Jinping para restringir a influência do cristianismo no país, as atividades de algumas igrejas de Hong Kong passaram a sofrer escrutínio oficial. "Achávamos que a China estava se tornando mais receptiva à religião", disse Woo, 61. "Agora tememos que eles estejam se tornando mais rígidos".

Nas últimas décadas, o Partido Comunista, que é oficialmente ateu, em geral se tornou mais tolerante em relação ao exercício da fé religiosa pessoal. O cristianismo é a religião de mais rápido crescimento na China, com pelo menos 67 milhões de seguidores, boa parte dos quais oram em igrejas independentes ou extraoficiais, muitas vezes com a aquiescência do governo.

No entanto, Xi vem reprimindo indivíduos e grupos que tenham vínculos com estrangeiros. O partido associa o cristianismo a valores ocidentais subversivos, e ao longo de 2014 as autoridades chinesas demoliram igrejas e fecharam escolas cristãs.

Os líderes chineses historicamente demonstraram mais leniência para com Hong Kong, que era um polo para a atuação de missionários cristãos durante o domínio britânico. Agora, o território abriga 850 mil cristãos.

Porém, durante os protestos pela democracia no ano passado, o partido sinalizou sua ansiedade quanto à influência dos cristãos locais que estão levando seus ensinamentos à China continental.

Em março, cerca de cem pessoas da China continental foram proibidas de ir a um encontro de mais de 2.000 cristãos em Hong Kong, de acordo com a China Aid, organização cristã de defesa dos direitos humanos sediada no Texas. Diversas pessoas disseram ter sido alertadas pela polícia de que ir a Hong Kong seria "causar problemas".

Difundir o evangelho na China continental também pode ser difícil. Os moradores de Hong Kong em muitos casos são tratados como estrangeiros e não têm permissão de estabelecer igrejas, distribuir panfletos, pregar ou difundir seu credo.

O reverendo John Qian, que foi pastor em Hong Kong e dirige programas assistenciais cristãos na China continental, afirmou que as autoridades passaram a monitorar de perto o seu trabalho. Segundo Qian, a polícia disse que ele precisava notificar as autoridades sobre suas visitas a igrejas da China continental. Neste ano, quando ele encomendou crachás e coletes para uma conferência em Hong Kong, o material foi confiscado, afirmou.

Quando Woo foi convocado para uma audiência do outro lado da fronteira, em julho, o que mais parecia incomodar as autoridades era o uso que ele fazia de redes sociais para recrutar estudantes da China continental para seus seminários. Woo assinou uma carta admitindo ter violado uma lei que proíbe estrangeiros de conduzir treinamento religioso sem permissão, e foi em seguida autorizado a voltar para casa.

No mesmo mês, cerca de 10 mil pessoas, a maioria da China continental, participaram da Homecoming, convenção anual de protestantes em Hong Kong.

David Zhang, 21, universitário de Tianjin, disse que a ênfase em ação social e o apelo por trabalho coletivo no combate ao mal o inspiraram. "Quando estamos na igreja em minha terra, costumamos ser mais contidos", disse.

Zhang declarou acreditar que a sociedade chinesa estivesse começando a aceitar mais a religião, mas que algumas pessoas ainda a percebiam como ameaça, o que levava o governo a reagir com rigor excessivo. "Só podemos orar que nossas ações falem mais alto do que as percepções incorretas", disse Zhang.

Fonte: Folha de São Paulo

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