sábado, 18 de julho de 2015

John Stott, - Obrigatória Escritura, tradição opcional

Em nossa tentativa de seguir a Cristo na distinção clara entre Escritura e tradição, devemos ter cuidado para não exagerarmos. Jesus não rejeitou todas as tradições humanas de repente, proibindo seus discípulos de apreciarem ou seguirem qualquer uma delas. O que ele fez foi colocá-las em seu devido lugar, um lugar secundário, e, em seguida, desde que não fossem contrárias à Escritura, torná-las opcionais.
Era isso que os fariseus estavam deixando de fazer. De acordo com a segunda parte da citação de Isaías, “seus ensinamentos não [passavam] de regras ensinadas por homens”. A palavra usada para “ensinamentos” aqui é didaskalia, que significa “uma parte ou direção definida de uma instrução”[1]. Em outras palavras, os fariseus estavam usando regras humanas que haviam herdado e apresentando-as como se fossem ensinamentos autênticos. Eles tentavam levar outros para além do que Deus havia ordenado. Ao fazerem isso, elevavam sua tradição a uma posição de autoridade equivalente aos mandamentos revelados por Deus, o que era praticamente o mesmo que dizer que cumprir suas tradições era necessário para a salvação. Contudo, as coisas não eram assim.
Consideremos os rituais de purificação dos fariseus. Não há nada de errado em lavar as vasilhas nas quais o alimento deve ser servido ou em lavar as mãos antes de comer. Em questão de higiene, trata-se de algo muito sensato. Cerimonialmente, porém, é uma prática muito inofensiva. Sem dúvida, não contraria a Escritura. Em contrapartida, ela não é ordenada por Deus em sua Palavra, e, por isso, os fariseus não tinham o direito de elevá-la à posição de uma exigência divina e torná-la obrigatória.
Os regulamentos dos fariseus com relação a “Corbã” eram similares. Di­ziam respeito ao cumprimento de votos, os quais a lei claramente ordenava que fossem cumpridos. Entretanto, os fariseus foram além da Escritura e estabeleceram regras detalhadas de modo que, em certas situações, Jesus teve de dizer-lhes: “Vocês o desobrigam de qualquer dever” (v. 12). Essa é uma expressão muito reveladora, pois indica que os fariseus estavam se constituindo juízes morais ao ordenarem certas práticas e proibirem outras. Eles concediam e negavam permissão em assuntos nos quais Deus não lhes tinha dado direito algum de interferir.
Assim, Jesus insistiu em que essas tradições inofensivas, que não são exi­gidas nem proibidas pela Escritura, devem ser consideradas opcionais. Uma vez que são apenas “regras ensinadas por homens”, é possível que nunca se tornem obrigatórias. As pessoas são livres com relação a elas. O fato de Jesus não ter justificado nem repreendido seus discípulos por violarem as tradições rituais dos fariseus mostra que ele estava muito tranquilo quanto a elas. Ele resistia e condenava qualquer tentativa de impor tradições como se elas fossem essenciais.
Esta é a doutrina da suficiência da Escritura que os reformadores do século 16 entendiam muito bem. A Igreja Anglicana expressa claramente a questão em seus 39 Artigos da Religião. O artigo 6º diz: “A Sagrada Escritura contém todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma que seja crido como um artigo de Fé ou julgado como exigido ou necessário para a salvação”.
Isso não significa que a Igreja não tenha autoridade. As tradições ino­fensivas que não sejam contrárias à Escritura são permissíveis, mas não podem ser obrigatórias. O artigo 20º diz: “A Igreja tem poder de decretar Ritos ou Cerimônias […]; todavia, não é lícito à Igreja ordenar coisa alguma contrária à Palavra de Deus escrita […] Portanto, mesmo que a Igreja seja testemunha e guarda das Escrituras Sagradas, todavia […] também não deve obrigar que seja acreditada coisa alguma que nelas não se encontra como sendo necessária para a salvação”.
A distinção é clara. A Igreja nunca tem autoridade para decretar qualquer coisa “contrária” à Escritura. Além (à parte) da Escritura, ela pode criar regras, desde que não as torne uma condição para a salvação.
Deixe-me ilustrar o princípio com práticas da Igreja Anglicana. Os candidatos ao batismo nessa igreja são tradicionalmente marcados com o sinal da cruz na testa como uma indicação de que “não têm vergonha de confessar a fé do Cristo crucificado”. Temos, ainda, as práticas de a noiva (e, muitas vezes, o noivo também) receber um anel durante a cerimônia de casamento, de o caixão ser levado à igreja durante a cerimônia fúnebre e de os ministros usarem certas vestes durante o culto público. A Escritura não ordena nenhum desses costumes. Ao mesmo tempo, eles não são contrários a ela. Portanto, são permissíveis, desde que não sejam investidos de autoridade divina nem impostos às pessoas como essenciais para a salvação.
O que se aplica às igrejas é igualmente válido para os cristãos como indivíduos. Podemos valorizar certas tradições, seja no que cremos ou no que fazemos. Por exemplo, podemos adotar formas específicas de lidarmos com a oração, a leitura da Bíblia, a celebração da Ceia do Senhor, o jejum ou as ofertas cristãs. Desde que nossas escolhas nessas áreas não sejam contrárias ao ensino da Bíblia, somos livres para praticá-las. Não temos, entretanto, o direito de tentar impô-las aos outros. Fazer isso é elevar regras meramente humanas a uma categoria que elas não merecem. Outras pessoas devem ter liberdade para rejeitá-las.
– Trecho do livro As controvérsias de Jesus, de John Stott, p. 62.
Nota:
[1] SWETE, H. B. The Gospel According to St. Mark. Macmillan, 1898. Comentário sobre Marcos 7.7.
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