segunda-feira, 22 de junho de 2015

Pastor foi “cuspido” da igreja e realiza trabalho missionário ao ar livre

Há 16 anos, o pastor Daniel ‘Caveira’ realiza atividades no centro do Recife, inclusive com homossexuais e garotas de programa

Jénerson Alves

Em tempos de malafaias e felicianos, o pastor Daniel Oliveira aparece como um contraponto no mínimo inusitado. A começar pelo nome, pois ele fez questão de informar à nossa reportagem: “se colocar [meu nome] como Daniel Oliveira, ninguém vai saber quem é. Todo mundo me chama de Daniel Caveira, mesmo”. Mesmo sendo pastor – formado pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil (STBN), em Recife/PE –, ‘Caveira’ não trabalha em um templo com paredes. Ele foi “cuspido” da igreja. “A situação da sociedade me fez ser cuspido, no sentido de que não era possível ficar dentro de um templo para fazer nosso trabalho”, esclarece.

‘Caveira’ está à frente da ARCA, a Ação de Rua e Cultura Alternativa, que é uma iniciativa missionária interdenominacional. Há 16 anos, o grupo atua no cenário urbano, principalmente com trabalhos voltados para pessoas que estão à margem da sociedade. Atualmente, a ARCA é formada por cerca de 80 pessoas, que se reúnem todos os sábados, das 19h30 às 21h, no Parque 13 de Maio, localizado no centro do Recife. Homossexuais, skatistas e garotas de programa estão entre o público-alvo da ação.

Recentemente, Daniel ‘Caveira’ esteve em Caruaru e conversou com Presentia, contando um pouco as suas experiências e comentando o cenário atual da igreja evangélica brasileira. Sobre os recentes ‘conflitos’ entre evangélicos e homossexuais, ele opina: “A igreja é quem mais perde com essa briga”. Confira:

O senhor disse que foi “cuspido” da igreja, para poder fazer a obra de Deus. Como foi essa experiência?

Só salientando que o ‘cuspido’ que eu falo não é que a igreja local me colocou pra fora, mas a situação da sociedade me fez ser cuspido, no sentido de que não era possível ficar dentro de um templo para fazer nosso trabalho. Isso porque o conceito da sociedade para com templo, igreja e pastor estava totalmente errado.  Por esse problema, tive de ir para a rua, tirar toda a caracterização da igreja tradicional, tirar parede e, a partir desse trabalho, houve uma maior abertura para receber essa galera.

Sua igreja atende um público alternativo, inclusive de homossexuais. Atualmente, há uma certa polarização, com evangélicos de um lado e homoafetivos de outro. Como você avalia essa distorção?

Eu acho isso uma grande infelicidade. De um lado, as pessoas tendem a julgar o homossexual pelo ser homossexual. Muitas vezes, as pessoas não conhecem a história. Se o homossexual ataca a igreja, a gente precisa entender o porquê desse ataque, pois normalmente é por causa de uma experiência que fez com que a igreja, para ele, representasse algo ruim. A igreja, por outro lado, se sente dona da razão e julga. Eu acho que quem mais perde com essa briga é a igreja, que tem por obrigação amar. O Evangelho de Jesus, em sua essência, nos faz amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos. Precisamos ser feito Jesus, que Se deu pelos outros. Quando a igreja entra no embate político e social contra um grupo específico, isso não soa bem. O cristão deveria, na verdade, resolver a coisa mediante o serviço e o amor. É isso o que está faltando por parte da igreja.

Como começou esse trabalho da Arca?

A gente está há 16 anos. Começamos com cinco skatistas. Foi algo bem informal. A gente não tinha nada planejado do que é hoje e o trabalho foi evoluindo e tomando forma, de acordo com as necessidades que foram aparecendo, as pessoas, os seus problemas, as suas dificuldades. Nós vimos as pessoas que – digamos assim – não eram tão atendidas pela igreja tradicional. Nós fomos navegando pelos mares da violência sexual, da umbanda, dos homossexuais, da prostituição. Aí, fomos criando um grupo que foi vivendo e atendendo a essas pessoas. Hoje, nós somos uma igreja de rua que procura ser um espaço para, literalmente, pregar a boa notícia do amor de Jesus e receber as pessoas, independente de sua raça, seu credo, sua opção sexual. A gente recebe todo mundo lá, promove louvor, promove a pregação da Palavra e, durante a semana, a gente tenta fazer com que todo mundo se encontre.

Então, a questão litúrgica é completamente diferenciada dos referencias da igreja tradicional?

Na verdade, isso foi e não foi intencional. Isso foi acontecendo, por causa da necessidade. Quando você vai para a rua, você perde toda a estrutura de templo, de instrumentos, de púlpito, tudo isso. Ao mesmo tempo, foi legal porque a gente viu nisso a oportunidade de refazer tudo, de acordo com o que a gente realmente necessitava, que era um momento de adorar a Deus, em comunhão, e estudar a Bíblia. É algo simples, que praticamente só tem os elementos. A gente não tem dirigente do culto, não há grupo de louvor ou vocal principal. Os elementos simplesmente acontecem. A exposição da Palavra é o texto pelo texto. Costumamos pregar sobre os livros, em sequência, por completo, para que não haja pretextos em levar temas próprios ou intencionais.

Como acontecem batismos ou recepção de membros?

A gente não tem, por enquanto, um acompanhamento formal, mas a gente sabe que vai chegar um momento em que será necessário ter um certo controle. Porém, até o momento, não foi vista a necessidade disso. Na Arca é assim: se não há necessidade, não há a prática.
Ou seja, batismo é uma questão de tempo: já tem gente que foi discipulada quer se batizar. Estamos nos organizando para isso acontecer.

Você falou sobre a questão da necessidade. Já foi sentida, nesse período, a necessidade de conseguir um templo para as reuniões?

Não. Ainda não. E eu acho legal isso, porque com uma estrutura vem um monte de coisas: contas, manutenção. Hoje, a gente só não é itinerante porque não muda o lugar, mas a gente é igreja onde estiver. Basta sentar e estudar a Bíblia. É verdade que no inverno a gente sofre um pouco, mas até nisso a gente tem tido – para os crentes a graça de Deus e para os ateus a coincidência. Não chove no horário em que a gente está fazendo a Arca.

Quem quiser saber mais sobre a ARCA, pode acessar o site http://www.arcabr.com/.


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