terça-feira, 8 de maio de 2012

De unidade de combate, Bope se transforma em tropa de pacificação

Perfil de operações muda e maioria hoje é sem tiros, em favelas pré-UPP. Após tomar área, tropa de elite atua como “prefeitura”: regula mototáxi, controla festas e faz até cultos

Conhecido e temido pelo combate em áreas de conflito, o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) exerce cada vez menos esse papel de guerreiro que o notabilizou e assume uma função paradoxalmente oposta, a de “pacificador”.

Essa mudança de perfil da unidade vem ocorrendo desde a implantação do programa das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), no fim de 2008, mas se intensificou a partir de 2011, capitaneado pelo atual comandante da unidade, tenente-coronel René Alonso. Ao assumir em 28 de dezembro de 2010, Renê afirmou ao iG que sua prioridade seria a pacificação de favelas.
A maior parte das operações da unidade desde então tem sido em áreas de pacificação, seja na tomada ou na manutenção do controle do território, de favelas como a Rocinha e o Complexo do Alemão. Os confrontos não acabaram - e o Bope ainda é chamado para emergências violentas -, claro, mas hoje a maioria de suas ações é sem tiros.


Com soldados flexíveis, nova atuação do Bope é tendência mundial entre Forças Especiais
faz reunião com a comunidade e procura escolas e igrejas como interlocutores

Foto: Agência O GloboPara Pinheiro Neto,
a guerra não pode ser o objetivo, mas o meio para obter a paz
Nos lugares onde entra, o Bope faz uma reunião geral e contato com escolas e igrejas locais, para se aproximar da comunidade e estabelecer comunicação com disseminadores e formadores de opinião internamente. Foi assim na Rocinha e está sendo assim no Alemão, onde a Tropa de Elite ocupa, desde 27 de março, as áreas antes mantidas pela Força de Pacificação do Exército.
Frequentemente, a ação é fruto da iniciativa do policial da ponta. Um sargento, pastor evangélico, viu um jovem casal, de 19 e 17 anos de idade, em uma casa no Alemão, vivendo com um bebê em ambiente sujo e bagunçando.
Usando da autoridade “moral”, o policial deu algumas horas para que o casal banhasse a criança, a arrumasse e limpasse a casa, senão ele chamaria o Conselho Tutelar. Segundo o subcomandante, a ação do policial foi apoiada pelos vizinhos e funcionou.
Também de forma não-institucional, policiais do Bope individualmente celebram cultos evangélicos semanais em áreas ocupadas.
Para o chefe de Estado-Maior operacional da PM, coronel Alberto Pinheiro Neto, comandante do Bope em 2007 e 2008, a mudança de atividade da tropa é uma nova realidade à qual os próprios policiais – habituados ao confronto – precisam se adaptar.
“A paz é o objetivo do nosso trabalho. Ninguém pode querer guerrear por guerrear. A guerra não pode ser o objetivo final: a meta é a paz. E o policial precisa se adaptar a essa nova realidade”, afirmou o coronel Pinheiro Neto.
Nas comunidades ocupadas pelo Bope, é comum ouvir comentários temendo por quando a equipe saísse. “Enquanto o Bope, com fama de incorruptível, está aí, está uma maravilha. Mas depois, quando vierem os PMs normais, só Deus sabe!”, disse ao iG um motoboy da Rocinha.

CARUARU

Em 2011, o Monte Bom Jesus foi pacificado e os moradores foram beneficiados com vários projetos dos governos municipal e estadual. Por este motivo, o antigo prédio da Escola Municipal Dom Antônio Soares Costa foi cedido à Polícia Militar para que o processo de pacificação fosse ampliado.
A escola foi reaberta recentemente como um benefício a mais para a comunidade.
Quem comanda os militares lá é Marlon Wilson, que é evangélico.
Há também a influencia de diversas igrejas evangélicas que ficam na redondeza do monte, entre elas a Metodista Wesleyana e a IEC Vale da Bênção Central.

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