segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Ahmed, jovem pai palestino, escreve carta dramática de Gaza: Não vamos sobreviver!

Ahmed, jovem pai palestino, escreve carta dramática de Gaza: Não vamos sobreviver!Esta é a carta de Ahmed, filho de um amigo meu, morador de Gaza. Conheci o pai de Ahmed,Mussah, que trabalhou muitos anos em uma oficina metalúrgica no sul de Tel Aviv. Ele era um homem muito bom, que costumava sair todos os dias as 4 da manhã de Gaza para começar a trabalhar às 6 e meia. Mussah trabalhava duro para sustentar sua família pois queria comprar um apartamento em Gaza. Ahmed, filho deMussah costumava vir de vez em quando para ajudar seu pai no trabalho. Hoje Ahmed, tem 30 anos e já é pai. Ele nos conta sua história:
Muitos anos atrás, quando meu pai teve que deixar seu trabalho em Tel Aviv, começou a trabalhar em uma pequena oficina de “ferreiro” em Gaza. Economicamente era difícil e eu costumava ajudá-lo a fim de obter o sustento de nossa casa. Depois que Israel deixou a Faixa em 2006, caminhões lotados de bandidos do Hamas se alastravam pelas ruas da cidade. Eles atiravam para todos os lugares e batiam em qualquer um que aparentemente estivesse contra o governo do Hamas. As pessoas tinham medo de andar nas ruas. Meu pai proibiu minha família de sair de casa por alguns dias. Depois de um tempo só eu e meu pai saíamos para nossa oficina, a fim de sustentar a família. Mas toda vez que ouvíamos um veículo, corríamos para procurar um esconderijo. Um dia, uma caminhonete cheia de bandidos parou em nossa rua. Eles entraram numa loja e sequestraram o proprietário. Dois dias depois, o dono reapareceu com o rosto cabisbaixo. Chamei meu pai, sentei-me ao lado para ouvir o que falava. Compreendi que Hamas o havia notificado que a partir daquele dia, a loja pertenceria ao Hamas, e ao Hamas apenas. Eles então definiram os preços dos produtos e o quanto encomendariam.
Desde aquele dia todas as manhãs um membro do Hamas, armado costumava vir até a loja e nos ordenar a fazer tubos de metal. Depois entendi que tais tubos foram usados para fabricação e lançamento de foguetes. Um dia, uma das caminhonetes parou em nossa rua. Um dos membros do Hamas entrou em nossa oficina e levou meu pai. Nunca mais o vi. Depois soube que o mataram e jogaram seu corpo numa vala. A vida se tornou cada vez mais difícil. O trabalho não era suficiente. Mal tínhamos para o pão e leite de cada dia.
Um dia, um amigo meu me chamou para acompanha-lo num serviço. Como precisava de dinheiro, aceitei. Fomos a um apartamento na cidade onde encontramos seis homens. Eles nos colocaram na parte de trás de um caminhão. Sentamos no escuro e não conseguíamos ver onde estávamos indo. O caminhão rodou por uma hora e, finalmente, parou. Encontramos um prédio fechado e não sabíamos onde estávamos. Eles nos mostraram um buraco no chão e nos mandaram entrar. Foi assustador perceber que estávamos dentro de um túnel. Andamos por algumas centenas de metros e chegamos ao final, onde dois membros do Hamas esperavam por nós. Eles nos deram ferramentas de trabalho e explicaram o que fazer. Queriam um túnel mais longo.
O trabalho era duro. Sentíamos sufocados por falta de ar. Trabalhávamos em turnos de 8 horas e depois de 4 horas de descanso. Ficamos 10 dias no túnel. Os guardas do Hamas mudavam todos os dias. Um dia começaram a gritar conosco e a nos bater quando acharam que não estávamos trabalhando o suficiente. Depois de 10 dias nos levaram para fora, nos colocaram em um caminhão, nos deram um pouco de dinheiro e nos deixaram em algum lugar na cidade. Não sabíamos onde estivemos e nem a localização do túnel que cavamos. O salário era baixo, mas eles pagaram, no entanto, nunca mais voltei aquele trabalho. Tentei conseguir algum serviço na oficina de metalurgia, mas a loja havia sido fechada. Perguntei aos vizinhos o que tinha acontecido e eles responderam com medo, que Hamas havia mudado a loja para outro local. Ninguém sabia onde. Eles disseram que todas as manhãs um caminhão vinha, pegava os trabalhadores, os colocava na parte do trás e os levava. Só retornavam a noite. Mas eu acabei trabalhando em empregos temporários, para cuidar de minha família.
Vivemos em constante medo, pois de vez em quando um caminhão cheio de membros armados do Hamas vem e atacam civis. Em Gaza vemos os membros ricos do Hamas que vivem em suas casas glamorosas, dirigindo carros novos, enviando seus filhos para universidades no exterior, enquanto a maioria dos cidadãos vivem em meio ao medo, pobreza e sem poderem trabalhar. As vezes as crianças correm e dizem que o Hamas está dando doces de graça em algum lugar ao redor de Gaza. Quando chegam lá, no entanto, o que ouvimos são foguetes sendo lançados (no  mesmo lugar dos doces). Israel revida ao ataque e assim muitas crianças são feridas.
Estou escrevendo esta carta, porque a situação é muito ruim. Por sorte, tenho família que vive em outras áreas da faixa. Por conta da guerra de Hamas contra Israel, (onde Hamas lança seus foguetes constantemente a partir das nossas comunidades), é o povo que sofre as consequências. Não temos lugar para nos escondermos. Os membros do Hamas se escondem em seus abrigos sob a terra. Alguns deles nem sequer estão aqui. Estão protegidos e não têm nenhum problema para continuarem lutando.
Há muitas famílias que alugam quartos de suas casas para o Hamas. Estes lhes dão dinheiro para que tenham comida na mesa e agora usam estas casas para dispararem foguetes contra Israel. Muitas dessas casas já foram atingidas pela força aérea. Nós sofremos muito. Temos medo do Hamas. Temos medo dos seus bombardeios. Há enormes explosões o tempo todo, nós ouvimos o barulho dos foguetes e sabemos que em um minuto ouviremos o barulho de outras explosões.
Ouvi falar sobre os túneis que o Hamas havia escavado e entendi que eu os ajudei. Só não entendo porque estão fazendo tudo para atingir Israel, em vez de desenvolver a faixa de Gaza para que o povo viva em melhores condições. Espero que tudo isso acabe e eu e minha família sobreviva. Mas perdi a esperança. Sei que o Hamas vai levar todo o dinheiro que o mundo está nos dando para a restauração da faixa e usá-lo para construir mais túneis, comprar mais armas e construir mais moradias para os líderes dos seus bandidos. Hamas continuará aterrorizando nossas ruas, atacando civis. O que posso dizer é que alguns dos líderes do Hamas se escondem em abrigos debaixo de hospitais e escolas, porque sabem que Israel não vai prejudicá-los ali. Isto é uma parte da nossa vergonha!
Que o mundo nos ajude a nos vermos livres do cruel e temeroso governo do Hamas. Estou em Gaza. Peço que não exponha o verdadeiro nome de meu pai, o meu e de meu amigo, ao compartilhar esta carta. Eu oro pela morte de todos os membros do Hamas e para que tenhamos liberdade e uma chance de viver uma vida normal com os nossos filhos.
Gostaria de poder voltar aos dias em que trabalhava com meu pai na oficina em Tel Aviv com nossos bons amigos em Israel…
Fonte:  Itzik Azar, Traduzido por Moshe Mekler, Julho de 2014 via Angela Bibi/Facebook.
Raquel Elana, formada em Teologia, Pós Graduação em Jornalismo Político/ (Jornalista – MTb 15.280/MG) e Ministérios Criativos pelo IBIOL de Londres, é autora de 3 livros, entre eles: Anjos no Deserto - uma coletânea de testemunhos dos seus quase 10 anos de trabalho no Oriente Médio. Desde o ano passado está envolvida com o trabalho de atendimento aos refugiados da guerra civil da Síria.
gospelmais

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