terça-feira, 8 de abril de 2014

A próxima “onda brasileira”


Leo Ganem tem formação de biólogo e experiência como pesquisador nos Estados Unidos. Mas quando voltou ao Brasil acabou enveredando pela carreira de produtor musical até chegar à presidência da Som Livre, selo musical das organizações Globo. Hoje é sócio-proprietário da UM Entretenimento, que produz eventos e gerencia a carreira de diversos artistas evangélicos. Ganem e a UM, por exemplo, estiveram diretamente envolvidos na produção do Festival Promessas.

Em recente entrevista à Radio Uol, para o repórter Pedro Carvalho, Léo Ganem, que não é evangélico, falou de sua escolha pelo mercado “gospel” e destilou algumas “pérolas”, como a que dá título a essa coluna.

Ganem falou que quando ainda trabalhava na Som Livre havia uma coletânea “engavetada” chamada Promessas, que seria a primeira coletânea evangélica da gravadora. Resolveram arriscar um primeiro lançamento e o que os fez dar continuidade ao projeto que hoje conta com o festival e o troféu de mesmo nome, foi notar que “ela decolou, vendeu muito bem”. Tão bem que foi por conta do sucesso da empreitada que ele decidiu montar a própria empresa, a UM. 

Quando perguntado sobre o que faz uma música virar “hit evangélico”, Ganem disse que precisa ter uma “melodia simples que apele para uma grande massa” e uma harmonia também simples. Segundo Ganem, são músicas assim que “emplacam”. Em relação ao conteúdo, Ganem afirmou que a música evangélica se diferencia da secular por uma mensagem “bem costurada e que fale dos valores da fé”. Além disso, o artista tem que “navegar” bem tanto nos palcos como com os pastores e a igreja. 

Ainda sobre essa relação com as igrejas, Ganem externou a necessidade de criar laços “políticos e de relacionamento” com pastores e líderes evangélicos. Segundo ele “não é muito diferente do nosso dia a dia com outros negócios”. 

Ganem quase acertou, quando reconheceu que o termo “gospel” é inadequado para a música Cristã Brasileira, ao dizer que gospel é um estilo definido, originário dos Estados Unidos. Mas demonstrou ignorância ao definir o estilo como “música de louvor de igreja norte-americana”. Depende da igreja. Gospel aqui é um estilo musical ligado à música negra norte-americana, não às igrejas em geral. Para isso eu acho que o termo “Praise and Worship” seria mais adequado. Se ele morou dez anos nos EUA deveria saber disso. Vai ver ele não frequentou tantas igrejas assim quando esteve por aqui…

Quando perguntado sobre suas convicções pessoais e como encarara a mensagem das músicas evangélicas, Ganem se limitou a dizer “simpatizo muito”. Pela quantidade de dinheiro que ele faz, deve simpatizar mesmo…

Suas grandes apostas para o futuro da música evangélica são uma “Boy Band” Cristã e uma cantora evangélica de música eletrônica. É; mal posso esperar… 

É importante dizer que do ponto de vista mercadológico, Léo Ganem está corretíssimo; ele me pareceu uma pessoa inteligente e arguta, que sabe muito bem como funciona o “show business”. Seu desejo de conhecer mais e “navegar” com desenvoltura por igrejas e pastores é algo legítimo para alguém que quer fazer o seu negócio dar certo. 

O que precisamos pensar bem é até que ponto os artistas evangélicos devem se associar a alguém assim. Até que ponto artistas Cristãos devem aceitar os “padrões” do mercado e fazer músicas que “emplacam”. Até que ponto pastores e igrejas devem tolerar e abrir as portas de suas igrejas para laços “políticos e de relacionamento” fisiológicos que nada tem à ver com a mensagem do Evangelho sendo proclamada, mas com negócio puro e simples. Não podemos achar normal, aceitável alguém dizer que trabalhar com música Cristã “não é muito diferente do nosso dia a dia com outros negócios”. 

Se dependesse de Ganem, artistas como João Alexandre, Carlinhos Veiga, Gladir Cabral, Jorge Camargo e Vencedores por Cristo entre outros, jamais teriam chance de gravar nada nem participar de eventos evangélicos de grande visibilidade, já que não se encaixam no perfil do “hit evangélico”. 

Gente como Léo Ganem vê música evangélica de uma forma não muito diferente da forma como vê outros gêneros como axé, pagode, sertanejo universitário ou funk carioca; para eles, música evangélica é apenas e tão somente a próxima “onda Brasileira”. 

Será que é isso que queremos para a música Cristã no Brasil?

Um abraço, 

Leon Neto 
Leon Neto é mestre em musicologia pela Universidade de Campbellsville e Doutorando em Pedagogia Vocal pela Universidade Shenandoah. Atualmente atua como professor no departamento de Louvor na Liberty University.
folhagospel

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