quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Jogador Cicinho venceu alcoolismo e depressão após se tornar evangélico


Em entrevista ao Globo Esporte o jogador Cicinho, que atualmente veste a camisa do Sivasspor, da Turquia, revelou que conseguiu superar o alcoolismo ao se tornar evangélico.

Quando retornou ao Brasil para defender o Sport, em 2012, Cicinho falou abertamente sobre o alcoolismo que enfrentara entre 2009 e 2010. Na Ilha do Retiro, o ex-jogador da seleção brasileira lembrou do período em que foi derrotado pela bebida, mas evitou aprofundar-se no assunto. 

Aquele "testemunho", na opinião dele, era suficiente para mostrar que os caminhos tortuosos já haviam sido derrotados.

Ao virar evangélico, influenciado pela esposa, Cicinho se transformou em outra pessoa e, desde então, não colocou mais álcool na boca - são quatro anos, segundo o jogador. 

Nesta semana, durante rápida passagem por Ribeirão Preto (ele é natural de Pradópolis, cidade vizinha), o jogador do Sivasspor, da Turquia, decidiu contar detalhes do processo que, por pouco, não o tirou dos gramados.

REAL MADRID, O AUGE

Os deslizes de Cicinho começaram no embarque para a Espanha. Iludido com o glamour de fazer parte dos "Galáticos" do Real Madrid, o lateral achava que sua carreira decolara ao ponto mais alto que um jogador pode chegar. Além de altos salários, títulos e seguidas convocações para a seleção brasileira desviaram seu foco profissional.

– Quando encontrei Ronaldo, Roberto, Zidane, e depois fui convocado para a Copa do Mundo, pensei: "Cheguei no ápice. O que mais eu sonho?". Comecei a enxergar a vida de outra maneira e pensei que estava na hora de curtir. Achava que tinha conquistado tudo – diz.

Não que o voo São Paulo-Madri tenha mudado a cabeça do jogador de uma hora para outra. A transferência do Botafogo-SP para o Atlético-MG já tinha mexido com ele, mas sem exageros. Mesmo no São Paulo, quando conquistou Libertadores e Mundial, o álcool não refletia no seu desempenho dentro de campo.

ROMA, O DECLIVE

Mesmo com os deslizes alcoólicos, Cicinho fez bons jogos com a camisa merengue. Porém, uma grave lesão no joelho o tirou dos gramados e, consequentemente, o fez perder espaço nos Galáticos.

Foi contratado pela Roma, onde foi bem em duas boas temporadas, mesmo "sob efeito de álcool". E quando estava na melhor fase, outra lesão no joelho agravou o seu problema com o álcool.

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– O médico disse que eu não jogaria mais. Fizeram um corte a mais na minha perna para poder limpar e reconstituir tudo. Isso me fez repensar "será que vale a pena?". Eu ligava direto para o meu pai para perguntar se eu poderia abandonar o futebol, mas ele dizia que eu estava maluco – conta o jogador, que escondeu o alcoolismo da família.

Treinando pouco e praticamente sem ambição profissional, Cicinho transformou a bebida em único alicerce de sua vida.

– Eu não imaginava, mas estava depressivo e entregue à bebida. Eu não queria mais responsabilidades. Eu ia dormir às 4h, 5h da manhã e acordava às 8h30 para treinar. Quando voltava, a geladeira estava cheia. Eu começava a beber – conta o jogador.

– Eu não ia pra balada. Na Europa, o clube proporciona boa moradia. Embaixo da minha casa tinha uma discoteca com tudo. Freezer, luz, som. Eu colocava meu sertanejo e ficava lá – emenda Cicinho, que seguia a cartilha do alcoólatra, de beber um pouco no dia seguinte para curar a ressaca.

O efeito era tamanho que o jogador se embriagava com cerveja e tequila antes de ir para o estúdio de tatuagem renovar seus desenhos.

– Como não suporto dor, eu bebia antes de sair para fazer as tatuagens. E não eram dois copos de cerveja. Eu tomava duas caixas e três doses de tequila para não sentir a dor. No dia seguinte, eu acordava com as costas inchada e me perguntava: "O que é isso?" Eu corria para o espelho e via uma tatuagem nova. Era quase que inconsciente – diz Cicinho.

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Quando menos esperava, o lateral encontrou a pessoa que transformaria sua vida. Marry, brasileira que morava há 11 anos na Itália, conheceu o jogador e, depois de muitas conversas, decidiu levá-lo à igreja.

– Ela que me apresentou Jesus. Recebi o convite para ir à igreja. Ela queria mexer com a minha fé. Fui, tive um encontro pessoal com Deus e senti a vida de outra maneira. Foi quando mudei totalmente minha cabeça – diz o jogador.

TESTEMUNHO

Quando Cicinho decidiu expor seu problema, ele não imaginava que outros jogadores fariam o mesmo. Sem vergonha de assumir seus erros, o lateral acredita que sua atitude encorajou outros atletas a mostrarem que também tiveram recaídas.

– Falo tudo isso porque sou um testemunho. Se você não tem uma estrutura, um relacionamento com Deus, você vai cair nas armadilhas que a vida proporciona – diz Cicinho. 

– Há dois anos, quando eu passava na porta de um bar, eu tinha vontade de entrar e beber uma cerveja. Hoje, não mais. Posso até sentar num bar, mas para comer um lanche, e sempre acompanhado da minha esposa – afirma.

Antes da Copa, o lateral-direito Maicon assumiu que viveu algo semelhante ao drama de Cicinho, assim como o ex-lateral Russo.

SÃO PAULO, O SONHO

Cicinho não esconde o seu desejo de um dia voltar ao São Paulo. Em seu discurso sobre o futuro, ele mescla entre "está nas mãos de Deus" e "gostaria muito de retornar ao Tricolor". De acordo com o próprio jogador, o único clube que o faria voltar ao Brasil é o São Paulo.

– Já falei para a minha esposa. Se um dia o São Paulo falar "a" para voltar, sem sombra de dúvida eu voltaria. Em 2010, quando voltei, não consegui jogar aquilo que eu jogava porque ainda estava com esse problema de alcoolismo – diz ele.

Na base da brincadeira, Cicinho fez um apelo aos torcedores que gostariam de vê-lo na lateral do São Paulo.

– Peço para eles fazerem uma enquete no São Paulo pedindo o meu retorno. Os torcedores poderiam ir até o CT (risos). Isso é um sonho, meu e da minha esposa. Ela ora muito por isso. No começo a gente orava porque eu queria mostrar para os outros que eu tinha condições de jogar no São Paulo. Hoje, penso que se voltarmos é porque Deus quer mostrar a transformação que ele fez na minha vida. Nada além disso - explicou.

Aos 34 anos, sem lesões ou dores no corpo, Cicinho não pensa em parar de jogar. Ele cogita, no fim da carreira, atuar pelo Botafogo-SP, clube que o revelou, mas, por enquanto, a aposentadoria não passa pela sua cabeça.

– Você vê o Rogério Ceni, o Zé Roberto. São jogadores que têm 40 anos e não pararam. Eu estou bem, jogando em alto nível. Não tenho esse pensamento.

Globo Esporte

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