domingo, 2 de março de 2014

Contra a idolatria da ganância

Definimos o evangelho da prosperidade como o ensino de que os crentes têm direito às bênçãos da saúde e da riqueza e que podem obter essas bênçãos por meio de confissões positivas de fé e da "semeadura", através de doações financeiras e materiais. O ensino da prosperidade é um fenômeno que atravessa muitas denominações em todos os continentes.
Nós ratificamos a graça e o poder milagroso de Deus e congratulamo-nos com o crescimento das igrejas e dos ministérios que levam pessoas a exercer a fé expectante no Deus vivo e no seu poder sobrenatural. Nós cremos no poder do Espírito Santo. No entanto, negamos que o poder milagroso de Deus possa ser tratado como uma técnica automática ou à disposição de humanos, ou ainda, manipulada por palavras, ações, dons, objetos ou rituais humanos.
Nós afirmamos que existe uma perspectiva bíblica da prosperidade humana e que a Bíblia inclui o bem estar material (tanto saúde como riqueza) em seu ensinamento sobre a benção de Deus. No entanto, consideramos como contrário à Bíblia o ensinamento de que o bem estar espiritual possa ser medido em termos de bem estar material, ou que a riqueza seja sempre um sinal da benção de Deus. A Bíblia mostra que a riqueza muitas vezes pode ser obtida através da opressão, do engano ou da corrupção. Negamos também que a pobreza, a doença ou a morte física sejam sempre sinais da maldição de Deus, ou evidência de falta de fé, ou o resultado de maldição humana, já que a Bíblia rejeita tais explicações simplistas.
Nós admitimos que seja bom exaltar o poder e a vitória de Deus. Mas cremos que os ensinamentos de muitos que promovem energicamente o evangelho da prosperidade distorcem seriamente a Bíblia; que suas práticas e seu estilo de vida geralmente são antiéticos e não semelhantes a Cristo; que eles costumam substituir o evangelismo genuíno pela busca de milagres, e substituem o chamado ao arrependimento pelo chamado para a contribuição financeira destinada à organização do pastor. Lamentamos que o impacto de seu ensino em muitas Igrejas seja pastoralmente prejudicial e espiritualmente doentio. É com alegria e firmeza que ratificamos toda iniciativa em nome de Cristo que busque trazer cura ao doente ou livramento duradouro da pobreza e do sofrimento. O evangelho da prosperidade não oferece nenhuma solução duradoura para a pobreza e pode desviar as pessoas da verdadeira mensagem e do verdadeiro caminho para a salvação eterna. Por essas razões, usando de sensatez, ele pode ser descrito como um evangelho falso. Por isso rejeitamos o excesso de ensino sobre prosperidade por ser incompatível com o cristianismo bíblico equilibrado.
a) Com insistência encorajamos os líderes da igreja e de missões presentes em contextos onde o evangelho da prosperidade seja popular, a compará-lo com atenção e cuidado ao ensino e exemplo de Jesus Cristo. Particularmente, todos nós precisamos interpretar e ensinar, segundo seu contexto e harmonia, os textos bíblicos comumente usados para sustentar o evangelho da prosperidade. Onde houver o ensino da prosperidade no contexto de pobreza, devemos nos opor a ele, com compaixão autêntica e ação que traga justiça e transformação duradoura para o pobre. Acima de tudo, devemos substituir o interesse próprio e a ganância pelo ensinamento bíblico a respeito do sacrifício próprio e da doação generosa, como as marcas do verdadeiro discipulado de Cristo. Nós ratificamos o apelo histórico de Lausanne por estilos de vida mais simples.
Nota: trecho retirado do documento O Compromisso da Cidade do Cabo (2010).
Marcas de Lausanne 74
Lausanne 1974 deslocou o eixo da reflexão teológica no contexto do evangelicalismo brasileiro. Da ocupação com a metafísica, a natureza e os atributos de Deus, imprescindíveis ao labor teológico, Lausanne chamou a atenção para a necessidade da reflexão a respeito da práxis da igreja e sua inserção no processo histórico de sinalização do reino de Deus como anúncio profético do novo céu e nova terra. Com isso, a partir da compreensão da missão integral da igreja, abriu o leque temático que ofereceu um novo horizonte para a experiência espiritual do Evangelho, que, além da expectativa de vida após a morte, convoca para uma esperança capaz de mobilizar os cristãos e suas comunidades para um estilo de vida fascinante no lado de cá do céu, a saber, o chão da história.
Ed René Kivitz, pastor da IBAB, em São Paulo (SP)

Leia também
O cristão e o dinheiro (revista Cristianismo Hoje)
O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fica no ar (revista Ultimato)
Participe:
Consulta Teológica e Pastoral "Um chamado à humildade, à integridade e à simplicidade".
Data: de 3 a 5 de abril.
Local: Atibaia (SP).
Promotores: Movimento Lausanne e Aliança Evangélica Brasileira.
Co-promotores: Ultimato e Cristianismo Hoje.
Apoio: AETAL, FTL-Brasil e Visão Mundial.

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