quarta-feira, 30 de abril de 2014

Confira a entrevista do Pr. Paul Freston ao Jornal Extra de Pernambuco

Paul Freston, professor catedrático
de Polí
tica e Religião
Jénerson Alves
Jornal Extra de Pernambuco

Sociólogo cristão opina sobre o ‘fenômeno Marco Feliciano’ e lança um olhar sobre a relação entre o discurso e a prática dos políticos evangélicos

“HÁ MUITA DISTÂNCIA ENTRE A BÍBLIA E A SOCIEDADE DE HOJE. NÃO DEVEMOS TRATAR A BÍBLIA COMO UMA RECEITA POLÍTICA PRONTA PARA SER IMPLEMENTADA HOJE. ISSO É RIDÍCULO”


JORNAL EXTRA – No ano passado, o senhor escreveu um artigo intitulado ‘Feliciano em perspectiva’, publicado na Revista Ultimato. Nesta semana, saiu uma notícia na internet mostrando que o deputado federal Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) é o político mais influente no Facebook, com a maior quantidade de curtidas, são mais de 840 mil admiradores. Qual sua opinião sobre essa situação e sobre esse personagem da política?

PAUL FRESTON – (Risos) Então. É um fenômeno, não é? Mas, vamos ver até onde vai isso. Vamos ver se ele vai conseguir dar continuidade a isso, para além da fama por causa da Comissão de Direitos Humanos. Quase que com certeza, ele vai ter condições de se reeleger, mas não sei se ele vai ter condições de se manter em termos de projeção política. Aí é mais difícil, é necessário ter mais lastro, mais conhecimento, mais sabedoria. Ficar famoso não é tão difícil. Manter a boa fama é complicado. Eu não sei se daqui a cinco anos alguém vai se lembrar dele. Posso estar errado, estou apenas estou levantando essa possibilidade. A impressão que eu tenho é que ele não tem tanto espaço assim na cúpula da Igreja Assembleia de Deus. O projeto político da Assembleia de Deus não passa por ele. Então, não sei até que ponto ele vai conseguir seguir crescendo.

JORNAL EXTRA – De que forma, então, os políticos evangélicos precisariam agir para conseguir esse lastro de atuação política mais coerente?
PAUL FRESTON – É uma tarefa muito diferente do que construir uma igreja e se manter ministerialmente. Mesmo ministerialmente, eu acho que o neopentecostalismo (segmento evangélico que prega a prosperidade a qualquer custo, teve início nos anos 80 e tem como principal ‘cabeça’ a Igreja Universal do Reino de Deus) tem dificuldade para se manter. A impressão que eu tenho é que passou um pouco do auge, porque para produzir comunidades mais sólidas e constantes ao longo de décadas, é necessário ter um lastro maior de doutrinas, ensinamentos e propostas de vida, para manter os membros interessados, sentindo-se atendidos. Acho que existe na política essa necessidade de algo mais amplo. Logo, não se consegue chegar muito longe com plataformas muito limitadas, muito restritas. Para ter uma carreira, chegar a ser mais do que uma peça decorativa no parlamento, é necessário ter mais lastro, seja de habilidade, conhecimentos ou força partidária. Geralmente, os políticos evangélicos não têm isso, via de regra, principalmente os políticos neopentecostais. 

JORNAL EXTRA – De que maneira o senhor avalia o posicionamento dos políticos religiosos no que diz respeito à questão dos Direitos Humanos?
PAUL FRESTON – Não acompanho muito de perto, assim, a atuação de parlamentares individuais. Então, eu não posso, assim, fazer um mapeamento. Contudo, eu acho que se tem um certo leque de posições nesse sentido.

JORNAL EXTRA – O senhor poderia descrever, mais ou menos, um panorama desse leque de posições?
PAUL FRESTON – Eu acho que há alguns, talvez, que são, digamos, de uma direita mais agressivamente hostil a noções de Direitos Humanos, como sendo uma coisa inerentemente de esquerda e nociva para a sociedade. Porém, eu acho que há outros que venham mais de uma postura com uma proporção de outros tipos de direitos, que muitas vezes se passa por uma incompatibilidade, entre noções diferentes de direito. Então, não é que eles sejam totalmente contrários à ideia de Direitos Humanos, mas são contrários a certos direitos emergentes e são preocupados com os efeitos sobre certos direitos mais antigos, especialmente ligados à questão de direitos de expressão e de liberdade religiosa. Eu acho que aí é outro tipo de posição. Aí, depois, há outros que têm posições mais nuançadas com relação a essas discussões, basicamente uma posição favorável. 

JORNAL EXTRA – As eleições presidenciais de 2010 foram marcadas por um forte debate religioso, como a questão do aborto e do casamento homossexual. Como o senhor acha que esses temas aparecerão nas eleições deste ano?
PAUL FRESTON – Eu acho que o aborto deva, provavelmente, reaparecer. O casamento homossexual, não sei, porque, de certa forma, já é um fato consumado, praticamente. 
JORNAL EXTRA – Há alguns meses, o reverendo Hernandes Dias Lopes (um dos principais líderes da Igreja Presbiteriana do Brasil) esteve em Caruaru e, em entrevista ao blog cristão local Presentia On Line, posicionou-se contrário aos pastores se lançarem na política. Qual a sua opinião sobre esse posicionamento?
PAUL FRESTON – Essa é uma posição clássica muito interessante, inclusive respaldada por cientistas sociais como Alexis de Tocqueville, quando escreveu sobre a posição da religião na democracia americana, na década de 1830, enfatizando o aspecto de o clero ficar distante dos embates partidários. Isso é para preservar a autoridade pastoral, para não deixar que o discurso religioso, baseado na Bíblia, se contagiar com contingências partidárias muito volúveis, incertas. Acho que há muito o que recomendar nessa posição. 
Como se diz, “a política é a arte do possível”. Portanto, pode-se concordar sobre certos princípios bíblicos acerca do que deve ser feito, mas deve-se pensar no que é possível ser feito hoje no Brasil. Além disso, há muita distância entre a Bíblia e a sociedade de hoje. Não devemos tratar a Bíblia como uma receita política pronta para ser implementada hoje. Isso é ridículo. Não podemos ter o mesmo grau de certeza das nossas posições políticas quanto a gente tem sobre as doutrinas da salvação e o cultivo das virtudes cristãs. Devemos ter um cuidado em não absolutizar nossas posições políticas.

JORNAL EXTRA – E com relação à ex-senadora Marina Silva? Qual sua análise sobre a trajetória política dela?
PAUL FRESTON – De certa forma, ela é a política mulher que foi mais longe no Brasil. Você pode discordar e dizer: “não, é a Dilma, que chegou à presidência”. Mas a Dilma chegou à presidência inteiramente pelas graças do Lula, ela nunca foi candidata a nada. A Marina, sim. Ela foi deputada estadual, inicialmente, depois senadora, ministra, candidata a presidente sem padrinhos homens e conseguiu quase 20% dos votos. Eu acho que, de certa forma, ela foi mais longe. Agora, até onde ela pode ir, vai depender muito do grau de desintegração do bipartidarismo efetivo que domina nos últimos 20 anos entre as coalização lideradas pelo PT e pelo PSDB. Se esse efetivo bipartidarismo acaba, ela talvez tenha condições. Agora, ela não chega lá, mas fica evidente que ela tem mais força popular do que o [Eduardo] Campos, então na próxima vez ela pode ser cabeça de chapa, em 2018. Ou, então, ela consiga registrar o partido próprio dela e se lançar assim.

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