domingo, 9 de novembro de 2014

Osmar Ludovico - Invocação do nome de Jesus Cristo

A Oração de Jesus – ou Oração do Coração – é uma das disciplinas mais importantes da Igreja Oriental. E ela é uma disciplina espiritual pouco conhecida no Ocidente e entre os reformados. A prática dessa oração é uma antiga e venerada tradição entre os ortodoxos, e foi a ocupação constante dos Pais do Deserto e dos monges que viveram solitários e em comunidade nos monastérios, tanto no Monte Sinai, no Egito, como em Jerusalém, ou seja, em todo o Oriente Médio. Depois, foi observada em Bizâncio, Monte Atos e, finalmente, nestes últimos tempos, na Rússia.
Sua forma exterior leva à repetição tão frequente quanto possível do nome de Jesus, associada à oração do publicano, registrada em Lucas 18.13: “Senhor, tem piedade de mim, pecador”. A essência dessa oração consiste em o fiel em dizer esta frase não de maneira repetitiva, como um simples rito, mas consciente do significado e do sentido de cada uma das palavras – e, ao mesmo tempo, buscando entrar em contato com os sentimentos que elas evocam.
A prece deve ser proferida com a razão e com o coração. É uma oração conduz à purificação dos pensamentos, à iluminação do homem interior; é experiência plena da presença do Espírito Santo no coração daquele que crê. A prece começa com a invocação do nome de Jesus Cristo. O termo Invocar vem do latim in – dentro ou no meio – e vocare, que significa chamar.
Invocar o nome de Jesus Cristo nos coloca diante dele, na sua terna, doce e amorosa presença. É diferente de uma recitação mecânica, ou mesmo da repetição de um mantra para aquietar a alma; trata-se de um movimento espiritual, um grito do coração. É um fluir, como o de uma fonte de águas vivas; é desfrutar, em quietude, da presença silenciosa do Deus amado.
O nome de Jesus de Cristo não é uma senha mágica, como um “abracadabra”, muito menos um fim em si mesmo. Ele é um meio, um nome sagrado que nos coloca na sua presença quando invocado. Isso acontece no silêncio do nosso coração, com toda a inteligência. Daí, entendemos o mandamento: “Não tomarás o nome do Senhor em vão, por que o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Deuteronômio 5.14). Tomar o nome de Jesus Cristo em vão é verbalizá-lo sem ter consciência do nome sagrado e da santa presença.
A Oração de Jesus não se trata de uma técnica, algo que, se praticado, levará a um resultado graças à engenhosidade, empenho e vontade humana. Não; o nome de Jesus Cristo é a revelação plena e definitiva da graça de Deus, do favor imerecido. Portanto, expressa a falência, a nudez, a finitude, a precariedade e a impureza daquele que o chama. Invocá-lo faz o pecador tomar consciência de seu estado com contrição, arrependimento e quebrantamento para, então, receber dele, e só dele, o perdão e o dom da vida eterna.
A oração continua com uma súplica: “Tem misericórdia de mim, pecador”. Os antigos místicos diziam que esta consciência da sacralidade divina, face à nossa miserável condição de pecado, é que pode nos conduzir à santidade – e, paradoxalmente, quanto mais santos nos tornamos, mais nos vemos como pecadores e vivemos quebrantados diante de Cristo, na dependência do Espírito Santo.
Fazer a oração nos leva a melhor apreciar, amar e a nos relacionarmos com a pessoa de Jesus Cristo. Ela nos engaja no combate contra o mal que está em nós: os maus pensamentos, as atitudes destrutivas, os desejos egoístas, enfim, o pecado que habita os cantos e labirintos escuros dos nossos corações. Não se trata, no entanto, de uma forma de quietismo ou alienação. O lema de Bento de Núrcia, monge italiano do século 6, é ora et labora. É orando e trabalhando que somos transformados e nos tornamos instrumentos nas mãos de Deus a serviço de seu Reino, para contribuir a fim de que este mundo seja melhor, mais justo, pacífico e solidário. É orando e trabalhando que nos tornamos mais obedientes, mais humildes, mais fecundos e mais servos do próximo.
“Jesus Cristo, tem piedade de mim, pecador”. É uma oração para ser feita no ritmo do coração, diversas vezes durante o dia e na calda da noite. É um grito do coração sedento, que mistura a o desespero do pecado e a esperança da salvação. Uma necessidade irresistível e perpétua de invocar a socorro de Jesus Cristo face à nossa impotência e à nossa completa dependência dele para viver.
cristianismo hoje

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