quarta-feira, 7 de maio de 2014

Superlativos de N. T. Wright


artigo de capa do último número da revista norte-americana “Christianity Today” (abril de 2014) traça um perfil do biblicista mais importante do século: Nicolaus Thomas Wright. Ele assina seus livros mais acadêmicos como N.T. Wright, mas é popularmente conhecido como Tom Wright. 

Eu confesso uma certa dificuldade de falar de Wright, pois acabo recorrendo para repetidos superlativos. Desta forma, corro o perigo de não ser levado a sério, pois acabo parecendo como as propagandas comerciais que promovem o seu produto como “o melhor do mundo”. Só que, no caso de Wright, pela sua produção acadêmica, pela sua apresentação como líder espiritual de fé, e acima de tudo, pela sua leitura bíblica tanto renovadora quanto enraizada no rigoroso estudo bíblico, não há alternativa. Felizmente não estou sozinho nesta avaliação. Uma busca rápida no Google sobre N.T. Wright revela miríades de admirações (e superlativos). Ao mesmo tempo, durante muito tempo, Wright também teve os seus críticos ferrenhos, inclusive pessoas que o mundo evangélico também admira muito, como, por exemplo, John Piper (leia Heresia: uma palavra que não combina com N. T. Wright). O que percebo, entretanto, é que a proporção de opositores diminui muito a medida que Wright publica mais (somente neste ano, pela minha contagem, foram 2.928 páginas de livros; para uma lista completa, acesse http://ntwrightpage.com/), e as pessoas leem cada vez mais o que ele escreve e não apenas o que os críticos escrevem a seu respeito. Tanto que esta revista, “Christianity Today”, conhecida como uma das mais importantes vozes do evangelicalismo conservador norte-americano, também não poupou elogios a este estudioso bíblico britânico. Para dar uma ideia, resumo os principais pontos deste artigo assinado pelo pastor metodista Jason Byassee.

1. Superlativos. Em pelo menos cinco áreas, é necessário usar superlativos. Primeiro, ele é o estudioso bíblico mais prolífico desta geração. Segundo, muitos o consideram o apologista mais importante para a fé cristã desde C.S. Lewis. Terceiro, ele escreveu a mais extensa série de comentários populares do Novo Testamento desde William Barclay (quase 50 anos). Quarto, é um dos mais importantes líderes eclesiásticos, tendo ocupado a função de Bispo de Durham da Igreja Anglicana, um bispado tradicionalmente conhecido como o bispado acadêmico da igreja. Finalmente, as pessoas ficam comovidas e suas vidas são transformadas, ao ouvir ou ler Tom Wright. Eu costumo dizer aos meus alunos que passei por três fases da minha formação intelectual: a formação teológica em um seminário evangelical e rigoroso (Seminário Teológico Gordon-Conwell), o estudo de pós-graduação e doutorado na área da missiologia (Seminário Teológico Fuller), e depois, as minhas leituras de Tom Wright nos últimos quase 30 anos.

2. Igreja e academia. Wright e seu irmão foram criados em uma família de classe média que frequentava a Igreja da Inglaterra (ou Igreja Anglicana) e aprenderam a viver piedosamente. Como jovem, ouviu um palestrante fazer um apelo para a formação acadêmica de mais evangelicais e assim resolveu seguir uma carreira acadêmica ao invés de eclesiástica. A desta forma prosseguiu com seus estudos, sempre em primeiro lugar em sua classe nos estudos universitários e diversos cursos de pós-graduação. Mas nunca conseguiu se afastar por completo da vida eclesiástica servindo como capelão (1978-81, 86-93) e, como já mencionamos, Bispo de Durham (2003-2010). E é lembrado pelos seus rebanhos como um pastor cuidadoso e prestativo, um homem de fé. Mas é na academia que Wright é conhecido mundialmente como Professor do Novo Testamento sempre nas escolas mais prestigiosas como a Universidade de Oxford na Inglaterra, a Universidade McGill no Canadá e na Universidade de St. Andrews na Escócia. Além do seus dois doutorados acadêmicos, possui mais doze doutorados e “fellows” honorários e muitos outros prêmios. E é um incansável palestrante em numerosas escolas e igrejas.

3. Maior que Bultmann. Não importa o quanto se discorde da perspectiva que Rudolf Bultmann trouxe para o estudo “científico” da Bíblia, inegavelmente a sua influência foi mais abrangente (e, ao meu ver, prejudicial) para o estudo do Novo Testamento que qualquer outra pessoa do século 20. Sua proposta de “desmistificação” liberalizou as mais tradicionais instituições de ensino teológico que eram redutos do ensino puritano até o final do século 19. Para Bultmann, as Escrituras eram verdadeiras somente no nosso “interior” e sempre erradas nas suas afirmações históricas e nos seus relatos repletos de milagres. Muitos estudiosos bíblicos procuraram ou avançar ou qualificar as suas ideias a fim de abrir espaço para suas próprias propostas, mas a transformação maior de paradigma da perspectiva bíblica veio principalmente dele. Tipicamente os estudiosos “evangelicais” ou conservadores combatiam o seu ensino simplesmente por mostrar a sua incoerência com o dogma tradicional. Mas quase nunca isto ocorre, ou ocorreu, a partir das mesmas ferramentas metodológicas (ou desafiando-as cientificamente). Este papel sobrou para N.T. Wright e acredito que seja justamente isto que irrita os críticos conservadores de Wright. Ou seja, Wright se dar ao árduo trabalho de dominar as metodologias críticas de Bultmann e todo o empreendimento de estudo bíblico liberal e faz questão de dialogar com eles nos seus próprios termos. Assim, sem mais nem menos, ele escreve livros sobre Jesus e Paulo, junto com autores liberais como John Dominic Crossan e Marcus Borg, concordando onde pode e demonstrando e suas falhas, e isto, a partir da própria metodologia dos seus oponentes. Nenhum outro autor que afirma as doutrinas fundamentais da fé fez isto. Ninguém. E, além disto, Wright o faz de forma transparente e convincente.

4. O que Wright ensina sobre Paulo? Este ano Wright acaba de lançar a obra mais extensiva acerca de Paulo na história do cristianismo! São dois volumes de 1.519 páginas em inglês intitulados “Paul and the Faithfulness of God” (Paulo e a fidelidade de Deus) publicados pela Fortress Press. Como se isto não fosse suficiente, lançou mais dois livros para acompanhar esta mega obra: uma coletânea de monografias escritas desde fins da década de 70, “Pauline Perspectives” (Perspectivas paulinas); e “Paul and His Recent Interpreters” (Paulo e seus intérpretes recentes) onde o autor dialoga com outros estudiosos de Paulo dos anos passados. Obviamente, é difícil resumir obras tão volumosas e detalhadamente argumentadas. Mas o cerne do pensamento de Wright se encontra em três capítulos. Nestes três capítulos, Wright apresenta um Paulo que reinterpretou o monoteísmo judaico como revelado em Cristo Jesus (capítulo 9), reinterpretou o povo de Deus como a igreja em continuidade com os propósitos de Deus para Israel (capítulo 10), e reinterpretou o futuro do mundo como uma história de esperança que informa e transforma o comportamento de cristãos e a ação da igreja no mundo hoje (capítulo 11). 

Com certeza algumas destas ideias coadunam com uma escola de pensamento chamada frequentemente a “Nova Perspectiva sobre Paulo” (NPP). E, de fato, estudiosos identificados largamente com este pensamento, como E.P. Sanders, James Dunn e Ben Meyer, acreditam que a “novidade” foi introduzida pelos reformadores e que eles estão procurando ler as Escrituras a partir do primeiro século, e não o décimo sexto século. Obviamente isto levanta muita polêmica entre uma gama de estudiosos literalmente tradicionais que defendem efetivamente uma convicção de que os reformadores já tinham a última palavra e qualquer outra interpretação é altamente perigosa. E é fácil entender esta postura. Mas Wright, que por sinal tanto apoia muitas das posturas da NPP quanto é um dos seus críticos mais ferrenhos, simplesmente observa que os reformadores escreveram diante de um contexto específico, a Reforma Protestante, e precisam ser lidos e entendidos desta forma. Ele argumenta que os judeus antigos, inclusive os judeus cristãos, simplesmente não eram tão individualistas e obcecados pela vida por vir quanto os cristãos medievais e seus herdeiros hoje. Ao invés de falar tanto sobre as almas e a salvação do inferno, estes falavam e ensinavam incessantemente a respeito da fidelidade de Deus para com Israel. E este foi o ensino central de Paulo ao redor do qual todos os outros ensinos giram. E, de fato, dificilmente vai-se ouvir falar de Israel numa apresentação evangelística. O objetivo é de alívio da culpa da imoralidade individual e a garantia de sobrevivência depois da morte. Para Wright, passagens como Romanos 4 e Gálatas 2 não se referem à justiça imputada de Deus para os crentes. A palavra traduzida “imputada” é mesmo literalmente “creditada” e a promessa de Deus diz respeito ao cumprimento das promessas de Deus para Israel em Cristo para recriar o mundo por meio da única família de judeus e gentios em Cristo. Mas sejamos claros: isto não significa que Wright se opõe à doutrina da justificação pela graça de Deus. Pelo contrário, Wright afirma amar esta doutrina. Apenas qualifica que Paulo não escreveu somente sobre isto.

5. As metáforas de tribunal se referiam a que, se não à justiça imputada? De acordo com Wright estas metáforas se referem ao julgamento justo e antecipado de Deus de vindicação sobre a condição daqueles que estão em Cristo (ou antes de Cristo, daqueles que observaram fielmente a lei) e a segurança de que serão ressurretos no Dia Final. E é justamente aqui que os críticos de Wright discordam, tanto John Piper no seu livro “The Future of Justification” (O futuro da justificação) para o qual Wright escreveu a sua réplica em 2010, “Justification” (A justificação), quanto uma equipe de estudiosos e estudantes da Trinity Evangelical Divinity School, encabeçada por Donald Carson.

Para prosseguir mais neste debate – algo que certamente ocorrerá aqui no Brasil também – teremos que nos aprofundar bem mais nos detalhes dos argumentos, das réplicas e das tréplicas. E assim fugiremos desta mera introdução à pessoa de Tom Wright, uma pessoa que afirma a autoridade das Escrituras e a centralidade da cruz de Cristo, algo infelizmente raro entre muitos estudiosos hoje, especialmente no hemisfério norte. Para Wright, a mensagem de Paulo é revolucionária: Jesus Cristo é o Senhor. E um dia o Senhor trará todos aos seus joelhos, até mesmo a própria criação (Romanos 8). Um último conselho de Wright, novamente por meio da reportagem pelo Pr. Jason: “Nunca focalize tanto a sua própria salvação ao ponto de esquecer o motivo pelo qual você foi salvo”.



É teólogo, missionário da Igreja Presbiteriana Independente, capelão d’A Rocha Brasil e surfista nas horas vagas. Pela Ultimato, é autor de A Visão Missionária na Bíblia eTrabalho, Descanso e Dinheiro. É blogueiro da Ultimato.

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